Opinião: Incêndios na Gironde, em França e na Europa: uma causa coletiva que não pode esperar!


Os incêndios que este ano já devastaram extensas áreas da Gironde, no Sudoeste de França, inserem-se num padrão preocupante, que se repete por grande parte da Europa – incluindo nomeadamente incêndios graves em Espanha e em Portugal.

Estes episódios não são meros acidentes locais; são um aviso sobre a fragilidade dos nossos territórios face às alterações climáticas e a demonstração de que a proteção ambiental exige uma resposta coletiva, organizada e contínua.

As causas são convergentes: ondas de calor mais precoces e mais longas, verões secos e fenómenos meteorológicos extremos criam condições propícias à ignição e à rápida propagação do fogo.

Em Espanha e em Portugal, como na França, juntam-se práticas florestais vulneráveis – monoculturas, acumulação de biomassa e falta de mosaicos de gestão -, e a ação de negligência humana que muitas vezes – a maior parte das vezes infelizmente – desencadeia as chamas.

A crise climática amplifica e intensifica este quadro, tornando os ciclos de incêndio mais frequentes e violentos.

A resposta não pode limitar-se a operações de emergência como tem vindo a ser o caso até agora. É necessária uma mudança estrutural na gestão do território e das florestas: promover diversidade de espécies, criar corredores e faixas defensivas, executar queimadas controladas e reduzir a carga de combustível.

O ordenamento do território deve impedir urbanizações e construções em áreas de alto risco sem medidas eficazes de proteção, sobretudo nas zonas periurbanas onde os efeitos humanos e naturais se cruzam.

Esta transformação exige adesão coletiva.

As comunidades locais, em Portugal, Espanha, França e noutros países europeus, têm de assumir responsabilidades: formação, brigadas de vigilância, manutenção de faixas corta-fogo e planos de evacuação testados, reduzem riscos e salvam vidas.

A participação cívica inclui denunciar comportamentos de risco, cumprir proibições durante períodos críticos e apoiar vizinhos vulneráveis.

A educação e sensibilização são essenciais.

Incluir nos currículos escolares e nas campanhas públicas a gestão do território, a ecologia dos fogos controlados e práticas seguras em espaços naturais cria uma cultura de prevenção que perdura.

Campanhas transparentes e baseadas em evidência ajudam a substituir hábitos perigosos por rotinas de proteção.

As autarquias e Estados Europeus têm responsabilidades complementares: os municípios devem integrar a gestão do risco nos planos locais e priorizar infraestruturas de proteção: os Governos centrais têm de assegurar legislação eficaz, financiamento estável para prevenção e combate e políticas climáticas ambiciosas que ataquem as causas de fundo.

A cooperação transfronteiriça – partilha de meios, dados e boas práticas – é vital, dado que os fogos não respeitam fronteiras administrativas.

O setor privado e as ONG também têm um papel relevante: financiar projetos de restauração, aplicar tecnologias de monotorização e promover cadeias de abastecimento sustentáveis.

Do ponto de vista social, as medidas de prevenção e de recuperação devem incorporar a justiça: comunidades rurais e trabalhadores dependentes da floresta requerem apoio económico, formação e alternativas para que a transição não implique perda de meios de subsistência.

Os incêndios na Gironde, em Portugal, em Espanha e noutras regiões europeias, são um apelo urgente à ação coletiva.

Proteger as florestas e o território é proteger o clima, a economia local e a segurança das populações.

Exige compromisso diário, planeamento estratégico, investimento contínuo e uma mudança cultural que transforme a preservação do território e do nosso planeta numa prioridade partilhada.

Se quisermos evitar novas tragédias, não basta reagir: é urgente agir, mas agir já, com visão comum e a responsabilidade de todos.

Não basta lamentar as tragédias; é preciso construir, juntos, um plano de ação que transforme prevenção em prioridade e que faça da proteção das florestas um projeto único e permanente!

A todos os soldados da paz que combateram e combatem o fogo, independentemente da sua nacionalidade e religião: o meu mais profundo reconhecimento.

Obrigada por tudo quanto fazem para nos proteger, arriscando e, por vezes sacrificando as vossas próprias vidas. A coragem, a entrega e o profissionalismo de cada um de vós merecem o nosso reconhecimento e admiração eternos.

Aos que perdem tudo neste flagelo, transmito a minha mais sincera solidariedade – muitas famílias viram arrancar-lhes, em poucos instantes, anos de trabalho e sacrifício. Que a comunidade se una para ajudar a reconstruir vidas e dar-lhes apoio imediato e duradouro.

Reconheço e celebro igualmente a onda de solidariedade de tantos e tantos cidadãos anónimos, organizações e instituições – gestos que nos enchem de esperança e provam que um mundo melhor é possivel, como tão bem nos inspira a encíclica «Magnifica Humanidade», do Papa Leão XIV.

Que essa esperança se traduza em ações concretas de apoio, recuperação e prevenção.

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Isabel Barradas

Técnica Superior no Consulado-Geral de Portugal em Bordeaux

Presidente do Comité Francês Aristides de Sousa Mendes

Doutoranda em Relações Internacionais: Geopolítica e Geoeconomia

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