“Muitas vezes vi passar o Sud-Expresso com vontade, esperança e saudade – este comboio ‘nação’ que transportava nas suas entranhas, para lá das fronteiras dos Pirinéus, todos estes seres tomados de liberdade”.
É com esta citação sua que, Manuel Dias Vaz inicia o prefácio do livro da historiadora espanhola Rosa Arburua Goienetxe, intitulado “A Passagem Clandestina dos Portugueses pela Fronteira do País Basco”, publicado pelas Éditions Quatorze.
Trata-se de uma obra inicialmente publicada em espanhol e posteriormente traduzida para francês e português, um livro essencial para se compreender o fenómeno migratório clandestino português em direção à Europa, e em particular a França, na segunda metade do século passado.
A autora e o contexto histórico
Rosa Arburua Goienetxe, autora da obra, é doutora em Filosofia e Ciências da Educação, professora universitária e autora de numerosas publicações didáticas e pedagógicas.
No livro, aborda-se a travessia de milhares de emigrantes portugueses e a sua experiência ao passarem pelo País Basco durante os anos das ditaduras de Salazar e Franco.
Números e acordos: A dimensão da emigração
No prefácio, Manuel Dias recorre às estatísticas e à legislação como forma de introduzir os temas tratados ao longo da obra: Entre 1860 e 1940, emigraram 1,8 milhões de portugueses; Entre 1940 e 2000, o número subiu para 2,2 milhões; Entre 2000 e 2016, registaram-se 1,4 milhões de saídas de Portugal.
No que diz respeito a França, destaca-se o dado significativo de que, entre 1969 e 1972, entravam em média 335 portugueses por dia em França!
Em 1978 a França contava já com um milhão de portugueses.
Necessitando de mão de obra e com o objetivo de regularizar a entrada de emigrantes, o Governo de Georges Pompidou assinou, a 29 de julho de 1971, um acordo com o Governo de Marcelo Caetano. Este documento fixava o limite de 65 mil portugueses autorizados a entrar anualmente em França. O acordo nunca foi respeitado.
Mais tarde, a 11 de janeiro de 1977, foi assinado um novo acordo bilateral que concedia novos direitos aos portugueses residentes em França.
A estrutura da obra e a voz dos Passadores
Manuel Dias resume exemplarmente o valor da obra ao afirmar: “A riqueza das páginas deste livro reside nos fragmentos dos percursos caóticos destes emigrantes portugueses clandestinos dos anos 1960-1970, que sonhavam com a liberdade e com uma vida melhor para si e, sobretudo, para os seus descendentes. Rosa Arburua Goienetxe reconstituiu e deu vida às viagens e aos caminhos percorridos… indo ao encontro dos passadores neste rico território do País Basco, que foi palco de tantas tragédias humanas”.
O livro está estruturado em três grandes partes: Síntese de um longo período de migrações; As migrações dos portugueses; A fronteira do País Basco “A Salto”.
Neste último capítulo, é dada voz aos Passadores que, através de diversos itinerários, conduziram os portugueses na travessia do País Basco e da fronteira, efetuando o chamado “salto”.
Preservar a memória para o futuro
No posfácio, Manuel Dias Vaz evoca citações marcantes. A primeira, de Élie Wiesel: “Os que não conhecem a sua história expõem-se a que ela recomece”. A segunda, de Paul Valéry: “A memória é o futuro do passado”.
“A passagem clandestina dos portugueses pelo País Basco” é sem dúvida um livro indispensável para compreendermos uma parte essencial da história de Portugal da segunda parte do século XX a que se deu o nome de “O salto”.
Um livro que guarda memórias recolhidas junto de quem viveu, participou no “salto”. Um trabalho, nem sempre fácil, que era urgente realizar antes de ver partir todos quantos foram autores, testemunhas de dramas, histórias, aventuras necessárias de registar, preservar e contar.







