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O historiador Victor Pereira, da Universidade de Pau, que trabalhou essencialmente sobre o exílio e sobre a emigração para França na segunda metade do século XX, diz que quer trabalhar agora sobre a emigração dos anos 20 e 30.

Numa “entrevista-live” ao LusoJornal conduzida por Isabelle Simões Marques, Vítor Pereira explica que a emigração para França começou com a I Guerra mundial, quando era necessária mão de obra para as fábricas francesas, porque os homens combatiam na linha da frente. “Nessa altura vieram para França 15 a 20.000 Portugueses para a região de Lyon, para o Centro da França, Paris, mas também Rouen”.

Para os historiadores, já nessa altura os Franceses tinham “ideias fixas” para o recrutamento. “Diziam que era melhor não recrutar pessoas em Lisboa, porque em Lisboa o povo é irrequieto, revolucionário, sindicalizado e isso não era propriamente o que eles queriam. Eles queriam uma mão de obra dócil, que encontravam nas regiões do Porto e de Tomar” disse ao LusoJornal.

Depois da I Guerra mundial 75.000 Portugueses emigraram para França. “Alguns tinham um passaporte, outros passam pelos Pirenéus e essa já era uma emigração do norte de Portugal, da zona de Leiria, também do Algarve. Poucos eram Alentejanos. Eram pessoas que muitas vezes não sabiam ler, nem escrever, uma população em grande maioria homens (85%), que por vezes conseguem fazer vir a mulher ou a família, mas muito raramente”.

“Em 1931, a França tem graves problemas económicos e mais de metade dos Portugueses são expulsos pelas autoridades francesas. Nessa altura, um qualquer pequeno crime, roubo de carvão por exemplo, podia ser traduzido em expulsão. Em poucos meses, mais de metade dos Portugueses são enviados para Portugal” afirma Victor Pereira. “Falta saber o que aconteceu a estes milhares de Portugueses que voltaram para Portugal. Qual foi a influência que essa gente teve por ter passado uns 10 anos em França?” é o que o historiador pretende estudar nos próximos anos.

 

A evolução da forma como se tratam os Portugueses do estrangeiro

Interrogado por Isabelle Simões Marques, Victor Pereira falou do título “provocador” que deu um dia a um artigo para o livro “Como se faz um povo” em que evocou o “despovoamento” do país. “Eu mostrei como, desde as Grandes Descobertas, uma das críticas em Portugal é que as pessoas saíam de Portugal e já não havia ninguém para trabalhar nas aldeias, para trabalhar nos campos. Isto aconteceu já desde esse período do século XVII. Já nessa altura havia um discurso anti-emigração em Portugal, que depois voltou no século XIX e durante o Estado Novo – que foi o período que eu mais estudei – e isso tem muitas consequências porque as pessoas não podiam emigrar, não podiam deixar o país, porque havia essa ideia que era mau e o objetivo do Estado era povoar e manter o povoamento”.

A forma como o Estado português se refere aos Portugueses que residem no estrangeiro foi variando durante os anos. “O termo Comunidades portuguesas é muito recente. Quando fui investigar sobre os Portugueses em França durante a I Guerra mundial, nas pastas, nos arquivos deles, apenas estava escrito Operários portugueses” diz Victor Pereira.

“Nos anos 20 e 30, quando se falava dos Portugueses que estavam fora falava-se de Colónias. Por exemplo a Colónia em França. O termo Comunidades apareceu nos anos 50 e 60 porque durante o Estado Novo, Portugal já não utilizava a palavra Colónia. Ainda utilizou o termo de Ultramar e depois o termo Comunidades, dentro do Império mas também fora do Império. E foi uma palavra que sobreviveu ao 25 de Abril. A partir de 1977 o Dia de Portugal, antigo Dia da Raça, passou a ser o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas e esse termo foi ficando até aos nossos dias”.

Mas Victor Pereira diz que do ponto de vista sociológico “este termo não é fácil” e explica que “o termo Comunidades é mostrado como um conjunto de pessoas que têm características comuns e têm uma identidade, enquanto nós sabemos que os Portugueses que vivem no estrangeiro nem sempre são assim tão homogéneos. É muito difícil falar de uma Comunidade portuguesa em França porque a forma como os Portugueses estão inseridos em Clermont-Ferrand, em Pau, em Paris, têm histórias diferentes, há coisas relacionadas com o sítio para onde foram trabalhar, onde foram viver, se viveram em bairros de lata ou não, o que quer dizer que o termo Comunidades é um termo político. É muito fácil dizer que há uma Comunidade portuguesa em França, que é unida, mas de facto, na realidade, as coisas não são assim tão simples”.

Por outro lado, o termo Diáspora está mais na moda. “O filósofo português Eduardo Lourenço tinha recusado o uso deste termo, porque dizia que está ligado à diáspora dos judeus” diz Victor Pereira, que explica que está relacionado com um povo sem terra. “Portugal é um país, tem um território, os Portugueses moram lá fora, mas podem voltar”. No entanto, diz que “pela sociologia e pela história, as diásporas são um povo, uma população, que tem uma ligação em vários territórios”.

 

A história de Portugal surgiu por acaso

Nada no percurso académico de Victor Pereira deixava prever que fosse estudar a história de Portugal. O nome é português, apesar de ter nascido em França, os pais são Portugueses, mas queria estudar história medieval, “porque eu gostava muito, mas era impossível porque os arquivos foram destruídos, o que acontece muitas vezes” confessa ao LusoJornal. Trabalhou então sobre o exílio português em França nos anos 50 e 60 “porque a minha família não tem nada a ver com isso e eu queria estudar qualquer coisa ligada a Portugal, mas que não fosse ligada à minha família”.

Depois, foi o “acaso” que fez as coisas. Recebeu uma convocatória para o serviço militar e intrigou-o “o poder de um Estado sobre os seus cidadãos que vivem no estrangeiro”. Entre 1957 e 1974 cerca de 900.000 pessoas saíram de Portugal para virem para França e isso levou Victor Pereira a interrogar-se sobre “a razão das pessoas emigraram de forma irregular, clandestina, como se via nas fotografias do Gérald Bloncourt”.

Na entrevista ao LusoJornal, Victor Pereira falou também de desporto, porque participou num estudo sobre a relação entre Comunidades e futebol. Durante alguns anos interessou-se pelos muitos clubes de futebol portugueses em França. “Muito antes do Cristiano Ronaldo e da vitória de Portugal no Europeu de 2016” diz a sorrir.

“Ainda recentemente o Presidente Macron falou de separatismo e de comunitarismo. Um dos problemas, do ponto de vista científico, é que nunca se define o que é o comunitarismo no desporto” diz o historiador. “Ora, os Portugueses são os imigrantes que mais têm clubes com o nome Portugal, Português, Lusitanos… alguns clubes são argelinos, turcos, mas muito poucos. No caso dos Portugueses, eles nunca tiveram problemas, nunca se aponta o dedo aos Portugueses” mesmo se nos anos 80, Victor Pereira encontrou referências à violência dos clubes e dos adeptos portugueses, nos arquivos da Polícia.

Victor Pereira diz que “uma das formas de se manifestar a sua ligação com Portugal é o apoio à Seleção nacional” e considera que “o futebol não é apenas um desporto, é uma forma de identificação”.

Mas comenta que “quando há jogos da Argélia ou de Marrocos, se os milhares de Argelinos ou Marroquinos e os filhos deles festejarem, há logo muitos artigos, muitos debates por eles estarem a festejar a vitória da Argélia ou de Marrocos, dizendo que deviam festejar a vitória da França. Mas quando os filhos e os netos dos Portugueses festejam a vitória de Portugal, não há debate. Eu acho muito bem que não haja debate, só acho que também não devia haver debate quando há festejos de outras origens” disse ao LusoJornal.

 

 

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