O Teatromosca, de Sintra, e o coletivo francês Les Bâtards Dorés, de Bordeaux, estreiam a 12 de novembro, em Portugal, o espetáculo “Matadouro”, uma criação bilingue que resulta de um verdadeiro diálogo artístico transnacional e que coloca no centro da cena questões tão universais quanto inquietantes: a violência, a memória, os traumas familiares e os mecanismos de silêncio que permitem a sua perpetuação.
Em cena até 21 de novembro no Auditório Municipal António Silva (AMAS), em Agualva-Cacém, “Matadouro” é mais do que uma simples coprodução internacional. O espetáculo nasce do encontro entre duas estruturas teatrais que, apesar de origens geográficas distintas, partilham uma vontade comum de explorar novas formas dramatúrgicas e de cruzar linguagens artísticas contemporâneas. O resultado é uma obra construída entre dois países, duas culturas e dois idiomas, refletindo a própria natureza da história que conta.
Com texto de Jules Sagot e direção de Lisa Hours, figuras ligadas ao coletivo francês Les Bâtards Dorés, a criação acompanha Paula, uma jovem podcaster lisboeta que viaja até à Normandie para investigar o quotidiano dos trabalhadores de um matadouro. No entanto, a deslocação tem um propósito muito mais íntimo. A protagonista procura um primo que nunca conheceu e tenta desvendar uma herança familiar marcada por abusos, violência e segredos transmitidos ao longo de várias gerações.
A investigação conduz o público numa viagem que atravessa épocas e territórios. A narrativa recua ao ano de 1870, durante o cerco prussiano a Paris, para revelar as origens de uma linhagem familiar construída sobre a ocultação da violência e a sua transformação em algo aparentemente banal. Tal como o próprio título sugere, o matadouro surge não apenas como um espaço físico, mas também como uma poderosa metáfora das estruturas sociais e familiares onde a brutalidade pode ser normalizada, protegida e perpetuada.
A dimensão internacional do projeto está presente em todos os níveis da criação. O espetáculo é falado e legendado em português e francês, reúne intérpretes dos dois países e constrói uma linguagem cénica híbrida, combinando elementos do documentário, da performance ao vivo e da literatura. Em palco, Pedro Alves, Leonor Cabral, Tom Pezier e Manuel Severi dão corpo a uma narrativa que se constrói diante dos espectadores, acompanhando a protagonista na tentativa de recuperar vozes silenciadas durante décadas.
A componente sonora assume igualmente um papel central na construção dramatúrgica. A banda sonora e a sonoplastia são assinadas pela música portuguesa Calcutá, reforçando a importância do som numa narrativa cuja protagonista é precisamente uma podcaster e artista sonora. Esta opção acentua a dimensão documental da obra e transforma a escuta num instrumento fundamental para revelar aquilo que permanece escondido.
Após a estreia em Agualva-Cacém, “Matadouro” terá uma sessão em live streaming a 20 de novembro através do palco virtual do Teatromosca, permitindo que o projeto alcance públicos além das fronteiras físicas da sala de espetáculo. Em 2027, a circulação internacional prolongará esta vocação europeia, com apresentações previstas em Portugal, Espanha, Itália e França.
Ao juntar o Teatromosca e Les Bâtards Dorés numa criação comum, o espetáculo demonstra como o teatro pode construir pontes entre países, promover o diálogo artístico e oferecer novas formas de olhar para realidades que, demasiadas vezes, permanecem escondidas sob o peso do silêncio.







