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Cultura

 

Mário Constante já foi ator em Portugal, no Teatro Experimental do Porto, mas acabou por aterrar em Aix-en-Provence há cerca de 30 anos. Agora dirige a Escola de teatro Mimethis & Catharsis, encena espetáculos e trabalha esporadicamente em cinema, tendo participado, por exemplo, no filme “Menina” de Cristina Pinheiro. Também dirige o Festival de Teatro de Aix-La Duranne que decorreu este fim de semana.

 

Como chegou ao teatro?

Eu sou filho de um trolha, trabalhei na indústria, mas um dia disse que a indústria não servia para mim e interessei-me pelo teatro porque tanto a minha mãe como o meu pai faziam teatro amador. Inscrevi-me na Seiva Trupe, no Porto. Para mim era natural ser ator. Depois passei para o Teatro Experimental do Porto, aliás quase morria queimado quando o teatro incendiou. Tive problemas em Portugal e fui para Inglaterra. Na Inglaterra ainda fiz teatro, fiz um pouco de televisão e cinema, mas coisas muito esporádicas. A peça mais importante que fiz foi “Britânicos” de Racine.

 

Acabou por não ficar na Inglaterra…

Não. Apaixonei-me por uma francesa e vim para França há 30 anos. Comecei a trabalhar no teatro de rua, cheguei a participar no Festival de Auriac, mas como não falava francês, era complicado. Estive muito tempo sem fazer teatro porque tinha de comer… mas o bichinho do teatro continuou a chamar por mim.

 

Foi por isso que criou uma Escola de teatro?

Montei, efetivamente, uma Escola de teatro em Aix-en-Provence. Comecei por dar aulas num escritório, depois do escritório fechar, depois pedi ajuda às Mairies e hoje tenho um local e tenho 70 alunos. Agora sou conhecido em toda a região sul, vou a muitos festivais, levo espetáculos que enceno com os meus alunos.

 

Só encena espetáculos dos seus alunos?

Não, mas os meus espetáculos principais, aqueles que eu produzo, são espetáculos que enceno com os alunos que formei e que depois andam 2 ou 3 anos em digressão, passam pelos diferentes festivais em França, sobretudo nesta região, que é uma região muito grande. Por vezes vamos para mais longe, aos Alpes ou a Biarritz. Nós não temos limites.

 

E porque decidiu chamar Mimethis & Catharsis à sua Escola?

A mímica é o trabalho do corpo e é muito importante. Catarse é o que vamos meter dentro desse corpo, o sentimento, a emoção, é sempre a dualidade entre o corpo e a emoção e o sentimento. E Mário Constante escreve-se com as mesmas iniciais.

 

A Escola tem financiamentos públicos?

Não sou financiado. Não me vou queixar, mas os subsídios são muito raros e muito difíceis de obter, então financio a minha escola com as propinas dos alunos e com os espetáculos que produzimos.

 

Mas também faz encenação noutras companhias…

Sim, certos grupos convidam-me para fazer a encenação. Eu sou intermitente do espetáculo, eles pagam-me um cachet durante os dias em que eu ensaio os espetáculos, mas não faço a produção.

 

O sonho seria criar uma estrutura profissional?

No princípio sim, era esse o sonho, mas os sonhos adaptam-se com o tempo, são uma constante da vida como dizia o António Gedeão. O sonho que eu tenho é esse prazer de todos os dias ir aos ensaios, de fazer rir as pessoas. Porque não ter uma companhia profissional? Mas o que eu faço agora é levar as pessoas a ver os espetáculos, unir as pessoas e nas minhas aulas eu tanto tenho médicos como empregados na construção civil.

 

É importante essa mistura de classes?

A mistura de classes diferentes é magnífico. Eu acho que o teatro devia ser obrigatório nas escolas, tal como a matemática ou uma língua estrangeira. O teatro permite compreender o outro, aceitar o outro, comunicar com o outro e abrir o espírito ao mesmo tempo que trabalhar com o corpo. Se o teatro fosse obrigatório nas escolas, certamente havia menos problemas de gestão, de violência, de mau entendimento e de respeito pelos outros.

 

Queixa-se então que as pessoas não vão ao teatro?

Estar a queixar-me que as pessoas não vêm ao teatro não serve de nada. Isso seria baixar os braços. É necessário agir e é isto que eu faço. Eu luto para que as pessoas venham ao teatro em vez de estarem a ver a televisão ou irem ao jogo de futebol. E as pessoas que vêm fazer teatro, acabam por ir ao teatro. Por isso é que eu trabalho nas escolas, nos colégios, vou lá falar, mostrar, fazer exercícios, por vezes até gratuitamente, mas é importante esta reflexão. O teatro não é só espetáculos, é mais do que os espetáculos é também aprendermos a viver juntos.

 

E como está a sua relação com Portugal?

Os meus amigos que tiveram comigo na Seiva Trupe, no TEP ou no TUP, e outros que cruzei em Lisboa, no Teatro de Almada, de Coimbra, atores da minha geração, hoje fazem cinema, televisão e eu fico contente por eles. Quando posso, vou ao Porto ou contacto-os pela internet. No Porto costumo ir ao Teatro de São João, para continuar ao corrente do que se faz por lá. Continuo a acompanhar o que se faz em Portugal.

 

O que lhe podemos desejar?

O meu sonho mais imediato era levar um dos meus espetáculos a Portugal. Ainda escrevi para a equipa de programação de Évora, Capital europeia da cultura, mas nem me responderam! O problema é que são espetáculos em francês, é complicado. Mas o meu sonho era mesmo esse. O problema é que estou cá há 30 anos e quando chego a Portugal sou estrangeiro, mesmo se o nosso coração continua a estar lá.

 

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