Da periferia de Paris ao Parlamento português: A Deputada Angélique da Tereza nasceu em Saint Denis


Há histórias que ajudam a compreender melhor a realidade da diáspora portuguesa. A história de Angélique da Tereza, Deputada da Iniciativa Liberal na Assembleia da República portuguesa, é uma delas. Nascida em Saint-Denis (93), nos arredores de Paris, filha de emigrantes portugueses oriundos do Soito, Sabugal, chegou a Portugal ainda criança e construiu lá o seu percurso académico, profissional e político. Hoje, assume-se como uma representante de uma geração de lusodescendentes que cresceu entre dois países e duas culturas.

Licenciada em Ciências do Desenvolvimento e Cooperação, Angélique da Tereza é cofundadora da Iniciativa Liberal e uma das figuras que tem defendido no Parlamento temas como a reforma do sistema eleitoral e a modernização do Estado. Mas a sua história começa muito antes da política.

“É muito importante mostrar como é que os lusodescendentes, muitas vezes, depois conseguem ter uma representação diferente e ter um caminho diferente dos seus pais”, afirma numa entrevista à Jornalista Paula Machado da RDP Internacional. Uma ideia que resume bem o percurso de milhares de filhos de emigrantes portugueses que encontraram na educação e no trabalho uma oportunidade para ultrapassar as dificuldades das gerações anteriores.

A Deputada guarda uma forte ligação à Comunidade portuguesa em França onde moram os pais. Embora tenha regressado a Portugal com cerca de nove anos, nunca perdeu a ligação ao país onde nasceu. “É uma honra representar ou sentir que sou também eu uma representante de uma Comunidade portuguesa em França tão importante, tão rica, tão populosa”, sublinha.

Essa identidade construída entre dois países continua bem presente na sua vida. “Somos estas pessoas com um bocadinho de coração dividido. Em França somos portugueses, em Portugal somos franceses”, diz, descrevendo um sentimento comum a muitos lusodescendentes. “Quando estamos de um lado sentimos saudades do outro”.

“A minha filha está a estudar em França”

Os pais, Rui e Fátima, partiram para França muito jovens, em busca de melhores condições de vida. “Foram emigrantes de primeira geração”, recorda. Ainda hoje residem aqui, enquanto Angélique decidiu construir a sua vida em Portugal. Mesmo assim, a ligação familiar mantém-se viva, ao ponto de a sua própria filha, nascida em Portugal, ter seguido o caminho inverso ao escolher estudar em França.

“Esta relação entre Portugal e França nunca deixou de existir para mim”, explica. Entre as memórias mais simbólicas está a mesa de Natal da família, onde convivem tradições dos dois países. “Tem bacalhau e tem o peru e tem as Coquilles Saint-Jacques e tem os pâtés”, conta, considerando essa mistura cultural “uma riqueza enorme” que pretende preservar para as gerações seguintes.

Angélique da Tereza recorda também que os seus pais tinham uma visão diferente daquela que muitas vezes se associava à emigração portuguesa. “Não éramos os imigrantes típicos”, afirma. Em vez de concentrarem toda a vida e investimento na terra natal, procuravam integrar-se plenamente em França sem perder as raízes portuguesas. “Isso moldou a minha forma de ser e de estar na vida”.

“A minha mãe é o meu marco”

Quando fala da família, a emoção surge naturalmente, sobretudo ao referir-se à mãe, Fátima. “É a figura da minha vida, é o meu marco, é a pessoa mais importante para mim”. Considera que foi ela quem desempenhou “o papel essencial e central” na sua formação.

A história dos pais é, segundo descreve, semelhante à de milhares de portugueses que emigraram para França durante o século passado. “Foram ‘a salto’ e foram à procura de uma vida melhor.” Vindos de meios muito humildes, conseguiram através do trabalho garantir oportunidades à geração seguinte.

Por isso, vê o seu percurso académico como uma conquista familiar. “Fui a primeira rapariga da família da minha mãe a tirar uma licenciatura”, recorda. E acrescenta com gratidão: “A minha mãe conseguiu que a geração seguinte superasse três vezes mais aquilo que ela tinha conseguido”. Para a Deputada, esta é uma realidade comum entre muitos filhos de emigrantes portugueses: “Os nossos pais foram o nosso trampolim”.

O regresso a Portugal não foi fácil. Apesar de falar português em casa, chegou com um forte sotaque francês e expressões que misturavam os dois idiomas. A integração escolar revelou-se difícil. “Fui um bocadinho maltratada, gozada e, de facto, maltratada pelos meus colegas”, recorda. Chegou mesmo a fingir estar doente para evitar ir à escola.

Com o passar dos anos, conseguiu encontrar o seu espaço. Continuou a estudar francês na Alliance Française e manteve uma relação próxima com a família em França. “Fiz quase este caminho em paralelo para nunca perder nem um lado nem o outro”, explica.

“Estou na política por culpa da minha mãe”

A entrada na política surgiu, curiosamente, por influência da mãe. “A culpa de entrar na política é da minha mãe”, diz entre risos. Inspirada pelo exemplo de Simone Veil e pela importância da participação cívica, a mãe de Angélique da Tereza transmitiu à filha duas regras que nunca esqueceu: trabalhar sempre, para ser independente, e nunca abdicar do direito de voto.

Foi essa consciência cívica que a levou a envolver-se politicamente e, mais tarde, a participar na fundação da Iniciativa Liberal. Um projeto que, na sua opinião, ajudou a colocar no debate público temas como a redução da carga fiscal, o crescimento económico e a necessidade de reformar o Estado. “Não é possível continuarmos a pagar impostos elevadíssimos, ao nível de um país rico e continuarmos a ter serviços públicos de país pobre”, defende.

Entre os assuntos que mais a mobilizam está também a representação política da diáspora portuguesa. A existência de apenas quatro Deputados eleitos pelos círculos da emigração é, na sua opinião, insuficiente para dar voz aos cerca de milhão e meio de recenseados residentes no estrangeiro.

“Vejo essa representação de forma muito crítica”, afirma. Para a Deputada liberal, o atual sistema eleitoral cria desigualdades entre eleitores e alimenta a lógica do voto útil. Por isso, defende uma reforma que permita uma representação mais equilibrada e que evite o desperdício de votos. “Aquilo que propomos é um círculo de compensação, ou um círculo de recuperação. Vamos garantir que não há votos que vão para o lixo”, explica, considerando “inaceitável” que milhares de votos não tenham tradução na representação parlamentar.

Deputada defende a uniformização do voto nas Comunidades

Outra das preocupações de Angélique da Tereza prende-se com as modalidades de voto disponíveis para os portugueses residentes no estrangeiro. Considera que o sistema atual é excessivamente complexo e pouco uniforme. “A nossa Comunidade não entende”, afirma, referindo que as regras variam consoante o ato eleitoral: numas eleições vota-se presencialmente e nas outras vota-se por correspondência.

A Deputada defende uma uniformização dos procedimentos e um maior número de locais de voto, especialmente em países com forte presença portuguesa, como França. “Não pode haver portugueses de primeira e portugueses de segunda”, alerta.

Ao mesmo tempo, admite a possibilidade de testar novas soluções para facilitar a participação eleitoral. “Vemos com bons olhos que se faça um teste piloto para o voto eletrónico”, afirma, embora salientando que qualquer experiência deverá ter fortes garantias de segurança e cibersegurança.

A história de Angélique da Tereza é, afinal, a história de muitas famílias portuguesas espalhadas pelo mundo. Uma narrativa feita de trabalho, mobilidade, integração e identidade plural. Como a própria reconhece, ao recordar o percurso dos lusodescendentes: “A grande maioria dos lusodescendentes vão-se rever nesta história”.

Da periferia de Paris ao Parlamento português, a Deputada liberal é hoje um exemplo de como a emigração portuguesa continua a produzir novas gerações profundamente ligadas às suas origens, mas capazes de construir percursos próprios. E talvez seja nessa ponte entre França e Portugal que reside uma das maiores riquezas da sua trajetória.

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