
Quantos soldados portugueses do Corpo Expedicionário Português (CEP) terão permanecido em França após o fim da I Guerra Mundial? Por vezes é citado o número de cerca de 2.000 homens, embora estudos ainda estejam em curso para tentar aproximar-se o mais possível da realidade.
Entre os que ficaram em terras francesas, a grande maioria terá permanecido por razões afetivas: apaixonaram-se, casaram e constituíram família em França.
É o caso de João Cardoso, que casou em Richebourg a 21 de agosto de 1920. Existem, porém, situações de membros do CEP que, apesar de casados em Portugal, voltaram a constituir família em França sem que surjam indícios de divórcio em Portugal.
O casamento de João Cardoso é precisamente um desses casos que suscitam dúvidas. Como pôde casar em França, estando já casado em Portugal?
Na realidade, o nome completo do combatente era João Marques Cardoso, e não apenas João Cardoso. Nasceu na freguesia de Santos-o-Velho, em Lisboa, a 2 de abril de 1885 – indicação presente no ato de casamento francês -, sendo referido na ficha do CEP como pertencente ao 4º bairro de Lisboa. Era filho de José Marques Cardoso, relojoeiro nascido na freguesia de São Paulo (Lisboa) e de Maria da Encarnação Batista Cardoso, nascida em Aguiar da Beira. Encontrava-se casado com Laura Ferreira e residia, no momento do embarque, na Rua do Ouro nº165, em Lisboa.

O percurso militar em França
João Marques Cardoso embarcou para França a partir de Lisboa a 27 de maio de 1917. Integrava a 6ª Brigada, 1º Batalhão, Regimento de Infantaria nº 1, com a patente de Cabo.
A 8 de agosto de 1917 foi hospitalizado e, a 13 do mesmo mês, considerado apto apenas para serviços auxiliares. Em dezembro foi colocado no Quartel-General da 2ª Divisão e posteriormente no D.A.C. (Depósito ou Delegação Administrativa do Corpo), onde realizou diversas missões de escolta de presos.
Foi várias vezes punido disciplinarmente. A 23 de dezembro de 1918, juntamente com quatro guardas, foi castigado por faltar a uma refeição e à parada das guardas. Em fevereiro de 1919 apresentou-se na delegação de Paris após ter obtido licença.
Recebeu nova licença a 18 de abril de 1919, mas excedeu o tempo autorizado sem justificação, sendo punido com oito dias de detenção. A 6 de maio de 1919 ausentou-se sem autorização, sendo declarado desertor a 8 de maio. A 1 de junho foi novamente punido com 30 dias de prisão disciplinar por ter recebido, a 23 de abril, guia de marcha para acompanhar um preso até Ambleteuse, mas ter alterado o itinerário, deslocando-se até Paris e passando por Béthune, apresentando-se apenas a 2 de maio no Depósito Administrativo do Corpo.

Casamento e vida familiar em França
João Marques Cardoso nunca regressou a Portugal. Casou a 21 de agosto de 1920, em Richebourg, com Louise Victorine Joseph Leclercq, nascida a 20 de agosto de 1898.
No ato de casamento, a esposa surge identificada como cultivadora e o marido como carpinteiro. João Marques Cardoso teve como testemunha de casamento o amigo português Acácio César Carrapatinha, então com 25 anos, natural de Ourique e pertencente ao grupo da Companhia de Saúde do CEP – identificado como membro da Cruz Vermelha no próprio ato matrimonial.
O casal teve dois filhos: Emilienne, nascida em 1920, e Edgar Émile, nascido em 1922. A família residiu na Rue du Moulin, onde aparece registada nos recenseamentos entre 1926 e 1946.
Segundo a legislação da época, a esposa adquire a nacionalidade do marido, perdendo a nacionalidade francesa para se tornar portuguesa, situação que também se aplicaria aos filhos, no recenseamento de 1926 todos os quatro estão declarados como portugueses. Contudo, nos recenseamentos entre 1931 e 1946 apenas João Marques Cardoso surge identificado como português e o resto da família como francesa.
No recenseamento de 1926, João Cardoso declarou exercer a profissão de jornaleiro. A partir de 1931, surge mencionado como “sabotier”, ou seja, fabricante de tamancos.

Novas descobertas documentais
João Cardoso, declarado no casamento ter nascido em 1985 e ter sido simples Cabo pelo CEP, coloca dúvidas.
Ao aprofundarmos a investigação, surgiram novos elementos relevantes. João Cardoso aparece declarado no contrato de casamento como tendo nascido a 2 de abril de 1885, verificação feita nos registos na Torre do Tombo permitiu, confirmar que foi batizado a 20 de abril de 1895, tendo efetivamente nascido a 2 de abril desse mesmo ano e não em 1985
A investigação permitiu igualmente confirmar que o nome correto era João Marques Cardoso, e não simplesmente João Cardoso, como inicialmente aparecia em diversos documentos.
O percurso de João Marques Cardoso ilustra bem a complexidade das trajetórias de certos soldados portugueses após a I Guerra Mundial. Entre deserções, mudanças de identidade parcial, novos casamentos e integração definitiva em França, estes homens deixaram marcas simultaneamente na história militar portuguesa e na memória local francesa.
A continuação da investigação poderá ainda trazer novas descobertas aos descendentes de João “Marques” Cardoso e contribuir para um melhor conhecimento dos milhares de soldados portugueses que escolheram, ou foram levados pelas circunstâncias, a permanecer em França após o conflito.






