Incêndio na Mairie de Limoges: Valter Fernandes considera que é “uma parte da história de todos nós que parece ser afetada”

O incêndio que devastou o edifício da Mairie de Limoges, no sábado passado, dia 17 de outubro, deixou Valter Fernandes em choque. Nascido na cidade e atualmente colaborador das rádios RTF Limoges e RCF Limousin, descreve ao LusoJornal o impacto de ver as chamas atingirem um monumento que sempre fez parte da sua vida.

O fogo foi ateado no final de uma manifestação contra o aumento do custo de vida. Segundo o relato do jornal Le Monde, um grupo atacou a ala leste do edifício e provocou o incêndio. As chamas propagaram-se à cobertura, causando o desabamento do telhado e da torre do relógio e deixando a Mairie gravemente danificada.

Valter Fernandes não esteve no local nem assistiu diretamente aos acontecimentos. Acompanhou a situação através das redes sociais, das rádios e dos restantes meios de comunicação social. “Quando vi as primeiras imagens do incêndio, a minha primeira reação foi de choque e incredulidade. Sinceramente, parecia-me quase impossível que aquilo estivesse realmente a acontecer”, conta ao LusoJornal.

A sua ligação à cidade ajuda a explicar essa reação. “Nasci em Limoges e é aqui que tenho as minhas raízes e a minha história”, afirma. A colaboração com as duas rádios locais permite-lhe manter essa proximidade com os habitantes, mas também com os lugares que fazem parte da sua memória.

“Nunca pensei ver um edifício como a Mairie de Limoges atingido desta forma. Para mim, foi um momento de grande consternação, precisamente por conhecer a cidade desde que nasci e por saber o que este monumento representa para a sua identidade”.

Mais de 140 anos de história

Inaugurado a 14 de julho de 1883, o edifício foi concebido pelo arquiteto Charles-Alfred Leclerc. A sua construção tornou-se possível graças ao legado de Alfred Fournier, um proprietário de Limoges que deixou a sua fortuna à cidade. As fachadas, os telhados e a fonte estão protegidas a título de monumentos históricos desde 1975. Mais de um século depois da inauguração, o conjunto continuava a ser um dos principais marcos do património local.

É precisamente essa continuidade histórica que Valter Fernandes sublinha ao recordar que o edifício atravessou as duas guerras mundiais. “O facto de este edifício ter atravessado duas guerras mundiais sem ter sido atingido desta forma torna o incêndio ainda mais impressionante e difícil de aceitar”, considera.

Para o radialista, o valor do monumento vai além das suas funções administrativas. “É um dos monumentos emblemáticos de Limoges, um símbolo da cidade, da sua história e da sua identidade. Faz parte da paisagem e da memória coletiva de várias gerações”.

Nas reações que tem acompanhado desde o incêndio, identifica sobretudo “surpresa, tristeza e incompreensão”. Na sua perspetiva, a ligação ao edifício estende-se também aos portugueses e lusodescendentes que fizeram de Limoges a sua casa.

“Penso que, para muitos portugueses e lusodescendentes que vivem em Limoges há muitos anos, este edifício também faz parte da sua própria história. Muitos construíram aqui a sua vida, criaram as suas famílias e acompanharam a evolução da cidade”, explica. “Quando um símbolo da cidade é atingido, é também uma parte da memória e da história de todos nós que parece ser afetada”.

Um apelo à união entre os habitantes

Perante a destruição, Valter Fernandes espera agora que a cidade consiga preservar o seu património e ultrapassar este episódio. A solidariedade entre os habitantes ocupa um lugar central nessa resposta.

“Acima de tudo, espero que este acontecimento possa também reforçar a união entre os habitantes, independentemente das suas origens, porque Limoges é feita por todos aqueles que aqui vivem e que contribuem diariamente para a sua história”, afirma ao LusoJornal.

No domingo, 18 de outubro, essa solidariedade levou habitantes e autarcas à praça da República, num encontro seguido de uma marcha simbólica até ao Hôtel de Ville. Segundo a autarquia, a iniciativa reuniu representantes de Limoges e dos municípios da metrópole, além de outros eleitos, para expressar o seu apoio à cidade e o apego ao edifício atingido pelo incêndio. Em torno do monumento danificado, os participantes reafirmaram a ligação a um património que pertence à história comum dos habitantes.

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