De repente, o autismo parece estar em todo o lado.
Há quem fale numa “nova moda”, quem veja rótulos a mais e quem suspeite que algumas pessoas procuram no diagnóstico uma explicação conveniente para aquilo que correu mal. Outros garantem que o humor desta vez foi longe demais e que o estigma ainda é enorme. De qualquer forma, uma coisa é óbvia: a discussão reacendeu-se nos últimos dias, depois de um episódio do Extremamente Desagradável dedicado ao diagnóstico de autismo de uma figura pública.
Entre a piada fácil e o diagnóstico milagroso que vem transformar tudo, sobra a realidade. E, na consulta, é tudo muito menos espetacular e muito menos romântico.
Não me deixem mentir: o diagnóstico de perturbação do espectro do autismo no adulto é difícil. Umas vezes porque ele se mascara com outras coisas – depressão, ansiedade, burnout – e outras porque cada sintoma que vemos, na realidade, pode ter muitas explicações diferentes – uma pessoa que evita o olhar pode estar no espectro ou sofrer de ansiedade social, alguém que precisa de rotinas rígidas pode ter autismo ou uma perturbação obsessivo-compulsiva, o isolamento pode existir desde a infância ou ter surgido depois de uma depressão ou de uma psicose, e por aí fora. Os comportamentos parecem iguais. A história por detrás deles não é.
A maioria das pessoas não chega à consulta de Psiquiatria de adultos a dizer: “Acho que sou autista”. Chega por ansiedade, depressão, ataques de pânico, dificuldades de sono ou por um cansaço que já não sabe explicar. Tratamos, mas, às vezes, sobra qualquer coisa.
Sobra uma dificuldade antiga em compreender as regras implícitas das relações. Sobra a necessidade de preparar conversas, o esgotamento depois de socializar, a rigidez perante mudanças e uma sensibilidade a sons, luzes ou texturas que sempre pareceu “exagerada”. Sobra a sensação de ter passado uma vida inteira a aprender a representar.
Periodicamente surge a velha crónica do novo “estudo revelação” – um exame revolucionário que vai diagnosticar o autismo numa gota de sangue, a imagem cerebral que finalmente vai mostrar tudo ou o marcador biológico que “vai mudar a prática para sempre”. As famílias querem muito uma resposta objetiva a que se possam agarrar – naturalmente. Os doentes também. Pedem-nos certezas. E nós, profissionais, não somos imunes ao entusiasmo das novidades. Mas, no final, não existe uma análise ao sangue, à urina, uma ressonância ou um teste isolado que diga, de forma exata: “Esta pessoa é autista”.
No tratamento, a história repete-se. Não existe “o” comprimido para o autismo. E ainda bem, porque também não existe uma única forma de ser autista.
A medicação pode ser muito importante, mas tem alvos concretos e nunca segue um protocolo rígido. Tratamos a depressão, a ansiedade, as dificuldades de sono, a irritabilidade, a impulsividade, a agressividade ou os sintomas de défice de atenção. Tratamos doenças que coexistem com o autismo e sintomas que aumentam o sofrimento. Sempre a par e passo com a psicoterapia.
Uma pessoa pode precisar de regular o sono antes de conseguir trabalhar a ansiedade. Outra pode precisar de reduzir a sobrecarga sensorial, reorganizar o quotidiano ou aprender a reconhecer os seus limites. Não medicamos uma pessoa para apagar a sua forma de pensar, os seus interesses ou a sua identidade.
No fim, depois de retirarmos os rótulos fáceis, o teste milagroso, o comprimido mágico e a promessa de uma solução universal, sobra aquilo que sempre sobra na Medicina e na Saúde Mental: a relação.
Sobra um profissional disposto a não decidir tudo na primeira consulta. A ouvir sem ridicularizar e validar, mas também sem ter a pressa de querer confirmar tudo e de oferecer as respostas rápidas que o doente e a família – naturalmente – procuram.
É no tolerar a dúvida, no rever hipóteses e no conhecer a pessoa que sobra um lugar onde podemos verdadeiramente fazer a diferença. E é essa relação que se cria que pode ser verdadeiramente terapêutica.
Porque um diagnóstico não cria uma pessoa diferente. Dá um nome a uma experiência que já existia e sempre existiu.
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Dra. Maria Moreno
Médica psiquiatra
@mariamoreno.medicapsiquiatra






