Opinião: Tempestade Kristin – a força silenciosa das Comunidades portuguesas


As alterações climáticas deixaram há muito de ser uma previsão científica para se tornarem uma evidência quotidiana. Tempestades sucessivas com ventos violentos e precipitação extrema, ondas prolongadas de frio e de calor, períodos severos de seca ou fenómenos de cheias rápidas deixaram de ser exceções para se tornarem parte de um novo padrão climático. A questão central já não é saber se estes fenómenos vão ocorrer, mas com que frequência e com que impacto.

Esta realidade obriga-nos, enquanto sociedade e enquanto decisores políticos, a uma mudança profunda de atitude: menos reação tardia, mais antecipação; menos improviso, mais planeamento; menos discurso circunstancial, mais responsabilidade estrutural.

A tempestade Kristin veio recordar-nos, de forma dura, que Portugal – tal como muitos outros países europeus – vive hoje numa situação de risco quase permanente. A Europa, no seu conjunto, tem demonstrado capacidade de resposta após as crises, mas continua a falhar num ponto essencial: a preparação sistemática das populações para fenómenos extremos que já sabemos que irão repetir-se.

Tal como acontece com os sismos, é imperativo que exista informação clara, formação adequada e planos de emergência bem testados, especialmente nos territórios mais vulneráveis. A implantação humana, a orografia, a rede hidrográfica e o ordenamento do território não são fatores neutros: amplificam ou atenuam os efeitos destes fenómenos e exigem respostas diferenciadas. Ignorar esta evidência é persistir num erro que se paga, demasiadas vezes, em perdas humanas e sociais irreparáveis.

Perante a tempestade Kristin, o Governo adotou um conjunto amplo de medidas que importa reconhecer. Um volume de apoios estimado em cerca de 2.500 milhões de euros, a mobilização de aproximadamente 34 mil operacionais no terreno, a declaração do estado de calamidade em 69 municípios, apoios diretos à reconstrução de habitação própria e permanente, à agricultura e à floresta, bem como medidas de apoio social às famílias afetadas, isenções contributivas, linhas de crédito e um regime simplificado de lay-off constituem uma resposta significativa à dimensão da tragédia.

Estas decisões mostram que o Estado tem instrumentos e capacidade de intervenção. Mas mostram também algo mais importante: que a resposta à emergência, por eficaz que seja, não substitui a necessidade de políticas públicas de prevenção, adaptação e resiliência a médio e longo prazo.

Infelizmente, como acontece recorrentemente após estas tragédias, assistiu-se também a declarações marcadas pelo aproveitamento político e, nalguns casos, por um preocupante desconhecimento científico – vindas, paradoxalmente, de quem teve responsabilidades governativas durante largos anos. Num contexto em que tantas pessoas perderam bens, rendimentos e, nalguns casos, a própria vida, exige-se dos responsáveis políticos mais contenção, mais seriedade e menos ruído.

Mas se houve algo que se destacou de forma positiva na sequência da tempestade Kristin foi, uma vez mais, a solidariedade. Em Portugal, naturalmente. Mas também – e nem sempre com o devido destaque – fora dele.

As Comunidades portuguesas residentes no estrangeiro responderam com rapidez, generosidade e sentido de pertença. Muitos emigrantes deslocaram-se de imediato a Portugal para apoiar as suas famílias e proteger os seus bens. Associações organizaram recolhas e enviaram bens de primeira necessidade para os territórios afetados. Em países como a França, estas comunidades conseguiram ainda envolver municípios locais nos esforços de ajuda, alargando a rede de solidariedade para lá das fronteiras nacionais.

Essa solidariedade nem sempre teve a visibilidade mediática que merecia. Foi referida tardiamente e, muitas vezes, de forma quase discreta. Ainda assim, esteve lá – como esteve tantas outras vezes na história recente do país.

Ao visitar concelhos fortemente atingidos, como Ourém, Vila Velha de Ródão ou Castelo Branco, foi possível perceber não apenas a dimensão dos estragos, mas também a presença ativa de emigrantes, profundamente ligados às suas terras de origem. Essa ligação não é simbólica nem circunstancial. É concreta, permanente e mobilizadora.

As Comunidades portuguesas demonstram, vez após vez, que Portugal não se esgota no seu território. Portugal é feito de pessoas, de laços, de memória e de responsabilidade partilhada, independentemente do local de residência. Nos momentos difíceis, essa realidade torna-se ainda mais evidente.

É por isso que a tempestade Kristin deixa também uma lição política e cívica clara: quem continua a duvidar da força do vínculo entre a emigração e o país de origem ignora factos, ignora gestos e ignora exemplos concretos de solidariedade ativa.

Num tempo de desafios globais, de riscos climáticos crescentes e de necessidade urgente de coesão nacional, reconhecer, valorizar e integrar plenamente as comunidades portuguesas na resposta coletiva do país não é apenas um dever moral. É uma escolha estratégica.

Portugal será sempre o país dos seus cidadãos – onde quer que estejam. E, quando a adversidade bate à porta, são muitas vezes aqueles que estão mais longe que demonstram, com maior clareza, o que significa nunca estar ausente.

Carlos Gonçalves
Deputado (PSD) eleito pelo círculo eleitoral da Europa
Antigo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas