O ciclo “Musicorama”, promovido pela Embaixada de Portugal em Paris para valorizar a criação musical portuguesa e o diálogo entre culturas lusófonas, recebeu na semana passada a pianista Jill Lawson para um recital inteiramente dedicado ao universo expressivo do piano português. Sob o título “Ecos de Portugal: Fado, Dança e Impressões Líricas”, o concerto propôs uma viagem sensível através de mais de um século de música, revelando a diversidade estética e emocional que atravessa o repertório pianístico luso.
Nascida no México em 1974, de nacionalidade luso‑americana e formada entre a Bélgica, os Países Baixos e os Estados Unidos, Jill Lawson construiu uma carreira marcada pela versatilidade e pela atenção às raízes culturais. Laureada em concursos internacionais como o Vianna da Motta, o Schubert de Dortmund ou a American Pianists Association, a pianista desenvolveu uma intensa atividade como solista e chambrista, além de uma importante vertente pedagógica em Portugal, onde ensina desde 2008. A sua discografia, centrada em compositores portugueses como Fragoso, Frederico de Freitas ou Joly Braga Santos, confirma um compromisso profundo com a divulgação deste património.
No recital apresentado em Paris, essa ligação tornou‑se evidente desde a abertura, com um conjunto de peças que evocam diretamente o fado e a sua dimensão lírica: “Fadinho Liró” de Francisco Bahia, “Barcarola” de Hernâni Torres e “Um Fado” de Alfredo Keil. Lawson sublinhou o carácter vocal destas páginas, explorando a saudade e a expressividade que lhes são intrínsecas.
Seguiu‑se um bloco dedicado à dança, com obras de Óscar da Silva, Alexandre Rey Colaço e José Vianna da Motta, onde o ritmo e o virtuosismo se cruzam com elementos populares. A pianista destacou a vitalidade destas peças, revelando a forma como a música portuguesa absorveu influências europeias sem perder a sua identidade.
O centro emocional do programa foi ocupado pelas “3 Mornas cabo‑verdianas” de Fernando Lopes‑Graça – “Adeus Mamãe”, “Bidjica” e “Cái no Mar”. Aqui, Jill Lawson evidenciou o diálogo atlântico que atravessa a lusofonia, dando voz a uma escrita que combina nostalgia, resistência e ternura. A escolha destas obras reforçou a dimensão multicultural do ciclo Musicorama, que procura precisamente valorizar as pontes entre Portugal e o espaço lusófono.

A secção intitulada “Reflexão” trouxe um momento mais introspectivo, com “Momentos Sentimentais n.º 2” de António Victorino d’Almeida, o “Fado Burnay” de Eduardo Burnay e o “Intermezzo” de Jorge Croner de Vasconcelos. Lawson abordou estas peças com uma sonoridade depurada, revelando a modernidade subtil de cada compositor.
O recital terminou com um “final brilhante”, reunindo danças e impressões líricas de Rey Colaço, Vianna da Motta, Alfredo Napoleão, Frederico de Freitas e Francisco Bahia. Entre a energia do “Vira”, a leveza da “Dança da Roda” ou a delicadeza de “A Brisa”, o público pôde descobrir a riqueza de um repertório ainda pouco conhecido fora de Portugal, mas de grande força comunicativa.
Com este concerto, o ciclo Musicorama reafirma a sua missão: dar visibilidade à criação musical portuguesa, promover artistas que constroem pontes entre países e culturas, e oferecer ao público parisiense uma programação exigente e diversificada. A atuação de Jill Lawson, marcada por sensibilidade, rigor e profundo conhecimento deste repertório, foi mais um momento alto desta iniciativa cultural da Embaixada de Portugal em França.
Musicorama é coordenado pelo Conselheiro cultural da Embaixada e Diretor do Instituto Camões em Paris, Jorge Barreto Xavier, com Direção artística do pianista Bruno Belthoise.







