Opinião: Quando os portugueses da diáspora deixam de ser bem-vindos


Todos os anos acontece a mesma coisa.

Chega o verão, regressam milhares de portugueses que vivem fora do país, chegam os filhos, os netos e, cada vez mais, os bisnetos daqueles que um dia partiram em busca de uma vida melhor.

E somos recebidos?

Sim… mas o acolhimento parece ter duas faces.

Somos muito bem-vindos aos restaurantes, aos hipermercados, às lojas, às empresas de serviços, à hotelaria, à construção, à pichelaria, à carpintaria e a tantos outros setores que beneficiam diretamente da nossa presença.

Aí, somos clientes.

Aí, somos importantes.

Aí, o nosso dinheiro é bem-vindo.

Mas basta sairmos desses espaços, para muitas vezes passarmos de clientes desejados a uma espécie de incómodo.

De repente, somos nós que provocamos as filas. Somos nós que provocamos os engarrafamentos. Somos nós que fazemos aumentar os preços.

Somos nós que ocupamos os lugares de estacionamento.

Somos nós que “invadimos” aquilo que alguns parecem considerar um território exclusivamente seu.

E isto começa (ou continua) a ser preocupante.

Porque nós não somos invasores.

Somos Portugueses!

Portugueses que vivem fora, é verdade. Mas portugueses!

E, em muitos casos, somos filhos, netos ou bisnetos de portugueses que um dia tiveram de partir. Pessoas que nunca deixaram de amar Portugal, que continuam a falar português em casa, que continuam a acompanhar o que acontece no país e que, todos os anos, regressam à terra onde nasceram os seus pais, os seus avós ou os seus antepassados.

E há uma coisa que parece ser ignorada: a diáspora portuguesa é uma enorme mais-valia para Portugal. Sim, uma mais-valia.

Somos nós que levamos produtos portugueses para França, Luxemburgo, Suíça, Canadá, Estados Unidos, Brasil, Venezuela e para tantos outros países.

Somos nós que procuramos o vinho português, o azeite português, o bacalhau, os enchidos, o queijo, os doces, o pão, os produtos tradicionais.

Somos nós que ajudamos a manter vivas as exportações e que levamos Portugal connosco para onde quer que vivamos.

E somos também nós que, através das nossas poupanças, investimentos e remessas, contribuímos há décadas para a economia portuguesa.

Portugal não deveria olhar para a sua diáspora apenas como uma fonte de receita durante os meses de julho e agosto.

Portugal deveria olhar para a diáspora como parte integrante da própria Nação.

Mas também é preciso dizer outra verdade.

Nem sempre a culpa é de quem vive em Portugal. Há quem se aproveite descaradamente da chegada dos emigrantes para aumentar preços, cobrar mais caro ou simplesmente tentar perceber “quanto é que aquele emigrante está disposto a pagar”.

E isso acaba por alimentar uma revolta injusta contra todos nós.

Dou um exemplo que vivi pessoalmente.

Um dia, passei pela N13, perto de Apúlia, e parei numa pequena banca de fruta. Perguntei o preço de um melão, creio que era da marca Vítor Manuel e disseram-me que custava 4,50 euros o quilo.

Fiquei admirado e perguntei, meio a brincar, se o preço era por eu estar vestido de turista.

O preço baixou imediatamente para 3,50 euros.

Comprei o melão.

Mas no dia seguinte voltei ao mesmo local com um amigo. Estacionei mais afastado e pedi-lhe que fosse comprar o mesmo tipo de melão fazendo-se passar por alguém «comum» da região.

A resposta?… 2,50 euros o quilo!

Ora, pergunto eu:

Onde está o erro?

Está no emigrante?

Está no português residente?

Ou está naquele que olha para a pessoa que tem à sua frente e decide quanto pode cobrar-lhe?

É precisamente aqui que está o problema.

Quando alguém aumenta abusivamente os preços durante o verão, não está apenas a prejudicar quem vem de fora.

Está também a prejudicar quem vive em Portugal.

E, pior ainda, está a criar ressentimento entre portugueses.

Em vez de o residente olhar para o emigrante como um irmão que regressa à sua terra, começa a vê-lo como o responsável pelo aumento dos preços.

E o emigrante, por sua vez, começa a sentir que é tratado como uma carteira ambulante.

Isto não pode continuar assim.

Até porque existe outra situação que me incomoda profundamente.

Na minha aldeia, que amo profundamente, durante todo o ano vemos veículos estacionados em cima dos passeios, carros em sentido contrário, pessoas que não utilizam o pisca, pequenas infrações de trânsito que parecem fazer parte do quotidiano e às quais poucos ligam.

Mas chegam as férias.

E, de repente, aparece um automóvel com uma matrícula estrangeira.

E esse automóvel passa a ser imediatamente o centro das atenções.

Publica-se nas redes sociais.

Denuncia-se.

Fala-se de “atitudes repreensíveis”, de falta de civismo e de desrespeito.

A matrícula é muitas vezes escondida na publicação e ainda bem, mas fica bem evidente que o problema é o facto de o carro ter uma matrícula que não é portuguesa.

Pergunto simplesmente:

Se a mesma infração fosse cometida por um carro com matrícula portuguesa, haveria a mesma indignação?

Se a resposta for não, então não estamos perante uma questão de civismo.

Estamos perante uma questão de preconceito.

E é aqui que Portugal precisa de fazer uma reflexão séria.

Precisamos de uma grande campanha nacional, transversal a todos os partidos políticos, às autarquias, às associações e às instituições da diáspora.

Uma campanha que diga claramente: “Os portugueses residentes e os portugueses não residentes, são todos portugueses”.

Não somos turistas.

Não somos estrangeiros.

Não somos invasores.

Não somos portugueses de segunda.

E muito menos somos aquilo que, infelizmente, algumas atitudes nos fazem sentir: o entulho de Portugal.

Somos pessoas que partiram, muitas vezes por necessidade, e que nunca deixaram de carregar Portugal no coração.

Voltamos porque temos saudades.

Voltamos porque temos família.

Voltamos porque temos memórias.

Voltamos porque esta é a nossa terra.

E gastamos cá o nosso dinheiro porque queremos que Portugal prospere.

Por isso, quando houver filas, que se procurem soluções para as filas.

Quando houver engarrafamentos, que se melhore a circulação.

Quando os preços subirem, que se fiscalizem os abusos.

Quando houver falta de habitação, que se encontrem políticas adequadas.

Quando alguém cometer uma infração, que seja responsabilizado que tenha matrícula portuguesa, francesa, suíça, luxemburguesa ou de qualquer outro país.

Mas não se transforme o emigrante no bode expiatório de todos os problemas do verão.

E, sobretudo, não se permita que alguns aproveitadores provoquem artificialmente um conflito entre portugueses.

Porque esse conflito só beneficia quem dele tira proveito.

Portugal precisa dos seus emigrantes.

Mas, mais importante ainda, Portugal precisa de respeitar os seus emigrantes.

Não queremos privilégios.

Não queremos tratamento especial.

Queremos apenas aquilo que qualquer cidadão merece: respeito, consideração e dignidade.

Porque quando um português da diáspora atravessa a fronteira para regressar à sua terra, não deveria sentir que está a entrar num país estrangeiro.

Deveria sentir que está simplesmente…

a voltar a casa.

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Luís Gonçalves

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