Lusa / Filipe Farinha

“Não perder o Nosso Portugal”: Confissões de uma professora de português


Um grupo de jovens estudantes, após reflexão de um texto, “A política do séc. XXI, Que valores? Que partidos? Que Cidadãos” de Joaquim Jorge (JN, 11/2009) levantou várias questões tendo em conta a realidade política das recentes eleições em Portugal e do período eleitoral que se avizinha aqui em França para as Municipais, mas também para as Presidenciais já no próximo ano.

É bom escutar os jovens e dar-lhes a palavra. Esta geração que anda a passos largos e de mãos atadas aos ecrãs, é acusada de perder os valores e serem inconscientes da realidade. De quem é a culpa? É fácil acusar a sociedade, pois ela não tem rosto, nem uma morada exata. A sociedade somos nós: sou eu, é o senhor, é a senhora, és tu, somos nós!

Após a leitura deste texto de opinião, várias foram as vozes dos jovens que, para meu espanto, estão de acordo com os recéns resultados em que o partido Chega, foi adornado na bandeja que se encontra em cima da mesa para que possamos escolher para Presidente de Portugal.

O adorno, reivindicado pelos jovens, é fruto dos votos de muitos dos avós e dos pais destes mesmos jovens, já que eles não se encontram (ainda!) em idade para exercerem esta prática da cidadania.

Escutei silenciosamente e até certo ponto com uma mágoa e uma mistura de sentimentos a forma como estes jovens falam. Já não se trata de crianças que se limitam a repetir o que ouvem, mas de jovens entre o 15 e 17 anos que, ainda ligados pelo cordão umbilical, já começam a dar os seus primeiros gritos!

Os jovens acham, primeiramente que os emigrantes que não têm uma morada em Portugal não deveriam votar para o país de origem, pois “não são diretamente afetados pelas políticas que lá se vive”; “quem deve votar para Portugal é quem lá mora e está submetido às leis”, ou quem vive entre os dois países, como no caso dos reformados, ou profissões que exigem tempo de permanência fora do país.

Por outro lado, reivindicam que os portugueses, tal como outros imigrantes em França, que vivem de forma permanente, que têm cá casa e a vida instalada, deveriam ter um papel mais ativo. “É aqui que pagam impostos, vão ao sistema de saúde, contribuem para país” então “deveriam ter uma voz ativa e serem responsáveis, pois aqui é que estão dependentes das leis e das decisões do Governo”.

Até com eles concordo, quem vota conta, mas seria preciso ter a nacionalidade e nem todos têm!

Depois, estes jovens explicam, como uma forma de efeito/causa, o porquê dos emigrantes portugueses terem dado voz ao Chega. Segundo eles, “se por um lado parece paradoxal votar num partido que quer controlar a imigração, sendo eles também imigrantes em França, finalmente explica-se! De fato os nossos emigrantes portugueses já passaram por aí e sabem o que é sair e procurar uma nova vida, mas aplicaram-se e inseriram-se e esforçaram-se no país que os acolheu”.

Os portugueses em França, por verem qual é o resultado de abrir as portas à imigração sem controlo e sem medidas, sabem que a realidade aqui é a insegurança, a violência, a incapacidade de controlar e sobretudo a imposição das ideias, formas de vida dos povos que chegam e não uma assimilação. Os portugueses não vieram “aportuguesar” a França. Os portugueses de tanto se assimilarem até muitos nem falavam português em casa, pois queriam que os filhos se integrassem rapidamente na sociedade francesa”.

“Portugal já está a ficar diferente, estes imigrantes não são europeus, não têm a mesma cultura, o mesmo sentido de vida, valores e religião e esta situação só vai criar conflitos e degenerar o país, como já estamos a perder a França, não queremos perder o nosso Portugal”.

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Gostaria apenas de partilhar o que vivi.

Isto inquieta-me, sinto-me sem saber o que dizer ou fazer. Estou a partilhar ideias de jovens que nasceram em França, filhos de pais que até já nasceram cá, em alguns casos e eles não querem perder o “Nosso Portugal”!

Quem é de razão que pode elucidar estes jovens e a mim também, que sou imigrante em França, que sei o que é sair, integrar-me e sobretudo ser aceite!

Termino com as palavras da canção de Pedro Abrunhosa: “Ninguém sai de onde tem paz” e de onde está bem!

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Professora de português devidamente identificada pelo LusoJornal,
mas que pediu anonimato.