Jean-Claude Broustail

Exposição em Bordeaux recupera a memória do ‘bidonville’ português de Champigny


Uma das páginas mais marcantes da história da emigração portuguesa em França vai estar em destaque em Bordeaux através da exposição fotográfica “Ceux des baraques: le bidonville portugais de Champigny”, patente entre 9 e 27 de novembro no espaço Boulevard des Potes. A mostra reúne imagens inéditas do maior bairro de barracas da França metropolitana nos anos 1960, oferecendo um olhar singular sobre a vida quotidiana de milhares de portugueses que procuraram construir um futuro melhor longe do seu país de origem.

A exposição assenta no trabalho do fotógrafo francês Jean-Claude Broustail, que, em dezembro de 1967, entrou pela primeira vez no bidonville de Champigny-sur-Marne para realizar uma reportagem destinada ao semanário Le Réveil du Val-de-Marne. O que começou como uma missão jornalística transformou-se numa documentação prolongada ao longo de um ano, durante a qual registou o dia a dia dos habitantes daquele que era então o maior bairro de barracas da região parisiense.

As fotografias revelam muito mais do que a precariedade das construções improvisadas em chapa metálica, blocos de cimento e caminhos enlameados. Mostram uma Comunidade viva, marcada pelos laços de solidariedade, pelas relações de vizinhança e pela capacidade de resistência de milhares de famílias portuguesas que enfrentavam condições extremamente difíceis enquanto procuravam integrar-se na sociedade francesa.

Durante quase seis décadas, as 219 imagens captadas por Jean-Claude Broustail permaneceram guardadas em caixas de arquivo. O trabalho de recuperação, contextualização histórica e valorização deste espólio foi desenvolvido por Catherine Dupuy, doutorada em História Contemporânea, e por Christian Raby, historiador da fotografia. Graças a este processo de investigação e digitalização, o público poderá agora descobrir um conjunto de documentos visuais que permaneciam praticamente desconhecidos.

Mais do que uma exposição fotográfica, a iniciativa assume-se como um exercício de memória coletiva. As imagens permitem compreender melhor a realidade vivida por uma geração de emigrantes portugueses que chegou a França durante as décadas de 1960 e 1970, fugindo à pobreza, à falta de oportunidades e, em muitos casos, à guerra colonial.

Os organizadores sublinham que o projeto convida também à reflexão sobre questões que continuam atuais, como a integração das populações migrantes, a dignidade humana e as condições de acolhimento das pessoas que procuram uma vida melhor noutro país.

A exposição é acompanhada pela publicação de um livro que prolonga este trabalho de investigação e preservação da memória. O programa inclui ainda a projeção do filme “Les Gens des barraques”, de Robert Bozzi, contribuindo para aprofundar o conhecimento sobre aquela realidade social e histórica.

A iniciativa resulta da colaboração entre o Boulevard des Potes, a associação Memória Viva e as Edições Écrits de lumière, contando ainda com o apoio do Consulado-Geral de Portugal em Bordeaux, da associação Les Amis du Plateau, do Comité Aristides de Sousa Mendes e da associação O Sol du Portugal.

A inauguração oficial está marcada para o dia 12 de novembro, às 17h45. A exposição representa uma oportunidade rara para revisitar um passado que ajudou a moldar a presença portuguesa em França e a compreender melhor o percurso daqueles que ficaram conhecidos como os habitantes do “Bidonville” de Champigny.

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