“Viaturas Automóveis e Motocicletas do Corpo Expedicionário Português 1917-1919”, um livro após Vinte anos a desbravar a memória motorizada do CEP


Acaba de ser publicado o livro “Viaturas Automóveis e Motocicletas do Corpo Expedicionário Português 1917-1919” pela Fronteira do Caos, Lda., no Porto, da autoria de Luís Costa.

Através deste livro, o autor recupera, através de centenas de documentos e imagens, a história das viaturas automóveis e motocicletas que acompanharam os militares portugueses na Primeira Guerra Mundial.

Há livros que resultam de uma investigação circunstancial e há outros que são o resultado de uma verdadeira vida dedicada à pesquisa. “Viaturas Automóveis e Motocicletas do Corpo Expedicionário Português 1917-1919”, pertence claramente à segunda categoria.

Com mais de 350 páginas, cerca de 140 fotografias e uma extensa documentação histórica, a obra nasce de um trabalho de investigação desenvolvido ao longo de cerca de vinte anos no Arquivo Histórico Militar. Um percurso iniciado em 1996, marcado pela consulta, análise e cruzamento de documentação existente em 325 caixas de arquivo, que permitiu ao autor recuperar uma dimensão pouco conhecida, mas absolutamente fundamental, da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial: a organização e o emprego das viaturas automóveis e motocicletas do Corpo Expedicionário Português (CEP).

Luís Costa é investigador e colecionador especializado em História Militar, com particular dedicação às viaturas militares e aos automóveis históricos. Esse conhecimento especializado está bem patente em toda a obra, não se limitando a apresentar fotografias de veículos antigos. O autor procura compreender a função de cada viatura, a sua proveniência, aquisição, utilização, organização, identificação, pintura e matrícula, enquadrando-a no funcionamento do dispositivo militar português em França.

A importância deste trabalho começa precisamente na sua origem. Durante duas décadas, Luís Costa foi seguindo pistas documentais, consultando processos, relatórios, registos e documentação administrativa, numa paciente reconstrução de uma realidade que, pela sua natureza, se encontrava dispersa por numerosos fundos documentais. Essa persistência permite-nos compreender que, por detrás de cada camião, automóvel ou motocicleta, existia uma complexa estrutura logística.

No cenário da guerra moderna, o transporte tornou-se uma componente essencial da capacidade operacional dos exércitos. Para o CEP, as viaturas automóveis significavam deslocar homens, munições, equipamentos, alimentos e material; assegurar ligações; apoiar hospitais; realizar evacuações e manter em funcionamento uma enorme máquina militar. É essa realidade que o livro procura revelar.

Da posição portuguesa à organização do transporte militar

O percurso da obra começa com “O Início da Guerra e a posição portuguesa”, colocando o leitor perante o contexto político e militar que conduziu à participação de Portugal no conflito.

Segue-se a análise da Divisão Auxiliar a França e da importância crescente das viaturas automóveis na sua organização. O autor acompanha depois as primeiras aquisições de veículos, até chegar a uma das operações particularmente relevantes: a aquisição de camiões americanos.

A investigação acompanha igualmente a transformação provocada pela declaração de guerra da Alemanha a Portugal, entrando depois diretamente na realidade das viaturas do Corpo Expedicionário Português em França.

Uma das riquezas do livro está precisamente em mostrar que o parque automóvel português não era uma realidade homogénea. Existiram viaturas de diferentes origens e fabricantes, resultantes de aquisições e fornecimentos provenientes de diversos países: viaturas inglesas, francesas, americanas e italianas. Os capítulos dedicados às viaturas inglesas e francesas fornecidas ao CEP permitem perceber a diversidade do material utilizado pelas forças portuguesas.

O autor aborda ainda as viaturas destinadas ao Hospital da Cruz Vermelha em França, novas aquisições para o Corpo Expedicionário e, posteriormente, as viaturas adquiridas em Itália.

A obra acompanha também as viaturas francesas provenientes do Corpo de Artilharia Pesada Independente, bem como as últimas aquisições efetuadas pelo CEP.

Esta abordagem tem uma particular importância para os estudiosos da história automóvel, porque permite observar como a guerra acelerou a utilização do automóvel e como os exércitos foram obrigados a adaptar-se rapidamente a uma tecnologia que, poucas décadas antes, ainda era relativamente recente.

9 de Abril de 1918: as máquinas no meio da batalha

Um dos momentos centrais do livro é naturalmente a Batalha de 9 de Abril de 1918, em La Lys. Luís Costa dedica um capítulo às perdas sofridas pelo material automóvel, mas vai mais longe. Num capítulo particularmente significativo, recupera os atos de coragem demonstrados pelos militares do Serviço de Transportes Automóveis durante a Batalha do 9 de Abril.

A história das grandes batalhas é frequentemente contada através dos movimentos das unidades de combate, dos comandantes e das decisões estratégicas, mas, por detrás dessas operações, existiam homens encarregados de assegurar o transporte, muitas vezes em condições extremamente perigosas.

Os condutores e restantes militares ligados ao Serviço de Transportes Automóveis enfrentavam igualmente o fogo inimigo, as dificuldades das estradas, a destruição do material e a urgência de manter as ligações e o abastecimento. O livro devolve-lhes protagonismo e reconhecimento histórico.

Do “Comboio Automóvel” às motocicletas

Outro núcleo importante da investigação é dedicado à organização do Comboio Automóvel e do Serviço de Transportes Automóveis. Aqui, o livro deixa particularmente clara a complexidade logística do CEP. Não bastava possuir veículos: era necessário organizá-los, distribuí-los, matriculá-los, repará-los, abastecê-los e integrá-los numa estrutura capaz de responder às necessidades do exército.

A investigação termina o percurso operacional com a evacuação do material automóvel para Portugal, acompanhando assim o destino das viaturas depois do fim da participação portuguesa no conflito.

Mas a história não termina nos automóveis, um dos capítulos é inteiramente dedicado às motocicletas do Corpo Expedicionário Português, revelando uma outra vertente da mobilidade militar. As motocicletas desempenharam funções particularmente importantes nas comunicações e no serviço de estafetas, permitindo deslocações rápidas em circunstâncias em que outros meios de transporte eram menos adequados.

Um verdadeiro catálogo histórico das viaturas do CEP

Os capítulos XIX e XX constituem quase um inventário especializado do parque automóvel português, distinguindo as viaturas automóveis ligeiras das viaturas automóveis pesadas. A eles juntam-se três áreas de enorme interesse para colecionadores, investigadores e historiadores: os símbolos e marcas utilizados nas viaturas do CEP, a pintura das viaturas automóveis e motocicletas, o sistema de registo de matrículas das viaturas automóveis e motocicletas.

Estes aspetos podem parecer, à primeira vista, meramente técnicos, contudo, são fundamentais para identificar corretamente uma fotografia histórica, determinar a unidade ou serviço a que determinado veículo pertencia e compreender a organização administrativa do material militar. É precisamente aqui que o conhecimento de Luís Costa enquanto investigador e colecionador de viaturas militares e automóveis históricos ganha particular relevância.

140 fotografias para devolver rosto à história

A componente iconográfica é outro dos grandes valores da obra. As cerca de 140 fotografias não funcionam apenas como ilustração do texto, constituem documentos históricos que permitem observar homens, máquinas, uniformes, marcas, matrículas, pinturas e ambientes de utilização. A própria capa reproduz uma fotografia de um automóvel Sunbeam com a matrícula C.E.P.-57, pertencente ao Quartel-General do Corpo, nos finais de 1917, na região de Saint-Floris. No interior e na capa é também recuperada a imagem de um grupo de estafetas motociclistas, com motocicletas Douglas 2 3/4 HP, em serviço em agosto de 1917, imagens que dão uma dimensão humana e concreta a uma investigação necessariamente muito documental.

Homenagem a um amigo, a um companheiro de memória, prefácio que reconhece a importância da obra

O livro tem também uma dimensão pessoal. Luís Costa dedica a obra a Mário Rocha, saudoso amigo e antigo militar do Serviço de Transportes, uma dedicatória que ganha um significado especial perante o tema escolhido.

A dimensão da investigação é igualmente sublinhada pelo prefácio do General Eduardo Manuel Braga da Cruz Mendes Ferrão, Chefe do Estado-Maior do Exército. O texto prefacial apresenta a obra como um contributo para a preservação, valorização e divulgação do património histórico-cultural do Exército Português. É uma consideração particularmente relevante porque coloca o trabalho de Luís Costa para além do universo dos colecionadores e dos interessados por veículos históricos. O livro é entendido como uma contribuição para a memória institucional do Exército e para a compreensão da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial.

A grande virtude de “Viaturas Automóveis e Motocicletas do Corpo Expedicionário Português 1917–1919” está na conjugação de três dimensões: investigação documental, conhecimento técnico e memória iconográfica.

Os vinte anos de pesquisa no Arquivo Histórico Militar, a consulta de 325 caixas, a análise de documentação e a seleção de aproximadamente 140 fotografias conferem à obra uma profundidade pouco habitual neste tipo de publicação.

Ao mesmo tempo, o livro consegue abrir várias portas. Interessa ao historiador militar, ao investigador da Primeira Guerra Mundial, ao estudioso da logística, ao especialista em transportes, ao colecionador de automóveis antigos e ao simples leitor interessado em conhecer melhor a participação portuguesa na Grande Guerra.

Uma obra que faltava na historiografia do CEP

A publicação de Luís Costa vem preencher um espaço importante na bibliografia dedicada ao Corpo Expedicionário Português. Muito se escreveu sobre os soldados portugueses nas trincheiras, sobre as batalhas, os oficiais, os regimentos e as consequências humanas da guerra. Menos conhecida é a gigantesca estrutura logística que permitiu ao CEP funcionar em França, ao recuperar essa realidade através de documentação primária, Luís Costa mostra que também através de uma matrícula, de uma fotografia, de uma marca pintada numa carroçaria ou de um registo de aquisição é possível reconstruir a História.

“Viaturas Automóveis e Motocicletas do Corpo Expedicionário Português 1917-1919” é, por isso, uma obra de investigação, mas também uma obra de resgate da memória.

A edição, que acaba de ser publicada pela Fronteira do Caos, Lda., no Porto, constitui assim uma importante contribuição para o conhecimento da presença portuguesa na Primeira Guerra Mundial e para a preservação da memória do Serviço de Transportes e das viaturas que acompanharam o Corpo Expedicionário Português entre 1917 e 1919.

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