Treze anos depois do sucesso de “A Gaiola Dourada”, Ruben Alves volta a colocar Portugal no centro de uma das suas histórias. O realizador franco-português estreia esta quinta-feira, 10 de setembro, “Santo António – O Casamenteiro de Lisboa”, uma comédia inspirada nos tradicionais Casamentos de Santo António.
Desta vez, é Lisboa e a sua identidade que servem de pano de fundo. Através de Carmo e Valentim, interpretados por Rita Blanco e Joaquim Monchique, o filme coloca frente a frente tradição e modernidade, numa cidade que Ruben Alves considera estar a mudar e onde teme que algumas das suas raízes se possam perder.
Por ocasião da estreia, Ruben Alves falou ao LusoJornal sobre este novo filme, a importância das tradições portuguesas e o reencontro com alguns dos atores de “A Gaiola Dourada”.
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Como nasceu a ideia de fazer um filme sobre os Casamentos de Santo António? Porquê escolher esta tradição como ponto de partida para esta nova história?
A ideia surgiu através da produtora do filme (Amy Fortes), que veio ter comigo há alguns anos e disse me : “Ruben, eu não te conheço, mas acho que dava um filme maravilhoso fazer algo sobre os Casamentos de Santo António. Acho que tu eras a pessoa ideal para fazer isso.”
Ela queria também apresentar-me um amigo, Fernando Pérez, um grande guionista espanhol, que também se tinha apaixonado por esta história. Conheci então o Fernando, que é co-guionista do filme, e começámos a ter ideias. Não parávamos de imaginar personagens, situações… Até que, de repente, dissemos: “Realmente, acho que isto dava um filme.”
Depois, mergulhámos mesmo no universo dos Casamentos de Santo António, aqui em Lisboa, e percebemos que era através dos dois casamenteiros que podíamos contar uma história bonita. Eles estão a lutar por uma coisa que já é um pouco old school, vintage, mas que querem modernizar.
E, através da luta destas duas personagens, podemos falar de várias coisas que estão a acontecer hoje em dia: da globalização deste mundo, da perda de identidade, da solidão cada vez maior das pessoas… São temas que estão todos presentes no filme.
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A minha próxima pergunta era precisamente sobre isso. Há este confronto entre uma tradição antiga e a vontade de a modernizar. É também uma forma de falar sobre o Portugal de hoje, entre tradição e modernidade?
Sim, é o que se está a passar hoje em dia. Neste caso, em Lisboa, mas pode ser no Porto ou em qualquer outro sítio. São cidades que estão a mudar, a modernizar-se, e, de repente, as pessoas começam a ter receio de que a essência de uma cidade desapareça.
À nossa volta, vemos, por exemplo, tascas a fechar, está tudo cada vez mais caro e começam a aparecer cada vez mais coisas direcionadas pelos estrangeiros ou marcas que vemos em todo o lado do mundo. Há uma uniformização e isso mete medo.
Acho que a essência de cada cidade é valiosa e não podemos perdê-la. Através deste filme, queria falar sobre isso também. É dever de cada um de nós salvaguardar a identidade de um povo. Se deixarmos as coisas avançarem como estão a avançar, sem fazer nada, daqui a alguns anos vamos olhar para trás e dizer: “Too late”. Já é muito tarde, já está tudo igual. Acho que está na consciência de cada um de nós.
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Sente que algumas tradições portuguesas se estão a perder?
Claramente. Sinto que se está a perder um pouco a essência. Por exemplo, em Lisboa, temos o fado, que é uma coisa nossa, portuguesa, uma tradição musical de Portugal.
Sempre houve casas de fado, com uma essência verdadeiramente portuguesa. Hoje em dia, vejo cada vez mais sítios onde está tudo escrito em inglês e depois aparece: “Fado tonight”. Não, não, não. Já se tornou quase um comércio. As casas de fado têm regras, têm uma história. Os mais novos vão lá observar os mais velhos, perceber como se deve falar, como se deve cantar… Há regras e é uma coisa muito bonita. E, de repente, vemos agora sítios a anunciar “Fado tonight”, em inglês, e nem sabemos o que está a tocar lá dentro. Isso realmente assusta-me.
Acho que, por exemplo, no Norte do país, talvez as tradições estejam mais salvaguardadas. Sinto que as pessoas são mais intensas, mais ferrenhas na defesa daquilo que é delas, e acho isso ótimo.
Os mercados, as peixeiras, a senhora das sete saias da Nazaré… Tudo isso faz parte da nossa identidade e vemos que está, pouco a pouco, a desaparecer.
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Neste filme, foi também buscar alguns dos protagonistas de ‘A Gaiola Dourada’, que estreou há treze anos. Como foi voltar a trabalhar com estes atores?
Foi maravilhoso, porque quando já conhecemos os atores ganhamos imenso tempo. Com a Rita Blanco, por exemplo, já nem preciso falar, percebemo-nos só com um olhar. Com a Jacqueline também é mais ou menos igual, e o Joaquim de Almeida também já me conhece.
Isso é um conforto muito grande, sobretudo porque havia muitos atores neste filme, era muita, muita coisa. Pelo menos, esta parte era mais confortável para mim, porque já tínhamos uma ligação e uma cumplicidade, e isso é muito bom.
Há também um certo carinho em voltar a trabalhar com pessoas com quem já trabalhei, ainda por cima porque tivemos uma história muito bonita. Viajámos muito pelo mundo com A Gaiola Dourada e criámos ali uma ligação, uma relação que é para a vida. Por isso, foi muito bom e muito confortável.
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Estávamos a falar do enorme sucesso de A Gaiola Dourada, nomeadamente em França. Será que vamos poder ver também Santo António – O Casamenteiro de Lisboa nos cinemas franceses?
Por enquanto, não está previsto. É uma produção portuguesa e este filme era, inicialmente, para estar na Disney, porque foi um convite da Disney para eu fazer o primeiro projeto português da Disney.
Depois, chegámos a um acordo para que o filme estreasse primeiro nos cinemas, porque acho que era importante as pessoas viverem este filme no cinema. Por isso, estreia primeiro em Portugal.
Agora, para o estrangeiro, ainda não temos certezas. O que tenho a certeza é que depois vai para a Disney, para a plataforma de streaming, e estará disponível em todo o mundo. Agora, se vai haver uma estreia nos cinemas em França, ainda não sei.
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Teve a oportunidade de trabalhar tanto em França como em Portugal na realização de filmes. Trabalha-se da mesma maneira nos dois países ou sente diferenças ?
Não se trabalha da mesma maneira. Em França, tudo é mais organizado, entre aspas. Na minha área, no cinema, felizmente temos mais apoio, temos mais dinheiro, mais budget para conseguir criar as coisas. Claro que também depende dos projetos.
Isso permite-nos ter mais preparação antes das filmagens e, consequentemente, um maior conforto de trabalho. Tudo custa dinheiro. Quanto mais tempo temos para preparar, mais pessoas estão envolvidas e tudo isso tem um custo.
Aqui em Portugal foi um bocadinho: “Amanhã ou depois a gente resolve.” É muito assim. Temos um problema, mas depois vemos como é que se resolve. Vai tudo muito até à última hora e a verdade é que, no final, resolve-se. Essa também é a magia de Portugal e dos Portugueses, aquele famoso desenrasque português.
Mas, para um realizador, é muito desconfortável, porque nunca sabemos o que vai acontecer. De vez em quando pode ser engraçado. De repente, pensamos: “Conseguimos! Oh my God, como é que fizemos isto?” Porque há realmente essa capacidade de desenrascar. Mas há momentos em que é bastante angustiante, porque falta muita antecipação e falta resolver os problemas com antecedência. Essa é, para mim, a grande diferença.
Também diria que, em Portugal, talvez o emocional está mais presente no trabalho, enquanto que em França somos mais racionais. Não colocamos tanto o emocional no meio do trabalho. Em França, o emocional vem no final do dia, quando podemos falar sobre aquilo que aconteceu. Durante as filmagens, não estamos tão preocupados com o lado emocional de cada um.
Isso é tipicamente português. Mas também não podemos querer ter apenas a parte boa da emoção, que é muito bonita, sem ter o outro lado. No trabalho, às vezes, pode tornar-se um pouco confuso. Pode ser bonito, mas também pode ser um pouco confuso.
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Depois do grande sucesso de A Gaiola Dourada, nomeadamente junto das comunidades portuguesas em França, realizou também Miss e agora chega este novo filme. Já está a pensar nos próximos projetos?
Pensar, estou sempre a pensar. Tenho várias coisas na caixa, digamos assim. Há sempre vários projetos, coisas que desenvolvi, coisas que já escrevi e que, por uma razão ou por outra, não avançaram na altura e às quais posso voltar.
Há novos projetos, há pessoas que me procuram, produtores com quem tenho vontade de trabalhar e também plataformas que querem trabalhar comigo. Há muitas coisas. Agora é só decidir.
Eu, quando começo um projeto, preciso de acabar realmente aquilo que estou a fazer. Não consigo estar a trabalhar noutra coisa enquanto este projeto não estiver terminado.
O filme estreia hoje em Portugal, com uma estreia nacional em mais de 50 salas de cinema, e espero que as pessoas vão vê-lo ao cinema. Depois disso, aí sim, vou iniciar outro projeto. Já há coisas pensadas, obviamente. Agora é perceber para que mundo quero ir e qual será a próxima história.







