Saúde: “As análises estão boas.” E o resto?


“Está tudo bem, Dra. As análises estão boas”.

Ou então: “Fisicamente estou bem. É mais daqui da cabeça”.

É assim que começa quase sempre. Como se fosse possível separar.

Como se o cérebro não fizesse parte do corpo ou dos órgãos de primeira classe.

O joelho dói, incha e fica vermelho. Não gera dúvidas.

A garganta inflama. A tosse ouve-se. E a febre sobe. Sabemos que não é “da cabeça”.

Vê-se. Ouve-se. Mede-se. É objetivo, portanto.

O cérebro não. E esse é o problema.

O cérebro adoece. Mas não incha. Não fica vermelho. Não faz barulhos audíveis. Teima em não aparecer nas análises ou numa simples radiografia. No fundo, tem a mania de não facilitar o trabalho de ninguém e mantém-se no abstrato. E a dúvida surge, claro.

Quando os sintomas surgem, a nossa primeira impressão é que serão “manias”. Dificuldade em dormir. Pensamento acelerado. Falta de concentração. Cansaço constante. Irritabilidade. Perda de prazer. Ansiedade sem motivo claro.

Tentamos normalizar e “desencorajar” estes sintomas, mas eles teimam em não desaparecer e desarranjam tudo à sua volta.

“É a vida” – insistem.

Não. Não é.

São manifestações de disfunção cerebral.

Hoje sabemos que doenças como a depressão e a ansiedade envolvem alterações nos neurotransmissores – serotonina, noradrenalina, dopamina -, nos circuitos neuronais e até na estrutura de determinadas áreas do cérebro.

Não é abstrato. Não é “psicológico” no sentido de “menos real”. É biológico. A diferença é que não se vê.

E o que não se vê, desvaloriza-se.

Uma pessoa com dor no peito vai ao médico. Uma dor de garganta precisa de penicilina o mais cedo possível (garantem, erradamente, os mais “experientes”).

Uma pessoa que não dorme há semanas tenta aguentar. Uma pessoa que perdeu o prazer em tudo acha que “vai passar”. E deixa andar. Em silêncio.

Não passa sempre. E quanto mais tempo passa, mais o cérebro se adapta ao desequilíbrio. E, portanto, mais difícil fica reverter.

Na consulta, há uma frase muito comum: “Dra., eu sei que não estou bem, mas também não estou doente”.

O problema é que aprendemos a reconhecer doença quando há sinais físicos evidentes. E ignoramos quando os sinais são cognitivos, emocionais ou comportamentais.

Mas são sinais na mesma. E têm um impacto real.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) é clara: saúde não é apenas ausência de doença física. É um estado de bem-estar físico, mental e social.

O cérebro não é um órgão à parte. Diria mais (e, nesta, sou parcial): é o órgão central. Quando não está bem, nada está bem.

Não há separação real entre corpo e mente.

Nunca houve.

No Dia Mundial da Saúde (7 de abril) vale a pena lembrar: falar de saúde é falar de tudo.

E isso inclui – obrigatoriamente – a saúde mental.

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Dra. Maria Moreno

Médica psiquiatra

@mariamoreno.medicapsiquiatra

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