“Há quem viva sob a luz do sol e, ainda assim, permaneça prisioneiro das sombras” (Marco Guimarães).
O comportamento dos eleitores da extrema-direita no Brasil me fez lembrar os 33 mineiros chilenos, que, em 2010, ficaram presos, durante sessenta e nove dias, em uma caverna a setecentos metros de profundidade.
Tal fato me remete diretamente para Platão. A sua mais completa obra, “A República”, engloba conceitos de constituição, vida pública e relação do cidadão com o Estado. Trata-se talvez da primeira utopia literária, ainda que Platão a prefira chamar de eutopia (o mais belo lugar) em vez de utopia (sem lugar). O que interessa na citada obra, nesse momento, está no Livro VII, que pode ser considerado o mais completo resumo de toda “A República” e que alude à dialética e ao conhecimento. Um dos temas desenvolvidos é a alegoria da caverna, “a imagem de nossa natureza, no que diz respeito à educação e carência de educação”.
A história contada por Platão envolve algumas pessoas mantidas como prisioneiras no fundo de uma caverna. Todos estão acorrentados diante de uma parede, e não lhes é permitido se virar e olhar para trás. Estão condenados a passar toda a vida olhando para a parede. Atrás do grupo de prisioneiros, há uma fogueira e uma trilha, essa última utilizada pelos carcereiros. Os objetos carregados por esses carcereiros projetam uma sombra na parede em frente aos prisioneiros, os quais passam toda a vida pensando que cada sombra projetada nessa parede é um objeto real.
Um belo dia um dos prisioneiros se liberta e descobre que as sombras projetadas na parede não eram objetos reais. O que ele julgava ser a realidade (um mundo real) era, na verdade, um desfile de sombras. Uma vez fora da caverna e já adaptado à luz natural, o prisioneiro liberto resolve voltar para contar aos outros, ainda no cativeiro, a descoberta que fizera e explicar-lhes como as coisas realmente eram. De volta à caverna e com a visão não mais adaptada à escuridão, acaba tropeçando. Tenta, em vão, mostrar como as coisas são de fato para os seus companheiros de cárcere. É obrigado a desistir, quando começa a ser apedrejado. “Nós conseguimos ver muito bem, o cego é você”, dizem-lhe os prisioneiros. Eles permanecem condenados à contemplação das sombras sem jamais descobrir a verdade.
Os mineiros à espera do resgate demonstraram um grau de civilidade, de educação, de generosidade e de amizade, que fizeram daquele ambiente um lugar onde os problemas parecem ter sido muito bem gerenciados e resolvidos. Para alguns, esse ambiente, criado nas profundezas, talvez tenha sido melhor do que o ambiente onde cada um vive na superfície.
Afinal, ali, longe de muitos aborrecimentos, puderam ter um tempo para a reflexão, um tempo para pensar na sua própria existência e nos valores atribuídos a cada coisa em si; um tempo para ver as verdades por trás das aparências. Talvez tenham descoberto que o mundo real que eles supunham ver e conhecer no cotidiano era fantasia. Assim deram-se conta de que as verdadeiras sombras não estavam na caverna a setecentos metros de profundidade. As verdadeiras sombras os acompanhavam nos seus dia a dia, levando-os a desprezar a luz da razão em detrimento de manipulações feitas pelos muitos “especialistas de plantão”. Estavam mergulhados, em plena luz do dia, em verdadeiras trevas com relação ao conhecimento.
A República influenciou Santo Agostinho (Cidade de Deus), Tomas Morus (Utopia) e, mais modernamente, o falecido Saramago (A Caverna).
Que os tais eleitores da ultradireita, prisioneiros de suas próprias sombras, possam, ainda em vida, descobrir o mundo real; que possam, também influenciados por Platão, tocá-lo, ouvi-lo, senti-lo, sem que precisem, para isso, permanecer sessenta e nove dias presos a setecentos metros de profundidade.
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Marco Guimarães
Jornalista e escritor luso-brasileiro
Ver blog do autor ICI.






