Não lavar o cabelo ou tomar banho durante a menstruação
Não existe qualquer risco real. Este mito terá provavelmente origem numa época em que os banhos eram tomados em água fria (ou em fontes e rios comunitários), e a queda brusca da temperatura podia causar desconforto ou agravar as cólicas – não por causa da menstruação em si, mas devido à exposição à água fria. Com água morna ou quente, não existe qualquer perigo. Pelo contrário, a higiene é recomendada, pois ajuda a reduzir o odor e o desconforto.
As mulheres menstruadas não devem fazer maionese ou manipular certos alimentos
Não existe qualquer base científica que relacione a menstruação com alterações na capacidade de manipular alimentos, fermentar massas ou preparar maionese.
Estes mitos resultam da antiga crença de que a menstruação “contamina” ou “estraga” os processos culinários. Trata-se de uma crença cultural, sem fundamento fisiológico ou científico.
De onde surgiram estes mitos
Os mitos sobre a menstruação têm origem em tabus religiosos e sociais que associavam o sangue menstrual à impureza, bem como no desconhecimento científico existente numa época em que o ciclo menstrual ainda não era compreendido.
A sua transmissão foi perpetuada de geração em geração, através de normas familiares e comunitárias repetidas sem questionamento, e pelo silêncio e pela vergonha em torno da menstruação. Quando o tema não é discutido de forma aberta, os mitos tendem a persistir.
A sua permanência explica-se pela combinação de falta de literacia em saúde menstrual, estigma e desinformação, fatores que ainda hoje estão presentes em muitas culturas.
O exercício físico é recomendado ou pode agravar as dores e o fluxo menstrual
O exercício físico é recomendado durante a menstruação.
A evidência científica mostra que a atividade física promove a libertação de endorfinas, que ajudam a reduzir a dor, melhora a circulação, contribuindo para aliviar as cólicas, regula o humor e pode diminuir a irritabilidade e a fadiga.
Atividades como caminhar, fazer alongamentos, praticar ioga ou realizar treino de intensidade ligeira a moderada são particularmente benéficas.
A menstruação pode aumentar o risco de infeções ao tomar banho ou nadar
Não. Tomar banho, nadar ou estar em contacto com a água não aumenta o risco de infeções.
O canal vaginal não “abre” durante a menstruação, nem existe maior vulnerabilidade à entrada de microrganismos externos. O mais importante é manter uma higiene adequada e trocar o absorvente, tampão ou copo menstrual após a atividade, sempre que necessário.
Impacto destes mitos na saúde física e mental das mulheres
Os impactos podem ser reais e significativos, tanto na saúde física como na saúde mental e emocional.
Físicos
– Evitar tomar banho, aumentando o risco de irritações cutâneas e desconforto.
– Evitar a prática de exercício físico, o que pode agravar as dores menstruais, piorar o humor e reduzir o bem-estar.
– Evitar atividades sociais, favorecendo o sedentarismo e o isolamento.
Mentais e emocionais
– Vergonha do próprio corpo e sensação de impureza.
– Ansiedade por acreditar que a mulher está “limitada” ou “frágil” durante a menstruação.
– Diminuição da autoestima e maior dificuldade em falar sobre sintomas menstruais.
– Barreiras no acesso aos cuidados de saúde devido ao medo, vergonha ou constrangimento.
A literatura científica demonstra que substituir a evidência por mitos gera confusão, perpetua hábitos prejudiciais e pode contribuir para sofrimento desnecessário.
Os pais, as escolas e os profissionais de saúde
Pais
Falar abertamente sobre a menstruação desde cedo, normalizando o tema sem vergonha nem dramatização. É importante transmitir que a menstruação faz parte do funcionamento saudável do corpo e não representa qualquer impureza.
Escolas
Integrar a educação menstrual baseada na evidência científica nos currículos escolares, garantir o acesso a produtos menstruais e a instalações sanitárias adequadas e promover ambientes onde as dúvidas possam ser colocadas sem receio.
Profissionais de saúde
Desmistificar crenças durante as consultas, utilizando uma linguagem clara, empática e não moralizante. Devem validar os sintomas das utentes, explicar o que é considerado normal e identificar as situações em que é importante procurar avaliação médica. Além disso, é fundamental produzir materiais educativos acessíveis, claros e culturalmente sensíveis.
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Dra Irina Ramilo
Ginecologista / obstetra
Hospital Lusíadas Lisboa






