Senhor Deputado,
Antes de mais, agradeço-lhe a atenção e o tempo que dedicou à resposta à minha carta aberta (ler AQUI). Num tempo em que o diálogo é frequentemente substituído pelo insulto, considero sempre positivo que duas pessoas possam trocar ideias de forma pública e respeitosa, mesmo quando delas resultam profundas divergências.
Li atentamente a sua resposta (ler AQUI). Nela reconheço um homem que conhece a emigração por experiência própria, que sente orgulho em ser português e que reclama, com convicção, um maior respeito pela diáspora.
Nesse ponto estamos de acordo. Os portugueses espalhados pelo mundo merecem ser tratados como cidadãos de pleno direito e não apenas lembrados em períodos eleitorais. O Senhor Deputado sabe-o tão bem quanto eu, porque também conhece, por experiência própria, o que significa viver longe do país.
Partilho igualmente consigo a convicção de que o voto eletrónico deve ser seriamente considerado, que a participação cívica dos emigrantes deve ser facilitada e que muitas das injustiças fiscais e administrativas que recaem sobre quem vive fora de Portugal devem ser corrigidas.
É precisamente por existirem estes pontos de convergência que continuo a lamentar aquilo que, na minha opinião, ficou por responder.
A questão que lhe coloquei nunca foi se Portugal deve ou não ter regras de imigração:
Um Estado de direito tem o dever de controlar as suas fronteiras, combater a criminalidade e exigir o respeito pelas suas leis. Ninguém de bom senso discute isso, muito menos aqueles que, como nós, emigraram. Tivemos, contudo, uma parte de emigrantes portugueses que emigraram ilegalmente. Nem tudo foi perfeito e legal como muitas vezes o dizemos… Esses emigrantes ilegais foram depois regularizados pelos países de acolhimento. Como vê Senhor Deputado… também tivemos uma parte de emigração ilegal.
A minha pergunta era outra.
Pode um Deputado representar todos os portugueses da diáspora quando o discurso do partido que representa estabelece, tantas vezes, uma fronteira moral entre “nós” e “os outros”?
Ao longo da sua resposta surgem sucessivas referências a criminosos, violadores, ladrões, vandalismo e abusos sociais associadas à imigração. Não duvido da existência desses crimes. O que questiono é a associação quase permanente entre imigração e criminalidade. Quando essa associação se torna dominante e constante no discurso político, deixa de descrever casos concretos para alimentar uma perceção coletiva. E as perceções, quando substituem os factos, tornam-se extremamente perigosas.
Os portugueses da Diáspora, como nós, conhecem bem esse risco.
Durante décadas fomos nós, emigrantes, que ouvimos dizer que roubávamos empregos, que vivíamos à custa dos sistemas sociais, que não respeitávamos os costumes locais ou que éramos responsáveis pelo aumento da insegurança. Quantos portugueses sofreram discriminação em França, na Alemanha, no Luxemburgo ou na Suíça precisamente por causa dessas generalizações?
É por conhecermos essa história que me custa aceitar que hoje recorramos aos mesmos argumentos em relação a outros povos.
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Outra passagem da sua resposta merece igualmente reflexão.
Escreve que o 25 de Abril foi uma traição aos emigrantes.
Respeito profundamente a sua interpretação da História, mas não a partilho.
Os Governos democráticos cometeram muitos erros para com a diáspora. Continuam a cometê-los. Mas foi precisamente a Democracia que permitiu aos emigrantes votar, participar na vida pública, criar associações livres, regressar sem medo e defender publicamente as suas opiniões. Podemos criticar cinquenta anos de políticas sem transformar a Democracia no problema. Abril não nos atraiçoou, foram os “políticos” que nos atraiçoaram… foram os políticos interesseiros nos próprios interesses que abandonaram Abril.
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Penso, contudo, que estaremos de acordo num ponto essencial: a diáspora continua a ser o parente pobre da Democracia portuguesa. Somos lembrados quando há eleições, quando há crises ou quando convém exibir o sucesso dos portugueses no estrangeiro. Depois voltamos ao silêncio institucional. É pena…
Talvez seja por isso que continuamos a eleger apenas quatro Deputados para representar quase dois milhões de eleitores inscritos. Este facto, por si só, deveria interpelar todas as forças políticas, sem exceção: os partidos políticos não tendo oportunidade de eleger muitos mais Deputados na Diáspora mandam para as calendas gregas esse problema. Não lhes interessa que a Diáspora tome parte dos destinos da Nação.
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Na parte final da sua resposta, escreve que não teve o privilégio de estudar Filosofia.
Permita-me uma observação. A Filosofia não pertence apenas às universidades; nasce sempre que um ser humano se interroga sobre a justiça, a liberdade, a verdade ou a dignidade humana. Nesse sentido, todos podemos ser filósofos.
Talvez seja precisamente aí que as nossas perspetivas se separam.
O Senhor Deputado entende que Portugal se fortalece afirmando prioritariamente uma identidade nacional.
Eu acredito que Portugal se fortalece quando afirma os valores que fizeram da sua História um elo de ligação entre os povos: a dignidade humana, a liberdade, a justiça e a igualdade perante a lei.
Não considero incompatível defender os direitos dos emigrantes portugueses e defender, simultaneamente, a dignidade daqueles que escolhem Portugal para viver. Uma causa justa não necessita de um inimigo para afirmar a sua legitimidade.
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Permita-me ainda uma última reflexão.
Um Deputado é naturalmente eleito por um partido, mas, uma vez eleito, representa todos os cidadãos da sua circunscrição, incluindo aqueles que nunca votariam nesse partido. Essa é uma das mais nobres exigências da Democracia representativa. Senhor Deputado, na qualidade de Deputado também me representa, mesmo que não tenha votado em si…
Foi por essa razão que lhe escrevi. Não para dialogar com um dirigente do Chega, mas com o Deputado da Emigração, representante de todos os portugueses residentes no estrangeiro, entre os quais me incluo.
Continuarei, por isso, a defender uma diáspora respeitada, escutada e plenamente participante na vida nacional. Mas continuarei também a acreditar que o respeito pelos portugueses nunca poderá ser construído à custa da desconfiança em relação aos outros.
Os portugueses da diáspora conhecem melhor do que ninguém o significado da palavra “estrangeiro”. Talvez seja por isso que tenham também a responsabilidade de recordar que firmeza e humanidade nunca foram valores incompatíveis. Portugal será sempre maior quando conseguir unir firmeza e humanidade: é necessário termos Sabedoria para compreender, Força para agir e Beleza para nunca perder a sua humanidade.
Com estima,
José Robalo






