Saúde: Novo estudo sobre o álcool – Portugal bebe muito e bebe todos os dias. Mas eu quero saber porquê


“Doutora, eu não bebo muito. É só um copo ao jantar”.

Mas eu insisto sempre. Sou como as crianças pequenas.

Porquê? “Sem ele não desligo”.

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Os novos dados europeus voltaram a pôr Portugal na linha da frente do consumo diário de álcool: em 2025, 16% das pessoas com 16 ou mais anos referiram beber todos os dias, contra 4,8% na União Europeia.

A frequência é importante. A quantidade também. Não me deixem mentir.

Mas a mim estes dados, sozinhos, não me dizem o que eu preciso de saber em consulta. A pergunta que faço quase sempre é outra: para quê?

Há quem beba para celebrar, acompanhar uma refeição ou estar com amigos. E há quem beba para conseguir adormecer, baixar a ansiedade, suportar a solidão, perder a vergonha, parar de pensar ou tornar o fim do dia tolerável.

“Quando chego a casa, preciso de qualquer coisa que marque que acabou”. “Se não beber, fico às voltas na cama”. “Com duas cervejas consigo estar com pessoas”. São frases diferentes com uma função comum: regulação emocional. E resulta.

E, porque resulta, o cérebro aprende associações com uma eficiência impressionante. Se uma substância produz alívio rápido num momento de desconforto, esse alívio reforça o comportamento. Stress é igual a álcool que é igual a alívio. Ansiedade é igual a álcool que é igual a alívio. Insónia é igual a álcool que é igual a alívio. O circuito não precisa de uma decisão consciente para aprender.

Há uma ironia que nunca deixa de apanhar as pessoas desprevenidas: aquilo que é usado para “acalmar” pode começar a alimentar o problema que veio resolver. O cérebro adapta-se. A solução rápida começa a pedir repetição – uma vez e outra e só mais uma.

É aqui que gosto pouco da divisão simplista entre “quem bebe normalmente” e “quem bebe muito e tem um problema”. Antes de a dependência aparecer em quantidade, muitas vezes aparece no lugar que o álcool começou a ocupar.

Não me preocupa apenas quanto se bebe. “Bebo um copo de vinho tinto ao jantar todos os dias da semana”, mas “isto nunca aconteceu antes – só desde que mudei de cargo na empresa e que passei a chefiar uma equipa”.

Talvez estes novos dados devam servir para mais do que contar copos. Devem fazer-nos perguntar que papel demos ao álcool na nossa cultura – e que papel cada pessoa lhe está a dar na própria vida.

Na clínica, essa resposta vale muitas vezes mais do que o número.

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Dra. Maria Moreno

Médica psiquiatra

@mariamoreno.medicapsiquiatra

Autora do livro “Se Estou Bem, Porque Não Me Sinto Bem” (2025, Leya), que chegou este mês à 2ª edição

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