Saúde: “Eu gosto de dar aulas. O que já não aguento é tudo o resto” – Quando dar aulas passa a ser uma pequena parte de ser professor


A maneira mais fácil de começar era pelos números. A OCDE acaba de voltar a pôr os professores portugueses na lente da comunicação social e os números justificam a discussão.

Mas hoje quero inverter as coisas e não quero começar por aí. Quero começar por vos contar o que vejo na consulta de psiquiatria.

“Eu gosto de dar aulas. O que já não aguento é tudo o resto”. Tenho ouvido esta frase, com pequenas variações, vezes demais. Os professores chegam cansados, frustrados e, muitas vezes, com uma sensação difícil de explicar a quem olha apenas para os horários: trabalham muito, mas, principalmente, sentem que passam cada vez menos tempo a fazer aquilo que os levou à profissão – dar aulas e estar com os alunos. Ensinar.

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Depois vêm os números.

O novo relatório Education at a Glance 2025 mostra que, enquanto na OCDE o salário real médio dos professores do 1º ciclo aumentou 14,6% entre 2015 e 2024, em Portugal diminuiu 1,8%.

É um problema real. Mas este não é, para mim, um problema exclusivamente dos professores. É um problema sistémico de um país onde o salário mínimo tem aumentado – e ainda bem – mas bastante mais depressa do que os salários médios que falham em acompanhar a escalada. Entre 2015 e 2025, o salário mínimo líquido aumentou cerca de 72%, enquanto o salário médio líquido aumentou cerca de 58%: uma diferença de quase 15 pontos percentuais. No mesmo período, o nível geral de preços aumentou cerca de 23% (DGERT/Pordata; OCDE, Taxing Wages 2026; Pordata/INE).

Ou seja: os salários médios cresceram, sim, mas cresceram menos do que o salário mínimo e uma parte importante desse aumento foi absorvida pela subida do custo de vida. Numa conta que esconde uma parte importante da realidade das famílias. O índice geral de preços, por exemplo, não reflete igualmente aquilo em que cada família gasta o seu dinheiro. Basta olhar para a habitação: entre 2015 e 2025, os preços das casas em Portugal aumentaram cerca de 180%.

É com estes e outros números que se vai tentando explicar uma sensação que encontro tantas vezes na consulta: pessoas que, no papel, ganham mais do que há dez anos e que, ainda assim, não sentem que vivam com mais folga. Temos uma classe média qualificada, que trabalha, que progride profissionalmente, mas que faz contas e sente que a margem desaparece. Também vejo muito isto na consulta – com professores, mas não só: os dois e três empregos não compram luxos, sobram poucas horas de descanso e é difícil gerir a vida familiar, tempo para lazer nem pensar, dificuldade em absorver as despesas inesperadas. E tudo isto tem (sem surpresa para mim) consequências na saúde mental.

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Mas há outra coisa.

A burocracia também é um problema sistémico. Só que, na Educação, tornou-se particularmente gritante.

“Eu gosto de dar aulas. O que já não aguento é tudo o resto”. E, aqui, o “tudo o resto” cresceu. E-mails. Relatórios. Plataformas. Registos. Atas. Reuniões. Projetos. Comissões. Concursos. Atividades. Em barda.

“Trabalho o dia inteiro e chego ao fim com a sensação de que não fiz o meu trabalho”. Talvez esta seja a frase que mais me preocupa.

Porque há um cansaço que vem de trabalhar muito. E há outro que vem de trabalhar muito sem conseguir chegar ao trabalho que consideramos importante. Quando o trabalho é progressivamente substituído por trabalho sobre o trabalho, perde-se tempo. Mas perde-se também sentido.

Dois professores podem receber exatamente o mesmo salário. Se um consegue preparar aulas, ensinar e estar com os alunos e o outro passa uma parte relevante do dia a alimentar plataformas, produzir relatórios e saltar entre reuniões, o custo é o mesmo. O que retiramos desse investimento não é. Temos hoje professores mais cansados e mais desmotivados e alunos que têm menos tempo de qualidade com os professores.

E, de repente, aquilo que ouço na consulta ganha números que dão cor a esta cenário que já sei de cor.

No TALIS 2024, 79% dos professores portugueses do 3º ciclo dizem que ter trabalho administrativo a mais é uma fonte importante de stress. É uma das percentagens mais elevadas entre os sistemas analisados.

Há ainda outro dado que ajuda a perceber o problema: os professores portugueses a tempo inteiro reportam 40,5 horas de trabalho por semana, praticamente em linha com a média da OCDE, mas apenas 19,8 horas de ensino, contra 22,7 horas na média da OCDE. A questão, portanto, não é apenas quantas horas trabalham. É onde essas horas estão a ser gastas.

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Há dois problemas distintos que convém não confundir – e muito menos pôr a competir.

Precisamos de falar de salários. Mas precisamos também de perguntar uma coisa muito mais simples: quanto do tempo de um professor estamos, de facto, a deixar chegar aos alunos?

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Dra. Maria Moreno

Médica psiquiatra

@mariamoreno.medicapsiquiatra

Autora do livro “Se Estou Bem, Porque Não Me Sinto Bem” (2025, Leya), que chegou este mês à 2ª edição

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