O calor provoca a dilatação dos vasos sanguíneos. Este é um mecanismo natural que ajuda o organismo a libertar calor. Nas pernas, esta vasodilatação pode dificultar o retorno do sangue ao coração e favorecer uma maior acumulação de sangue e líquidos nos membros inferiores.
É por isso que, no verão, podemos sentir as pernas mais pesadas, cansadas ou inchadas, sobretudo ao final do dia. Em quem já tem varizes ou insuficiência venosa, estes sintomas tendem a ser ainda mais evidentes.
O calor não causa a doença venosa, mas pode tornar os seus sintomas mais visíveis.
É por isso que nos meses quentes corremos o risco de sofrer com pernas pesadas, sobretudo quem permanece muitas horas de pé ou sentado, quem tem varizes ou antecedentes familiares de doença venosa, quem pratica pouca atividade física, quem já apresenta tendência para edema das pernas e quem tem excesso de peso.
A gravidez e outras fases da vida que se acompanham de alterações hormonais, como a perimanopausa e menopausa, também podem contribuir para uma maior tendência ao aparecimento ou agravamento das queixas.
Insuficiência venosa
Os primeiros sintomas são muitas vezes pouco específicos: sensação de peso e cansaço, sobretudo ao final do dia, tornozelos inchados, sensação de tensão ou calor nas pernas e, por vezes, comichão.
Um dos sinais mais característicos é o agravamento das queixas ao longo do dia: as pernas estão habitualmente melhores de manhã e vão ficando mais pesadas e inchadas à medida que passam as horas, sobretudo quando permanecemos muito tempo de pé ou sentados.
A sensação de pernas pesadas deixa de ser normal, quando deixa de ser ocasional e passa a acontecer com frequência, quando interfere com a qualidade de vida ou quando surge acompanhada de edema persistente, dor, alterações da pele ou aparecimento de varizes.
Também devemos valorizar uma alteração súbita ou muito diferente do habitual, sobretudo se for assimétrica, isto é, apenas numa das pernas.
As varizes durante o verão
O calor não agrava propriamente as varizes, embora estas possam parecer mais dilatadas no tempo quente. O que se agrava são os sintomas associados à insuficiência venosa.
Há medidas simples que ajudam: evitar longos períodos parado, seja em pé ou sentado, caminhar regularmente, mexer os pés e tornozelos quando estamos sentados, elevar as pernas durante alguns minutos e manter uma boa hidratação.
Também é aconselhável evitar a exposição prolongada a fontes de calor intenso, como água muito quente, saunas ou calor direto sobre as pernas.
O exercício é um dos grandes aliados da circulação venosa.
Quando caminhamos ou contraímos os músculos das pernas, sobretudo os gémeos, que são os músculos da barriga da perna, estamos a ativar a chamada “bomba muscular gemelar”, que na prática funciona como o “coração das pernas”. A sua contração ajuda o sangue a regressar ao coração, diminuindo a sua acumulação e a de líquidos nos membros inferiores e, consequentemente, as queixas associadas.
Andar é um dos melhores exercícios para melhorar o retorno venoso, precisamente porque estimula a bomba muscular dos gémeos. Caminhada, bicicleta, natação e exercícios de força são excelentes opções. Mesmo durante uma viagem ou um dia de trabalho sentado, fazer movimentos regulares com os pés e tornozelos pode ajudar.
A alimentação pode contribuir para reduzir o inchaço, sobretudo quando já existe tendência para retenção de líquidos.
Uma alimentação equilibrada, rica em vegetais, fruta, leguminosas e alimentos pouco processados, associada a uma boa hidratação, é benéfica. O consumo excessivo de sal pode favorecer a retenção de líquidos em pessoas predispostas.
Meias de compressão
O verão não é uma contraindicação para a utilização de meias de compressão. Antes pelo contrário! É precisamente no verão que podem contribuir para um maior alívio das queixas.
A compressão ajuda o sangue a regressar ao coração e pode melhorar significativamente os sintomas. Para algumas pessoas, as meias de compressão elástica são uma excelente forma de controlar o edema e a sensação de peso.
Não existe uma meia de compressão ideal para toda a gente. O comprimento, o tamanho, o grau de compressão, o tipo de malha e até o próprio modelo devem ser adequados à situação de cada pessoa e, quando indicado, definidos após avaliação médica.
Viajar de avião ou fazer longas viagens de carro
As viagens prolongadas, que impliquem longos períodos de imobilidade, podem aumentar o risco de trombose venosa, sobretudo em pessoas que já apresentam fatores de risco. Este risco não é exclusivo do verão. Embora o calor e a eventual desidratação associada possam aumentá-lo, o mesmo pode acontecer noutras alturas do ano.
Durante estas viagens, devemos evitar permanecer muitas horas completamente imóveis. Devemos levantar-nos e caminhar sempre que possível, fazer regularmente movimentos dos pés e tornozelos e manter uma hidratação adequada. O uso de meias de compressão elástica também poderá estar recomendado, mas sempre sob orientação médica.
Nas pessoas com risco aumentado de trombose, pode ser recomendada uma estratégia preventiva específica, que deve ser definida individualmente com o médico assistente.
Não é a viagem longa que constitui o motivo para preocupação, mas sim a imobilidade prolongada que lhe pode estar associada.
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Dra. Leonor Vasconcelos
Cirurgiã vascular
Allure Clinic no Porto e em Lisboa






