Opinião: Votar é um ato de resistência!


A democracia portuguesa atravessa um momento de tensão e de incerteza. Num contexto europeu e internacional marcado pela ascensão de forças populistas e de Extrema direita, Portugal não está imune a esta tendência. A presença de um partido populista de Extrema direita na segunda volta das eleições presidenciais constitui um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Mais do que uma disputa eleitoral, trata-se de um teste à maturidade democrática e ao compromisso cívico de todos os cidadãos e cidadãs, dos que residem em Portugal e fora de Portugal.

A história ensina-nos que a democracia não é um dado adquirido. É uma construção coletiva, frágil, que exige vigilância, participação e responsabilidade.

Quando o discurso político se alimenta do medo, da divisão e da desinformação, quando se apontam bodes expiatórios em vez de se apresentarem soluções concretas, abre-se espaço para projetos que corroem os valores fundamentais da convivência democrática: o respeito, a pluralidade e a solidariedade.

Neste contexto, a memória coletiva assume um papel central.

Um povo sem memória é um povo sem futuro.

Recordar o passado não é um exercício de nostalgia, mas um ato de consciência cívica. Portugal conhece bem o preço da ausência de liberdade.

Durante décadas, homens e mulheres viveram sob a censura, a repressão e o medo. Foi a coragem de muitos – trabalhadores, estudantes, intelectuais, militares e cidadãos anónimos – que permitiu a conquista da democracia e da liberdade.

Os valores do 25 de Abril de 1974 continuam a ser o alicerce da nossa vida democrática. A Revolução dos Cravos abriu caminho a um país mais justo, plural e solidário, consagrando na Constituição da República Portuguesa os direitos, liberdades e garantias que hoje consideramos essenciais. Preservar essa herança é uma responsabilidade coletiva. Defender a democracia é também respeitar a Constituição, as instituições e o pluralismo político que garantem um país livre e democrático, com todos e para todos, sem exceção.

A extrema direita cresce precisamente quando a abstenção aumenta. A falta de participação enfraquece o sistema democrático e favorece os candidatos que apostam na mobilização do ressentimento e do descontentamento, mas que raramente apresentam respostas sérias para os problemas estruturais do país.

O discurso fácil do «nós contra eles» e de «todos contra nós», pode seduzir em momentos de crise, mas não resolve as dificuldades reais das pessoas: o custo de vida, o acesso à habitação, a precariedade laboral dos mais jovens, os desafios da saúde e da educação, ou a necessidade de políticas públicas inclusivas que não deixem ninguém para trás.

Neste momento particularmente difícil, marcado pelas inundações provocadas pelas tempestades Kristin e Leonardo, muitas pessoas enfrentam não só perdas materiais, mas terríveis perdas humanas, às quais se aliam sentimentos de insegurança, de abandono e de muito cansaço.

É compreensível que, perante estas dificuldades, a prioridade seja reconstruir, proteger as famílias e garantir o essencial. No entanto, é precisamente nestes momentos de adversidade que a participação democrática se torna ainda mais necessária. Votar é uma forma de cuidar do presente e de proteger o futuro.

A abstenção é inimiga da democracia.

Quando os cidadãos e as cidadãs se afastam das urnas, deixam o campo livre a projetos políticos que se alimentam da desmobilização e da descrença. Não votar é, na prática, facilitar a vitória de quem procura dividir a sociedade, alimentar o ódio e enfraquecer as instituições democráticas. O voto, pelo contrário, é um instrumento de esperança e de afirmação coletiva.

É importante lembrar toda a comunidade portuguesa, que não se limita ao território nacional. Milhares de portugueses e portuguesas vivem e trabalham fora de Portugal, contribuindo para o país a partir da diáspora. Também eles têm uma palavra a dizer sobre o rumo da democracia portuguesa. A participação eleitoral de quem está no estrangeiro é fundamental para reforçar os laços de cidadania e para garantir que as decisões políticas refletem a diversidade e a realidade de todos.

Em homenagem a todos os homens e mulheres que sofreram na pele os tempos sombrios da ditadura, que lutaram pela liberdade e pela democracia em Portugal e fora de Portugal, incumbe-nos o dever de honrar a sua memória com ações concretas. A melhor forma de o fazer é participar, é não desistir, é exercer o direito conquistado com tanto sacrifício: o direito de votar.

No próximo dia 8 de fevereiro, mobilizemo-nos pela democracia. Honremos a memória de quem resistiu, de quem lutou, de quem sonhou com um país livre. Defendamos os valores de Abril e o respeito pela Constituição da República Portuguesa. Façamos do voto um gesto de responsabilidade e de esperança.

Pela democracia e pela liberdade, votar é o nosso dever cívico. Mesmo em tempos difíceis, especialmente em tempos difíceis, votar é afirmar que acreditamos num Portugal livre, democrático e plural – um país com todos e para todos, sem exceção.

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Isabel Barradas

Membro da Comissão de honra da diáspora à candidatura à Presidência da República Portuguesa de António José Seguro.