Opinião: O outro regresso


Fala-se muito, nesta época do ano, do regresso a Portugal dos emigrantes portugueses. As imagens repetem-se: as estradas cheias, os aeroportos movimentados, as famílias que se reencontram, as festas, as praias e as aldeias que voltam a ganhar vida. É o regresso estival, aquele que todos conhecemos.

Mas há outro regresso, muito menos falado: o momento em que esses portugueses voltam ao país onde construíram a sua vida, onde têm o trabalho, a assistência social e os cuidados de saúde, onde os seus filhos estudam e onde, muitas vezes, encontram as condições para planear o futuro.

Esse regresso raramente merece a mesma atenção.

Se é notável que, ao fim de uma, duas ou várias gerações, um português continue a não esquecer a pátria e as suas origens, também devemos refletir sobre as razões pelas quais o regresso, durante o Verão, continua a ser efémero. Porque é que, depois de algumas semanas em Portugal, chega o momento de fazer novamente as malas e regressar ao país onde a vida está organizada?

A resposta não pode ser apenas sentimental. Portugal precisa de crescer economicamente e de criar condições para que o mérito seja devidamente reconhecido, quer para quem trabalha, quer para quem investe. Precisa de oferecer oportunidades, estabilidade e perspetivas de futuro capazes de competir com aquilo que muitos portugueses encontraram no estrangeiro.

É particularmente preocupante observar uma comunicação social que, muitas vezes, privilegia temas superficiais e dedica uma atenção desproporcionada a determinadas questões, esquecendo, por vezes, os interesses concretos de Portugal. E essa atenção deveria também considerar a importância estratégica das Comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

Os portugueses residentes no estrangeiro continuam, em muitos casos, a sentir que Portugal não lhes consegue garantir o mesmo futuro que encontraram nos países onde vivem. E é precisamente por isso que o regresso se torna doloroso.

É difícil afastarmo-nos das nossas raízes. É difícil deixar a família, os amigos, as paisagens da infância, os lugares que fazem parte da nossa identidade. É difícil, como costumo dizer, afastarmo-nos até do galo da nossa igreja.

O problema é que o afeto por Portugal não chega para construir um futuro em Portugal.

O país precisa das reformas que estão a ser implementadas na economia, na administração pública, na justiça, na educação, na saúde e em muitos outros sectores no sentido de os preparar para dar resposta a uma realidade profundamente diferente daquela que existia há algumas décadas.

Por isso, a coragem do atual Primeiro-Ministro deve ser reconhecida quando procura avançar com reformas, tanto mais que não dispõe sequer de uma maioria parlamentar que lhe permita governar com a tranquilidade de quem tem garantido o apoio político necessário para levar a cabo as suas políticas.

É precisamente aqui que os dois regressos se encontram.

As reformas de que Portugal necessita podem transformar o regresso estival num verdadeiro regresso definitivo. Podem fazer com que o português que hoje regressa ao país onde vive o faça com a expectativa de que, num futuro próximo, poderá regressar definitivamente a Portugal.

Esse é, afinal, o outro regresso.

Não o regresso das férias, das fotografias e das saudades, mas o regresso à vida. O regresso à terra onde estão as nossas raízes, onde estão os nossos antepassados e onde gostaríamos, um dia, de poder construir novamente o nosso futuro.

Portugal não deve limitar-se a receber os seus emigrantes durante algumas semanas por ano. Deve criar as condições para que eles possam voltar. E é isso que, acredito, está agora a ser feito.

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Carlos Gonçalves,
Deputado (PSD) eleito pelo círculo eleitoral da Europa

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