Parece um contrassenso: estamos de férias e ficamos ansiosos? Mas faz sentido. O nosso cérebro adora rotina, mesmo quando passamos o ano inteiro a dizer que estamos fartos dela.
Quando desaparecem os horários, a escola, o trabalho e aquela estrutura que nos organiza o dia, algumas pessoas podem sentir-se perdidas ou sem referências.
Nas famílias com crianças isto nota-se ainda mais. Os miúdos ficam mais desregulados, dormem pior, há mais birras e conflitos, porque também perderam os seus pontos de referência. E os pais acabam por sentir essa desorganização em dobro.
A pressão para “aproveitar ao máximo” as férias
Porque conseguimos transformar até o descanso numa tarefa!
Passamos o ano à espera das férias para descansar e, quando elas chegam, queremos fazer tudo: praia, passeios, restaurantes, atividades, viagens…
De repente, temos uma agenda de férias mais preenchida do que a de trabalho.
E depois, a meio de agosto, perguntamos: “Mas eu estou de férias… porque é que continuo cansado?”
Porque o descanso também precisa de espaço. Não podemos transformar as férias numa competição de produtividade.
O papel das redes sociais
Temos tendência para comparar os nossos bastidores com o trailer promocional da vida dos outros.
No Instagram vemos pores do sol, cocktails, famílias felizes e crianças impecáveis. Não vemos a birra às sete da tarde, a discussão porque alguém se enganou na estrada ou o jantar que correu pessimamente.
Isso pode criar a sensação de que estamos a fazer as nossas férias mal, quando estamos apenas a comparar a nossa vida real com uma versão editada da vida dos outros.
O que fazer para ter umas férias mais tranquilas
Primeiro, baixar as expectativas. Umas boas férias não têm de ser perfeitas nem memoráveis. Têm de nos fazer bem.
Depois, manter alguma mini rotina, sobretudo com crianças: horários de refeições mais ou menos previsíveis e uma hora de deitar razoável ajudam toda a família.
E deixar espaços vazios na agenda. Nem tudo precisa de estar planeado.
Um dia sem fazer nada não é um dia perdido. Às vezes, é precisamente aí que começa o descanso a sério.
Como perceber a ansiedade durante as férias
É importante perceber o que está por trás.
Pode ser a sensação de perda de controlo, porque a rotina nos dá previsibilidade.
Pode ser culpa por descansar, aquela ideia de que primeiro temos de fazer tudo para depois termos “direito” a parar.
E pode também ser o excesso de tempo em família. Mais tempo juntos pode trazer muitos momentos bons, mas também mais oportunidades para nos irritarmos uns com os outros.
E isso não significa que a família esteja mal. Significa apenas que somos humanos e que estar 24 horas juntos não nos transforma automaticamente em monges budistas.
Conclusão
Talvez devêssemos trocar as “férias perfeitas” pelas “férias que nos fazem bem”.
As férias reais têm dias fantásticos, dias chatos, imprevistos, birras, discussões, sestas e momentos em que ninguém sabe muito bem o que está a fazer.
E está tudo bem!
O objetivo não é chegar a setembro/final de férias com a melhor história para contar. É chegar um bocadinho mais leve do que começámos as férias.
E, se possível, sem precisarmos de outras férias para recuperar destas.
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Dra. Margarida Mendes
Psicóloga
Hospital Lusíadas Amadora






