Gérald Bloncourt foi homenageado no Museu da Imigração em Paris

O Museu nacional da história da imigração – Palais de la Porte Dorée – acolheu no sábado passado uma sessão de homenagem a Gérald Bloncourt, falecido no ano passado. O evento foi organizado por um grupo de amigos do fotógrafo, nomeadamente Manuel Dias, do Comité Aristides de Sousa Mendes, e teve o alto patrocínio do Embaixador de Portugal em França, Jorge Torres Pereira.

Nascido no Haiti em 1926, filho de uma mãe francesa e de um pai vindo da Guadeloupe, Gérald Bloncourt foi ativista político e esteve implicado na queda do Governo Lescot, mas foi expulso do país antes de vir para Paris. Desde pequeno que a mãe lhe falava dos grandes navegadores portugueses, mal sabia que mais tarde viria a ser condecorado pelo Presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, precisamente em Champigny.

Em Paris trabalhou para vários jornais, fotografando conflitos sociais e o mundo do trabalho. Foi assim que conheceu os Portugueses e as suas condições de vida no Bidonville de Champigny.

“Gérald Bloncourt foi um fotógrafo extraordinário, que compreendeu desde os anos 50, o drama da emigração. Primeiro a emigração africana, depois a emigração argelina e depois a emigração portuguesa. Foi um dos primeiros que denunciou a problemática dos bairros de lata na região de Paris” explica ao LusoJornal Manuel Dias. “Ele descobriu o bairro de lata de Champigny a através de uma grande reportagem que fez sobre a situação dos bairros de lata em França”.

Esta sessão de homenagem foi organizada em cumplicidade com a mulher do fotógrafo, Isabelle Bloncourt. “Ele dizia que fotografava para combater a injustiça e foi assim que encontrou os Portugueses. Fotografou o Bidonville e foi a Portugal ver de onde vinham as pessoas. Mas na altura ele fazia-o para cobrir a atualidade, enquanto jornalista. E 20 ou 30 anos depois, os Portugueses dizem-lhe obrigado e agradecem-lhe por ter reconstituído a sua própria história, por lhes ter dado memória. Aliás ele dizia que era um ‘passador de memória’”.

Isabelle Bloncourt estava visivelmente contente por saber que os Portugueses continuam a prestar homenagem ao marido.

Na sala estava o Cônsul Geral de Portugal em Paris, António de Albuquerque Moniz, o Adido Social do Consulado Joaquim do Rosário, o historiador Daniel Bastos, que publicou dois livros sobre Gérald Bloncourt. Artur Coimbra, o Diretor do Museu da Emigração de Fafe, a quem Gérald Bloncourt cedeu dezenas de fotografias, a socióloga Maria Beatriz Rocha Trindade, a historiadora Marie-Christine Volovitch-Tavares, mas também Valdemar Francisco e Joaquim Barros da associação Les Amis du Plateau, e Parcidio Peixoto, da associação Memória das Migrações.

Houve “momentos de respiração” com guitarradas portuguesas, numa proposta da associação Gaivota; foram projetadas fotografias do homenageado e foram projetados dois filmes, um de Carina Branco e Nina da Silva, realizado para a CLP TV e um outro de Isabelle Bloncourt com fotografias do pós-25 de Abril em Portugal e do 1° de Maio de 1975, já que Gérald Bloncourt foi “cobrir” a Revolução para a imprensa francesa.

“Portugal fica a dever muito a Gérald Bloncourt porque cada vez mais as imagens têm importância” refere Maria Beatriz Rocha Trindade, que veio de Lisboa propositadamente para este evento. “Os textos e os discursos sem imagem ficam incompletos e se não fosse ele a fixar uma parte tão importante de uma história recente, contemporânea, a memória vai-se, e naturalmente não teríamos presente tudo o que aconteceu” disse ao LusoJornal.

Por seu lado Parcídio Peixoto falou do “grand-frère” que encontrou e com quem partilhou 10 anos “que nem vi passar”.

No final foram lidas mensagens enviadas pelos dois Deputados eleitos pelo círculo eleitoral da Europa, Paulo Pisco e Carlos Gonçalves, e houve testemunhos espontâneos de pessoas presentes, que quiseram falar de Bloncourt, nomeadamente aqueles que o procuraram porque se reconheceram nas fotografias ou para quem as fotografias são um importante testemunho histórico da vida das famílias.

Uma segunda homenagem está prevista para Lisboa, sempre com a cumplicidade de Isabelle Bloncourt.

 

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1 Comment Deixe uma resposta

  1. As minhas surpresas.
    A bastantes anos numa visita ao museu, da imigraçâo reparei pela primeia vez que sempre tinha havido alguém para além de Jorge Reis, que se tinha interessado aos portugueses os nossos pais/avos vindos nos anos 60 para França.
    tentei sempre saber onde pararia o autor das fotos e en vâo. Um dia o milagre das redes sociais me fez descobrir Gerald, que logo me aceitou como Amigo e me informou que morava em Paris. Nunca procurei saber mais, a nao ser consultar o seu Blog.
    cheguei a mandar mensagens um pouco por todo lado para que houvesse um dia da parte de Portugal um reconhecimento e sempre me interessei ao que ele escrevia sobre nos.
    Creio que a 11 de junho 2016 que surpreza agradàvel ao ver o nosso amigo presidente da républica entregar lhe uma medalha, foi motivo de orgulho para mim e tinha de aproveitar aquele momento para o conhecer pessoalmente pois até ai eram mensagens mas muito raras. Com a complicidade de um amigo consegui entrar nos locais que me nao eram destinados, apresentei me coversamos um pouquinho e até fizemos uma foto. visitei a sua exposiçâo fotografica e depois Em Agosto 2016 eram comemorados os dez anos da gemiaçâo de Houilles com Celorico de Basto, como também tenho uma pontinha de responsabilidade nesta geminaçâo e também era convidado ao cerimonial. Fiquei muito surpreendido em ver a presença na minha terra o Amigo dos portugueses na companhia da Isabelle sua esposa, ele proprio que também nâo contava la comigo, foi grande surpreza par os dois. A nossa amizade ampliou – se.
    Este Homem sofreu varias e graves doenças, um dia fui visita-lo à sua casa e sai de la a pensar que seria a ultima vez, mas como ele tinha jà vencido varias pensei que ainda poderia vencer outra vez, mas enganei-me.
    Gerald Bloncourt, foi realmente aquela pessoa que sem ele nâo haveria mesmo nenhum traço da imigraçâo dos anos 60/70. OBRIGADO e paz à tua alma.
    Podem procura informaçao no seu blogue é muito grande mas vale a pena consultar..

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