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Cultura

 

“Les Diables d’Ourém”, romance histórico da brasileira Maria Luiza Tucci Carneiro, acaba de chegar ao público francês, editado pela L’Harmattan. Tucci Carneiro é professora de História na Universidade de São Paulo e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, além de gestora da base de dados Arqshoah (Arquivos Virtuais sobre o Holocausto e o Antissemitismo).

A historiadora já recebeu por três vezes o Prémio Jabuti graças aos seus trabalhos sobre a intolerância, o Holocausto, a imigração e os direitos humanos.

Passado no século XIX, mais precisamente entre os meses de maio e setembro de 1860, “Les Diables d’Ourém” leva-nos até ao exotismo equatorial da pequena cidade de Ourém, não longe de Belém, pouco depois de “o ano da peste”, 1856, quando uma epidemia de cólera assolou a antiga província brasileira do Grão-Pará.

Esta catástrofe sanitária, numa época em que as superstições mais arreigadas se sobreponham ao nascente espirito cientifico que transformou a medicina em finais de Oitocentos, provocou um movimento de histerismo e de “possessões demoníacas” na população, que abrangeu igualmente as elites locais e a igreja que, em desespero de causa – o medo omnipresente da morte e da doença desconhecida – começaram a usar as “ciências ocultas” de índole medieval para “curar o seu rebanho”.

E Tucci Carneiro sabe do que fala. Esta especialista em Ocultismo já publicou, antes, dois livros nesta mesma editora francesa: “Citoyens du monde, le Brésil face à l’Holocauste et aux réfugiés juifs, 1933-1948” (2017) e “Dix mythes sur les Juifs” (2021).

O Diabo, ou a ideia que se tinha desta entidade nos Trópicos da época, é uma das personagens principais deste romance. A sua presença leva à utilização do exorcismo como profilaxia espiritual, quase como uma terapia médica. Ora é esta prática não recomendada pelas instâncias católicas – um espetáculo que atraía multidões em transe à pequena igreja da cidade – que coloca a Inquisição no caminho de um padre exorcista, que acaba condenado, provocando uma rutura entre a Igreja de Roma e o clero de Ourém.

É de um Brasil recuado, que vive do trabalho de africanos escravizados pela elite branca e prisioneiro das piores superstições e crendices, que este romance, rigoroso do ponto de vista histórico e fiel ao processo criminal que serve de ponto de partida para o enredo criado pela escritora/historiadora, trata.

Um livro carregado a cores e odores fortes, as da região amazónica e da presença diabólica, que aborda amores sexuais proibidos – os do inevitável protagonista português Elias de Souza Pinto e da negra Sabá ou do vigário José Maria Fernandes e de Martinha, uma jovem escravizada – e a eterna luta entre o Bem e o Mal.

Um Brasil supersticioso ao nível das mentalidades, possuído por uma religiosidade fanática, que, em última análise, ainda existe nos nossos dias.

 

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