Opinião: Luz e memória


A teoria quântica, desenvolvida a partir do início do século XX, descreve a luz em termos de fótons, quanta de radiação eletromagnética cuja energia é proporcional à frequência. Ainda que já tenha sido aluno do curso de física, no início dos anos 70, não irei avançar por esse caminho, porque me interessa aqui discutir um outro aspecto da luz.

No meio cinematográfico e teatral, a luz pode sofrer adaptações às necessidades do momento, para expressar angústias, provocar medos, acentuar a tensão e dar cores à emoção.

Na pintura, os impressionistas, como Claude Monet (1840-1926), fisgavam a luminosidade de um determinado momento e, em determinadas condições, a transportavam para as telas. Édouard Manet (1832-1883), referência importante para o grupo, e Edgar Degas (1834-1917) também exploraram luzes e cores, cada qual à sua maneira.

Na literatura, alguns autores captam pictoricamente as cenas e contextualizam luzes e cores em suas obras. A pintura em prosa de Eça de Queiroz adquire excepcional qualidade artística nas páginas de alguns de seus romances e escritos. Em “Egito, Notas de Viagem”, há uma bela passagem: “As verduras do Delta, que se estendem nos distantes horizontes, sob a pulverização faiscante da luz” ou “a luz que caía, magnífica, sobre tudo isso, tão forte, tão viva que parece pousar sobre as coisas como uma espécie de névoa luminosa”. Esse sentido pictórico impressionista se manifesta também em “O Primo Basílio”, quando descreve o passeio de Luísa e do primo, ao Lumiar, em um dia caloroso de julho: “Os velhos estores do coupé corrido eram de seda vermelha e a luz que os atravessava envolvia-a em um tom cor de rosa e quente, os seus lábios tinham um escarlate, a lisura sã de uma pétala de rosa e ao canto do olho um ponto de luz movia-se em um fluido doce”. Para os que se interessarem pelo tema, sugiro a leitura de Émile Zola, que também, magistralmente, ilumina e dá cor aos seus textos.

Essa mesma luz, aliciada pela literatura, pelo teatro e pela pintura, pode ser um poderoso agente pessoal, que nos leva a viajar no espaço e no tempo e a desfrutar belos momentos.

Acredito que quase todos nós já percebemos que os dias apresentam uma luminosidade e uma cor que variam com os lugares e com a época do ano. Em determinados momentos, a percepção das cores do dia ou da noite nos remete a uma aura de extrema felicidade. Nos sonhos, luzes e cores também podem nos oferecer essa sensação.

Segundo Bergson, em “Matéria e memória”, a percepção está ligada às possibilidades de ação de nosso corpo. Na experiência concreta, ela é também impregnada de lembranças: o passado participa daquilo que percebemos no presente.

Para Bergson, a vida psíquica se define como duração, na qual o passado se prolonga no presente. As imagens que percebemos como geradoras de felicidade e prazer, no presente caso, nos são dadas com as luzes e cores do dia, mas podem também mobilizar lembranças que não reconhecemos de imediato.

A grande questão que se coloca aqui é: por que, tantas vezes, a luz e as cores dos sonhos nos dão tanto prazer? Por que, em estado de vigília, nem sempre conseguimos essa sensação de elevação, essa disponibilidade para a contemplação? Estariam as minhas recordações de felicidade e paz mergulhadas em uma penumbra profunda quando acordo? Ou seriam as preocupações do presente que me impedem de reencontrá-las nas luzes do cotidiano?

Não sei até onde a concepção bergsoniana nos ajudaria a responder a essas perguntas. A luz e as cores de certos sonhos me dão uma sensação de felicidade que não corresponde a nenhuma lembrança que eu possa identificar. Isso, porém, não significa que a memória esteja ausente daquela experiência.

Quando penso nessa diferença entre o que sinto nos sonhos e no cotidiano, volto aos dissabores e à insegurança que nos cercam, já por mim mencionados tantas vezes nas crônicas que escrevi.

Suspeito que sejam eles que me impedem de ter, em estado de vigília, o mesmo prazer perceptivo, quase sagrado, que encontro na luz e nas cores de certos sonhos.

Se você consegue, aqui nesse mundo, a dose de abstração que lhe permita entrar em comunhão com o momento mágico oferecido pela conjunção de luz e cores do dia, levante as mãos para os céus e dê graças ao seu bom Deus, seja lá qual for ele.

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Marco Guimarães

Escritor, jornalista luso-brasileiro

Cofundador da União Europeia de Escritores de Língua Portuguesa (UEELP).

Ver o Blog do autor AQUI.

Marco Guimarães

Marco Guimarães

Écrivain et journaliste.
Cofondateur et Vice-Président de l’Union européenne des écrivains de langue portugaise (UEELP)

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