O Mundial’26 conta com um número recorde de oito jogadores com pelo menos 40 anos – mais do que todos os torneios anteriores juntos.
Atualmente a idade cronológica não constitui o principal determinante do desempenho atlético. O que mudou foi o entendimento sobre os fatores que permitem prolongar a carreira e devem ser otimizados neste contexto. Falamos da importância da monitorização da carga de treino, da nutrição desportiva, de uma recuperação mais eficiente (com especial importância sobre o sono) e da prevenção de lesões.
A genética ajuda a explicar porque alguns atletas chegam mais longe, mas não explica tudo. Se fosse apenas uma questão genética, veríamos todos os indivíduos geneticamente privilegiados a ter carreiras excecionais, e isso não acontece na prática. A longevidade da carreira resulta da interação entre predisposição genética, treino, nutrição, recuperação, prevenção de lesões, saúde mental e até gestão da carreira. O impacto de todos estes fatores deve ser assim considerado.
Um atleta jovem que queira prolongar a sua carreira deve começar por encarar o corpo como um ativo que exige consistência e investimento a longo prazo. Priorizar o sono e a saúde mental, otimizar a nutrição e hidratação, monitorizar a disponibilidade energética e a carga de treino, evitar o consumo de álcool e tabaco e beneficiar de um acompanhamento integrado por equipas multidisciplinares são fatores fundamentais para preservar o rendimento e prevenir lesões. Infelizmente, este tipo de acompanhamento ainda está longe de ser acessível à maioria dos atletas em Portugal.
Hoje sabemos que o envelhecimento não é um processo uniforme nem inevitavelmente linear. Embora não consigamos impedir o envelhecimento fisiológico, conseguimos adaptar-nos a ele de forma muito mais eficaz do que no passado.
Hoje monitorizamos parâmetros que há duas ou três décadas raramente eram avaliados de forma sistemática, como a carga interna e externa de treino, a qualidade do sono, a composição corporal, a disponibilidade energética, os biomarcadores de recuperação e até alguns indicadores de saúde metabólica. Sabemos que o envelhecimento está associado a alterações progressivas da função neuromuscular, da recuperação, da capacidade aeróbia e da tolerância à carga de treino. O que mudou foi a forma como são geridas essas alterações permitindo individualizar orientações e reduzir o desgaste acumulado ao longo da carreira.
Ao mesmo tempo, os atletas mais experientes desenvolvem competências que compensam parcialmente algumas limitações fisiológicas associadas à idade, mantendo-se competitivos porque aprendem a utilizar melhor os recursos disponíveis.
Uma das maiores evoluções da Medicina Desportiva nas últimas décadas foi a passagem de uma abordagem centrada no tratamento da lesão para uma abordagem centrada na prevenção, com contributo também da Endocrinologia Desportiva nesta área. Hoje sabemos muito mais sobre os mecanismos que condicionam lesão e conseguimos identificar fatores de risco antes que surja um problema clínico. Em simultâneo, os avanços na oferta de soluções terapêuticas permitem um prognóstico bastante mais favorável especialmente em lesões diagnosticadas e tratadas precocemente.
É importante distinguir aquilo que sabemos com elevado grau de confiança para estabelecer uma recomendação daquilo que ainda está em fase de investigação com evidência pouco robusta e heterogénea. Nem todas as estratégias de recuperação utilizadas pelos atletas de elite têm o mesmo nível de evidência científica e, portanto, a popularidade de uma intervenção não é sinónimo da sua eficácia. Os atletas de elite utilizam tecnologia cada vez mais sofisticada, mas a ciência continua a mostrar que dormir bem, alimentar-se adequadamente e gerir a carga de treino têm um impacto maior do que qualquer gadget ou moda.
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Dra. Adriana de Sousa Lages
Médica Endocrinologista
Direção da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo






