França. Terra da Revolução, do “Liberté, Égalité, Fraternité”, do Champanhe, da Torre Eiffel e da maior Comunidade portuguesa residente no estrangeiro. Mas também, e sobretudo, a terra onde a rua fala. E, nestas últimas semanas, a rua tem falado alto – muito alto. Muito jovem. E muito zangada.
Antes de tudo, França é um país que aprendeu a protestar há séculos!
Ainda no recente século XX, em maio de 1968, estudantes da Sorbonne e de Nanterre ocuparam universidades, ergueram barricadas no Quartier Latin e puseram o país inteiro em greve. Dez milhões de trabalhadores pararam, também portugueses! O General De Gaulle, o homem da “Libération” chegou a vacilar. Eram jovens que exigiam mudar não só uma lei, mas a vida.
A seguir, a lista é longa. 1986: os estudantes contra a lei Devaquet, com um morto, Malik Oussekine. 1994: a greve dos liceus contra o contrato de inserção profissional. 2006: os “contrats première embauche” – o CPE – que caíram precisamente porque a juventude não deixou cair o protesto. 2018: os Coletes amarelos, que bloquearam rotundas durante meses e fizeram tremer o Eliseu. E 2023: as semanas de mobilização contra a reforma das pensões, aprovada à força com o artigo 49.3, por cima da rua e do Parlamento.
Eis o padrão: sempre que um poder francês decide ignorar a rua, a rua recorda-lhe que existe. E sempre que a juventude desce às avenidas e às praças, a história da França muda de rumo. E foi precisamente um Presidente da República – François Mitterrand – quem, já em maio de 1968, na Assembleia da República, deixou uma frase que hoje soa como nunca: “Se a juventude nem sempre tem razão, a sociedade que a ignora e a espanca está sempre errada” (1).
Mas porque é que os jovens franceses estão na rua?
Não há só uma causa – há uma escada de Jacó de causas!
A primeira é poder estudar e ter futuro. Um em cada quatro jovens franceses vive abaixo do limiar da pobreza – é um dos piores registos da Europa. O abandono escolar mexe com cem mil jovens por ano. O problema “Parcours Sup”: a plataforma nacional de admissão ao ensino superior (2018) é alvo de controvérsia porque funciona sem transparência nos critérios, beneficiando a alunos de liceus já prestigiados, exigindo imenso trabalho de avaliação ao corpo docente para deixar afinal muitos votos entregues aos limbos com estudantes pendurados em listas de espera. A promessa do diploma tem-se revelado vã: uma percentagem recorde de jovens diplomados não encontra emprego estável.
Outra causa é o poder de compra. A renda de um estúdio em Paris ou em Strasbourg engole metade de um salário mínimo que nenhum estudante recebe. Os preços das energias e da alimentação dispararam com a inflação pós-pandemia e a guerra na Ucrânia. Não é um protesto ideológico, é a matemática cruel do fim do mês: quando a calculadora diz que não chega, sai-se para a rua.
Mais outra causa, o próprio mercado de trabalho, com reformas sucessivas – reformas que aliviam a carga fiscal do patrão, mas carregam a do trabalhador, reformas das pensões que pedem aos mais novos que descontem mais anos, para uma reforma que talvez nunca cheguem a receber?
Outro facto determinante: a crise de representação. Os jovens não se reveem na política. Votam menos, desconfiam mais, e sentem que as decisões são tomadas em gabinetes ocultos, entre “technocrates” que nunca fizeram contas ao cêntimo.
E há ainda uma crise existencial, que será de nós entre desastres climáticos, guerras e montes de crises sem fim?
Porém, quando estalam protestos em França, os números falam por si: milhões de pessoas nas ruas ao longo de semanas, centenas de milhares de estudantes em greve, milhares de detenções sim – mas uma percentagem esmagadora de manifestantes que não é violenta, que está lá pelo protesto pacífico, mas que os medias pouco mostram. Como sempre, as câmaras preferem o carro a arder para anunciar o fim do mundo, do que a multidão de famílias a caminhar devagar com as suas crianças ao ombro.
E o que fez o poder diante destas causas legítimas? Com o Presidente Macron, a resposta é límpida: “calai-vos”.
E depois há a resposta policial. Aqui, é preciso dizer com todas as letras: o problema não é a existência da polícia, um pilar em democracia – é a forma como ela tem sido empregue.
Lembrar-se-ão dos jornalistas atingidos, dos observadores da ONU e do Conselho da Europa que apelaram, ano após ano, à França, para suspender o uso das “flash-balls” e das granadas de dispersão – armas que já causaram mutilações, entre elas a de manifestantes que perderam uma mão, um olho, ou seja, a sua integridade física.
Não, não confundamos: quem parte montras e põe fogo ao país é minoria e deve responder perante a justiça. Mas confundir a minoria violenta com o protesto em si, e responder ao protesto com bastões, é o velho erro francês – o erro de 68, de 86, de 2018, de 2023. E é o erro que Mitterrand resumiu numa frase: “a sociedade como o poder não podem ignorar os sonhos da juventude”.
E agora? Há esperança, ainda?
Não terminemos sufocados com fumo e granadas – terminemos com esperança.
Primeiro: quando o poder ouve, a rua desarma. Em 2006, o Primeiro-Ministro Dominique de Villepin retirou o CPE, o contrato que os jovens detestavam, e o país acalmou. Em 2024, o Presidente dissolveu o Parlamento, e a palavra passou aos votos. Não é derrota – é democracia.
Segundo: as soluções existem e têm nomes conhecidos. Investir na educação pública, nos Serviços públicos, nos direitos – o património de quem não tem nenhum, num Estado forte junto das autarquias para que todas e todos tenham a mesma sorte. Habitação a preços acessíveis para jovens, Formação profissional a sério respeitada e valorizada para quem não segue o caminho do ensino superior. O regresso da Polícia de proximidade a dialogar connosco para voltar a ser os guardiões da paz, sem medo dos seus concidadãos.
Terceiro: a própria sociedade civil a usar da palavra constante e livremente. A democracia não pertence ao Governo, é nossa! É por aí que passa a paz – não por tanques de água nem por bastões.
Por fim, os slogans da juventude dizem tudo da sua esperança ainda: Sonho geral! Luta de classes é classe! Presidente, agora é que estamos em marcha! Que a nossa voz seja maior do que o medo! E é por isso que as ruas de França, por mais zangadas que estejam, são um sintoma de vida. Um povo que não protesta é um povo que desistiu. Os jovens franceses e europeus não desistiram de nada. Por isso, cantam o Hino nacional, Bella Ciao, Siamo tutti antifascisti, gritam ainda “A juventude odeia o RN”! Os CRS (2) distribuíram rosas à população em Châtelet (Paris) sem medo do povo. Cabe agora ao poder, a todos os poderes, ter a sabedoria de os ouvir – antes que a rua volte a dizer, mais uma vez, aquilo que ninguém quis ouvir em tempo devido. Viver, não é só sobreviver!
“Priorité au direct!”: “Parcours Sup” será substituído até 2028, 28 alunos por turma no máximo, 500 professores suplementares serão colocados no próximo ano letivo nos liceus, 920 para substituir de improviso ausentes titulares, mais alojamentos estudantis acessíveis, nas fila das primeiras decisões.
Quando a rua fala mais alto, França muda de rumo. Sempre.
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(1) «Si la jeunesse n’a pas toujours raison, la société qui la méconnaît et qui la frappe a toujours tort».
(2) Compagnies Républicaines de Sécurité (1944) dont la devise est servir.
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Nathalie de Oliveira
Ex-Deputada (OS) eleita pelo círculo eleitoral da Europa
Ex-Maire-Adjointe de Metz






