Saúde : O Coração nas mulheres


As doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morte entre as mulheres em Portugal e no mundo, superando frequentemente todos os tipos de cancro, nomeadamente o cancro da mama.

A consciencialização é a melhor arma. Incentivar as leitoras a vigiarem a tensão arterial, o colesterol e a glicemia, bem como a adotarem um estilo de vida ativo e uma dieta equilibrada, é vital. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da saúde do coração.

É um mito comum associar estas patologias apenas ao sexo masculino. Durante décadas, a investigação médica focou-se no perfil masculino, criando o estereótipo do homem de meia-idade com enfarte. Além disso, as mulheres costumam desenvolver estas patologias cerca de 10 anos mais tarde do que os homens, o que mascarou a dimensão do problema.

Os principais problemas cardiovasculares nas mulheres

Os principais problemas cardiovasculares nas mulheres são: a doença arterial coronária (incluindo angina de peito e enfarte do miocárdio), Acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca (especialmente com fração de ejeção preservada), Hipertensão arterial (que é muito comum e um importante fator de risco para enfarte, AVC e insuficiência cardíaca), arritmias como a fibrilação auricular (pode causar palpitações e aumentar o risco de AVC), doenças das válvulas cardíacas, Doenças relacionadas com a gravidez como a pré-eclâmpsia/hipertensão arterial da gravidez, diabetes gestacional, a disfunção microvascular (nas artérias microscópicas) e a síndrome de Tako-Tsubo (“síndrome do coração partido”).

O risco dispara a partir da menopausa (48-52 anos), quando a queda drástica do estrogénio retira a proteção natural que esta hormona conferia à elasticidade das artérias e ao perfil de colesterol, causando alterações do colesterol, aumento da gordura abdominal, resistência à insulina e alterações da regulação autonómica e da frequência cardíaca.

Dor ou aperto no peito, falta de ar inexplicável, fadiga extrema de aparecimento súbito, tonturas, náuseas/suores frios e dor que irradia para a mandíbula, pescoço, costas ou estômago, deve fazer a mulher suspeitar de um problema cardíaco.

Sintomas de enfarte são diferentes nas mulheres e nos homens

Embora a dor no peito ocorra em ambos, as mulheres apresentam com mais frequência sintomas “atípicos” como náuseas, indigestão, dor intensa nas costas ou mandíbula e falta de ar sem dor no peito óbvia, cansaço extremo, tonturas ou desconforto no peito/estômago.

Os sintomas atípicos são muitas vezes confundidos com ansiedade, stress ou problemas gástricos, o que leva a atrasos no diagnóstico, menos exames e tratamentos menos agressivos na urgência e pior prognóstico.

Nos últimos anos percebemos que a avaliação cardiovascular na mulher não deve olhar apenas para os fatores de risco clássicos, como a hipertensão arterial, o colesterol elevado, obesidade, tabagismo, diabetes e stress crónico. A história obstétrica como complicações da gravidez, a menopausa, a insuficiência ovárica prematura e a síndrome dos ovários poliquísticos (SOP) também são importantes para determinar o risco cardiovascular. A SOP pode estar associada a maior risco cardiovascular através da hipertensão, diabetes/resistência à insulina, alterações do colesterol e excesso de peso/obesidade.

O que mudou na avaliação do risco cardiovascular na mulher foi a inclusão de fatores específicos do sexo feminino: histórico de complicações na gravidez, idade da menopausa, uso de contracetivos/Terapêutica hormonal de substituição e a maior prevalência de doenças autoimunes (que aumentam a inflamação vascular).

A gravidez como uma espécie de “teste de esforço” para o coração

Condições como pré-eclampsia, hipertensão gestacional ou diabetes gestacional, abortos de repetição, parto prematuro e bebé pequeno para a idade gestacional revelam uma vulnerabilidade vascular subjacente e multiplicam o risco de doença cardíaca no futuro.

A Terapêutica Hormonal da Menopausa (THM não deve ser usada para proteger o coração. Se iniciada na “janela de oportunidade” (primeiros 10 anos pós-menopausa e antes dos 60 anos) para tratar sintomas térmicos, é segura. Iniciada mais tarde, aumenta o risco de trombose e AVC.

Plano de Ação por Década

– Aos 30 anos: Conheça os seus valores base de pressão arterial, glicémia e colesterol. Se teve complicações na gravidez, informe o seu médico e adote já um padrão alimentar mediterrânico e rotina de exercício.

– Aos 40 anos: Monitorize a pressão arterial e o perfil lipídico com rigor. Foque-se na gestão do stress e do sono, e no rastreio precoce de sinais de peri-menopausa.

– Aos 50 anos: Avalie o impacto vascular da menopausa. Mantenha o treino de força (crucial para o metabolismo e vasos sanguíneos) e discuta com o médico a necessidade de exames de estratificação de risco avançados

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Dra. Graça Caires

Cardiologista

Assistente hospitalar Sénior de Cardiologia do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM- EPERAM)

Vogal da Direção da Sociedade Portuguesa de Cardiologia

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