LusoJornal | António Borga

Intervenção de Nathalie de Oliveira na Comissão Nacional do PS de 24 de janeiro

Caro Presidente do Partido, Carlos César,

Caro Secretário-Geral, José Luís Carneiro,

Caras e caros Membros da Mesa,

Caras e caros camaradas,

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Antes de tudo, quero dizer-vos que é sempre com grande emoção que uso da palavra nas reuniões da Comissão Nacional do Partido Socialista, órgão deliberativo máximo do Partido entre Congressos.

Hoje ainda mais do que nunca, na véspera de uma eleição para a Presidência da República que poderá eleger um de nós, António José Seguro, um socialista emérito cujo percurso adverso afastado da máquina partidária, porém o que nunca sequer o separou do seu povo. Sempre acompanhou a vida dos Portugueses, dentro e fora, na espuma dos seus dias, seus desgostos como as suas alegrias e, sobretudo, nutrindo a esperança de um país mais justo e mais fraterno, onde a democracia e o Estado de direito têm ainda muito futuro para concretizar sonhos individuais e coletivos.

Nesta primeira volta, venceu a dignidade, a decência, a honestidade, a integridade, a responsabilidade de um homem sinceramente pronto e entregue inteiramente a presidir o destino de uma Nação espalhada pelo mundo inteiro. Para quem, como eu, o defendeu desde a primeira hora, há quase uma década e meia, é pouco dizer a minha alegria do tamanho do planeta onde vivem as Comunidades de Portugal.

Temos Presidente e temos um Presidente para um Futuro Seguro!

No seguimento dos resultados no estrangeiro, é necessário e devido rigor analítico antes de retirar ilações demasiado simplificadas e precipitadas sobre a “uma maioria” dos Portugueses que votaram no candidato presidente do partido Chega.

Há um número fulcral apenas comentado do qual ninguém se reivindicou e imprescindível de uma reflexão séria para quem luta deveras na defesa do Artigo 14 da Constituição de Portugal, o artigo que garante a igualdade dos direitos de cada cidadão português e cidadã portuguesa quer que resida em Portugal ou quer fora do país: 96%.

96% de abstenção dos eleitores em ambos os círculos no estrangeiro. Por desinteresse? Nada disso. Os números da participação nos atos eleitorais desde o direito de voto por correspondência nas eleições legislativas em 2019 têm aumentado sempre de forma exponencial como o relata estatística e matematicamente a Associação Também Somos Portugueses. Há sem sombra de uma dúvida vontade de maior participação política na diáspora e sem obstáculos da idade da pedra.

No âmbito da eleição à Presidência da República, cabe relembrar que o voto é exclusivamente presencial.

Apesar das dificuldades de deslocação para quem tem que apanhar e pagar voos ou comboios ou combustível para votar num país de outro continente ou em outro país vizinho pelo mundo fora. Quid do desdobramento das mesas de voto nos Consulados? Quid do voto antecipado onde quer estejamos? Quid do voto remoto eletrónico? O pavor da fraude terá que ser ultrapassado.

O modelo da participação cívica e política de França para os Franceses no estrangeiro é inspirador ainda que a eleição para a Presidência da República francesa também exige ir às urnas.

Non obstante, 29.405 eleitores votaram em André Ventura, na extrema-direita o que representa 1,65% dos inscritos e 0,58% dos 5 milhões sempre citados com orgulho pelos Governos sucessivos de Portugal. Este número derisório não preenche nem metade do Estádio da Luz, citando o historiador e investigador Victor Pereira!

Doravante, é refletir seriamente sobre as razões destes quase 30 mil recenseados alvos de racismo e xenofobia ao longo da sua própria história, nomeadamente em França, ter votado na extrema-direita: os medias e o espaço enorme outorgado a quem vocifera insultos por toneladas, a invasão do ódio nas redes sociais no meio de uma juventude da segunda e terceira geração fascinadas pelo “Líder” e sem memória alguma? Onde falhámos no dever de memória, de transmissão dos valores e princípios? O que será da empatia, da solidariedade e da fraternidade quando desistimos de raciocínio e do livre-arbítrio perante a invasão da mentira nas nossas vidas?

Também importa muito que soubessem que ser português(a) no estrangeiro é obra quando se sente e se prova um amor incondicional a Portugal sem ser correspondido. Como se Portugal, o seu povo como as suas elites nunca tivessem perdoado a quem partiu. “Loin des yeux, loin du coeur“.

Claro, não merecem. Além disso, agora votam mal…

Interessa perguntar em quem votariam os 96% para quem foi impossível ir às urnas? Será que os 1,65% que participaram tornaram-se Franceses como os outros: desesperados? É que França anda triste como muitas rosas nos jardins do mundo inteiro. Porém, Portugal sem nós é como um corpo cuja veia vital de ligação ao coração do mundo fica cortada. Ainda falta a segunda-volta para avaliar a força do “Frente republicana” inclusive no estrangeiro.

Pergunto, e agora? O que pode um enésimo Congresso do PS?

O PS deve permanecer vivo em todo o país e fora, junto das secções que honram o seu nome e sua história. O nosso amor à ideia socialista é exigente, até porque segue não correspondido tão pouco mas bem sabem: Também Somos Portugueses e também somos PS!

E temos um leque de ideias inovadoras para apresentar neste próximo Congresso, o XXV Congresso par ter o partido organizado e capacitado para calar o grito fascista.

Por conseguinte, isso exige criar uma Federação socialista da diáspora porque “um partido vivo, de espírito livre, sempre atento aos movimentos da realidade e da sociedade” só pode alcançar as vitórias no porvir onde ninguém ficará nunca de parte.

Saudamos a criação de um Departamento das Comunidades na sede nacional.

Que seja povoado de militantes entregues à nossa causa em todas as federações de Portugal!

Termino agradecendo muito a Presidente cessante da Direção Nacional das Mulheres Socialistas – Igualdade e Direitos (MS-IS), Elza Pais, pela confiança que depositou em mim, sendo eleita membro do Secretariado nacional deste órgão soberano do PS onde ainda lutamos tanto para os direitos das mulheres não serem calcados a cada dia que passa. Sim, há mulheres socialistas em todo o mundo e cada vez mais conscientes que a igualdade de género não é um direito adquirido até ao fim dos tempos e tanto mais com André Venturas a mandar-nos calar e ficar em casa para sermos donas de tudo entre quatro paredes, de tudo salvo mestres do nosso próprio destino individual como na vida da Cité.

Bom Congresso! Viva o PS! Viva Portugal!

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Nathalie de Oliveira

Ex-Deputada do PS eleita pelo círculo eleitoral da emigração