Opinião: A Alteridade como pilar da Democracia – um antídoto contra as derivas da Extrema-Direita


Falar de alteridade, nos tempos modernos, é falar da própria condição humana, é falar da nossa maneira de viver, falar da nossa maneira de transmitir e do posicionamento de cada qual na moralidade coletiva de certos desvios políticos.

Políticos que afirmam que o limite da moralidade são os limites que eles próprios se aplicam não se colocam num registo coletivo da moralidade, mas sim nos próprios limites de cada individuo.

Definição de moralidade: a moralidade é um conjunto de princípios, valores e normas que orientam o comportamento humano, permitindo distinguir entre o Bem e o Mal, o Justo e o Injusto e sobretudo avaliar as ações próprias e alheias. Em Filosofia a moralidade está profundamente ligada à relação com o outro e à Dignidade Humana, sendo entendida e compreendida como a base que permite a convivência, o respeito mútuo e a vida em Sociedade.

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O termo de Alteridade designa o reconhecimento do outro enquanto outro, na sua diferença, na sua dignidade própria, na sua existência que não se confunde nem se submete à nossa. Eu sou “eu” e o outro é o “outro”: cada ser humano tem uma identidade própria. O outro é aquele que é diferente de mim; com experiências, valores e modos de ver o mundo próprios que podem não ser propriamente iguais à minha maneira de ver. Aqui começa a verdadeira definição de Alteridade.

A alteridade não é tolerância condescendente nem mera coexistência: é reconhecimento ético e político. É aceitar que o mundo não nos pertence, que a sociedade não é homogénea e que a identidade só se constrói plenamente na relação com o diferente.

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Após a Segunda Guerra Mundial, num continente devastado pelos crimes do fascismo e do nazismo, vários filósofos colocaram a alteridade no centro do pensamento político e moral:

Emmanuel Levinas (1906-1995) foi talvez o mais radical ao afirmar que o rosto do outro nos interpela eticamente antes de qualquer lei, de qualquer ideologia, de qualquer interesse nacional. Para Levinas, a negação do outro é sempre o primeiro passo para a violência. As consequências desta análise são a Shoah e o Holocausto.

Jacques Derrida (1930-2004), por seu lado, mostrou como as democracias só sobrevivem se aceitarem a hospitalidade, a abertura e a desconstrução permanente das identidades fechadas.

Paul Ricœur (1913-2005), Hannah Arendt (1906-1975) e tantos outros insistiram na ideia de pluralidade como condição essencial da vida política.

Estas reflexões não nasceram do acaso. Foram respostas diretas à barbárie fascista, cuja lógica se funda precisamente na recusa da alteridade.

O fascismo constrói-se sempre a partir de um “nós” purificado e de um “eles” desumanizado: o estrangeiro, o judeu, o migrante, o opositor político, o diferente. Ao negar ao outro a sua humanidade plena, o fascismo legitima a exclusão, a perseguição e, em última instância, a eliminação. A história europeia do século XX é uma prova trágica desta dinâmica. A dicotomia do Bem e do Mal absoluto é um dos pilares fundadores do fascismo que ao eliminar a complexidade, a ambiguidade e a pluralidade do ser humano legitima a exclusão a violência e a desumanização do outro que é apresentado como o inimigo a abater e não como individuo a compreender.

Hoje, num mundo globalizado, marcado por migrações constantes, cruzamentos culturais e identidades múltiplas, a recusa da alteridade reaparece sob novas formas.

A extrema-direita contemporânea recicla velhos medos:

– o medo da perda,

– da mistura,

– da complexidade.

Apresenta a diversidade como:

– ameaça,

– a mobilidade humana como invasão, e…

– a diferença como perigo existencial.

Este discurso, aparentemente simples e sedutor, é profundamente corrosivo para a Democracia.

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E.. as diásporas?

Para as diásporas, esta questão é particularmente sensível. Os emigrantes portugueses conhecem, muitas vezes na pele, o que significa ser o “outro”: o estrangeiro, o trabalhador invisível, o suspeito permanente.

Defender a alteridade não é, portanto, um exercício abstrato. É uma exigência de coerência moral e histórica.

– Não se pode exigir respeito fora e negar dignidade dentro.

– Não se pode reivindicar direitos na emigração e apoiar políticas que excluem, estigmatizam ou silenciam outros.

Os responsáveis políticos têm aqui um dever fundamental. Não apenas o dever de gerir, mas o dever de educar democraticamente.

Cabe-lhes reconhecer e fazer reconhecer que as sociedades modernas são, por natureza, plurais. Que os povos sempre se deslocaram, que as identidades sempre evoluíram, e que a diversidade não é uma anomalia, mas uma realidade estrutural do mundo contemporâneo. Ignorar esta evidência é abrir caminho ao racismo, à xenofobia e, em última instância, a novas formas de imperialismo e de guerra, cujas consequências já não são apenas nacionais, mas globais.

A alteridade não enfraquece as sociedades.

Pelo contrário, fortalece-as. É nela que reside a possibilidade de uma democracia viva e justa. Recusá-la é escolher o caminho do medo, da violência simbólica e, muitas vezes, da violência real. A história já nos mostrou onde esse caminho conduz. A nossa responsabilidade coletiva é não repetir o erro.

Defender a alteridade é, hoje, um ato político maior. É defender a democracia contra as suas próprias sombras.

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José Robalo

Movimento Sinergias da Diáspora