Opinião: Carta aberta ao Deputado José Dias Fernandes – Quando a revolta procura um rosto


Senhor Deputado,

Escrevo-lhe como emigrante, ou talvez, mais simplesmente, como cidadão!

Não como militante de qualquer partido. Não como adversário político. Apenas como um português que vive fora do seu país há 60 anos e que nunca deixou de acreditar que a Diáspora faz parte da Nação. Senhor Deputado, é essa a sua luta e é essa também a minha luta: como vê partilhamos um ponto comum.

Tenho setenta e dois anos.

Vivi o 25 de Abril com a esperança ingénua de que Portugal passaria finalmente a olhar para os seus emigrantes como cidadãos de pleno direito: Rapidamente compreendi que estava enganado.

Durante cinquenta anos, governos de esquerda ou de direita apenas se lembraram de nós quando era tempo de atrair investimento, inaugurar, aqui e ali, uma associação portuguesa ou pedir o nosso voto. Depois, regressava o silêncio. O folclore habitual.

Continuamos a representar milhões de portugueses espalhados pelo mundo. A nossa emigração é uma das maiores do nosso Planeta.

Continuamos a eleger apenas quatro Deputados, continuamos a ser tratados como portugueses de segunda.

Por isso compreendo que exista revolta! Senhor Deputado, isso revolta-o… e a mim também!

E compreendo também que essa revolta tenha encontrado no Chega uma voz que os restantes partidos sempre recusaram ouvir.

Seria intelectualmente desonesto negar essa evidência.

Quando o seu partido organiza encontros com emigrantes, faz aquilo que durante demasiado tempo outros deixaram de fazer: escutar.

Soube também que, em breve, abrirá as portas da sua casa para receber emigrantes num almoço organizado por si. Confesso que achei esse gesto digno de nota: li a notícia neste Jornal e acho programa excelente: parabéns!

Um Deputado que recebe em sua casa aqueles que representa transmite uma imagem de proximidade que merece ser reconhecida e respeitada!

Mas essa iniciativa suscita-me uma pergunta simples: Será que à sua mesa têm lugar apenas os emigrantes que partilham as ideias do Chega?

Ou haveria também um lugar para um emigrante como eu, que pensa de forma diferente, mas acredita que o diálogo entre portugueses nunca deve depender das convicções políticas de cada um?

Se essa porta estiver aberta a todos, talvez seja esse o mais belo sinal de que a representação política pode estar acima das diferenças partidárias.

É precisamente por reconhecer esse mérito que lhe quero colocar algumas perguntas.

A primeira é talvez a mais importante.

Será possível defender a dignidade dos emigrantes e, ao mesmo tempo, aceitar um discurso político que tantas vezes transforma outros seres humanos em suspeitos apenas por serem estrangeiros?

Nós, emigrantes portugueses, conhecemos demasiado bem o que significa ser olhado com desconfiança.

Conhecemos o peso do preconceito: cá e lá – acabamos por ser estrangeiros nos países onde residimos e estrangeiros no nosso próprio País, enfim… uma espécie de apátridas sem cá nem lá: somos os filhos de “qualquer lugar”.

Conhecemos o que é ouvir que “vieram tirar empregos”.

Conhecemos o silêncio humilhante da discriminação.

Como podemos esquecer a nossa própria história quando olhamos para quem hoje chega à Europa à procura da mesma esperança que um dia procurámos?

Outra pergunta.

Pode um partido combater a exclusão dos emigrantes portugueses enquanto alimenta a exclusão de outras minorias?

Claro: somos considerados “minorias” cá e lá.

Os direitos humanos dividem-se? Ou existem para todos?

Pergunto-lhe ainda outra coisa.

Quando o Chega fala de identidade nacional, de que identidade está a falar?

Da identidade fechada sobre si própria? No tempo da outra Senhora era; “orgulhosamente sós”. Ou daquela identidade portuguesa que nasceu precisamente da mistura, da viagem, da descoberta e do encontro com outros povos? Portugal sempre foi, desde há séculos o País das Descobertas, Portugal nunca foi uma muralha: sempre foi uma estrada aberta sem direitos de portagem.

E há finalmente uma pergunta que considero essencial.

Se amanhã a Diáspora conquistar o respeito político que merece, continuará o Chega a precisar da revolta dos emigrantes? Ou ajudará a construir uma política que una os portugueses em vez de os dividir?

Senhor Deputado,

Não lhe escrevo para o convencer a abandonar o partido que escolheu, mesmo se já pensou nessa hipótese.

Também não espero que concorde comigo.

Escrevo-lhe porque acredito que a democracia vive de perguntas honestas.

Acredito igualmente que um Deputado eleito pela Diáspora representa todos os emigrantes: Também aqueles que nunca votaram ou votarão no Chega.

Eu continuarei a defender aquilo em que acredito:

– Uma Diáspora respeitada.

– Uma representação política verdadeiramente proporcional.

– O voto eletrónico.

– Mais direitos.

– Mais participação.

– Mais Portugal.

Mas recusarei sempre acreditar que a dignidade de uns exige a exclusão de outros.

Porque um emigrante que esquece a sua própria história corre o risco de negar aquilo que ele próprio foi.

Com consideração,

José Robalo

José Robalo

José Robalo

Movimento Sinergias da Diáspora

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Não perca