A artista lusófona baseada em Paris, Elsinha, prepara-se para lançar o seu primeiro álbum de estúdio, “Liberdade”, no próximo dia 3 de junho. Depois do EP “Salvação” (2019), o projeto afirma uma identidade artística construída a partir da fusão de múltiplas influências culturais.
Nascida em França de pais portugueses, Elsinha cresceu num ambiente onde a música fazia parte da própria história familiar. Neste novo trabalho, a cantora apresenta uma sonoridade híbrida, onde se cruzam referências afro-brasileiras, elementos da tradição lusófona e influências ibéricas, incluindo melodias andaluzas e nuances do fado. O resultado é um álbum emocionalmente intenso, que reflete tanto o percurso pessoal da artista como a sua experiência multicultural.
Um álbum com identidade definida
Comparado com o trabalho anterior, a artista considera que este novo projeto revela uma maior maturidade artística e uma direção mais clara. “Este álbum tem cores mais harmoniosas e uma identidade mais comum”, explica, destacando uma maior coesão sonora e conceptual com o apoio e direção artística do coletivo Mix et Métisse.
O projeto inclui temas em português e espanhol, refletindo o percurso internacional da artista, que já viveu em França, Brasil e Espanha. A artista integra de forma intuitiva influências adquiridas nos diferentes países onde viveu. Das palmas flamencas às sonoridades brasileiras e incluindo elementos mais clássicos constrói uma linguagem musical própria e não deixa de sublinhar o impacto que teve na sua música o facto de ter crescido em Paris, num ambiente que caracteriza como “marcado pela diversidade cultural”.
O single “Soledad”, já disponível com videoclipe, antecipa o tom intimista do disco: “é uma música carregada de lembranças de infância, uma época onde me sentia sozinha e incompreendida”, explica.
A herança e a reconstrução do passado
Para além da dimensão cultural, Liberdade afirma-se como um projeto profundamente pessoal, onde a artista revisita a sua história familiar e a relação ambivalente com a música. Com raízes numa família onde o bisavô tocava acordeão nas Arcadas do Fado, em Almancil, e a mãe tinha paixão pelo fado, este caminho foi durante anos visto com receio: “Na minha família, a perceção era que não dava para viver da música”.
Durante anos, o tema foi um tabu na família, até ao momento marcante em que a mãe assistiu, pela primeira vez, a um concerto seu no Café de la Plage, em Paris. “Ela segurou-me a mão, a chorar, e disse: agora percebo porque é que queres fazer isto, foste feita para isto”.
Iniciado há três anos, sem uma direção definida, o projeto foi ganhando forma à medida que a artista revisitava o passado e transformava esse processo num caminho de cura e libertação. “Foi toda uma recompilação do passado que depois se revelou no meu trabalho, e a direção foi-se mostrando aos poucos”.
O resultado é um disco que cruza memória e presente, num gesto de cura que a própria define também como coletivo: “Sinto que este trabalho foi feito para mim, mas também para libertar as memórias da minha mãe, da minha avó e dos meus ancestrais”. A participação da mãe na última faixa reforça esse simbolismo, encerrando o álbum como um momento de união e reconhecimento.







