
A investigação concluída pela Polícia Judiciária portuguesa revelou um dado de enorme gravidade: o filho de 12 anos de Cédric Prizzon, ex‑polícia francês detido em março numa fiscalização rodoviária em Mêda, no distrito da Guarda, assistiu a todo o percurso homicida do pai, desde os raptos em França até aos assassinatos e ao enterro dos corpos em Portugal. Os factos, já parcialmente conhecidos, constam agora de forma detalhada no inquérito remetido ao Ministério Público de Bragança.
Segundo o acórdão da Relação de Coimbra, que recusou a extradição de Cédric Prizzon para França, o plano foi “executado a sangue frio”.
A 19 de março, o ex‑agente da polícia francesa deslocou‑se à casa da ex‑mulher Audrey Cavalié, de 40 anos, que detinha a guarda do filho. Espancou‑a violentamente, deixando a habitação coberta de sangue, amarrou‑a e obrigou‑a a entrar na bagageira do carro. O filho do casal foi colocado no banco traseiro. Nos Pirenéus, Cédric Prizzon trocou de veículo e forçou Audrey a entrar no segundo automóvel. Seguiu depois para a residência de Angela Legobien‑Cadillac, de 26 anos, mãe da filha mais nova, de apenas 18 meses. A jovem aceitou acompanhá‑lo e todos seguiram viagem em direção a Espanha.
A 22 de março, já em território espanhol, ocorreram os homicídios. Audrey, ainda amarrada na bagageira, foi morta à pancada e por estrangulamento. Angela sofreu o mesmo destino. O filho de 12 anos testemunhou diretamente as agressões e relatou mais tarde aos investigadores que o pai lhe disse apenas: “Não tive escolha”. Os dois cadáveres permaneceram na bagageira, enquanto os dois filhos viajavam no banco traseiro.
Na madrugada de 23 de março, depois de entrar em Portugal, Cédric Prizzon comprou uma pá numa loja agrícola e enterrou os corpos numa zona isolada da Serra da Nogueira, em Trás‑os‑Montes. O filho mais velho assistiu novamente a tudo e, segundo o inquérito, terá sido obrigado a vigiar enquanto o pai ocultava os cadáveres. As autoridades portuguesas localizaram os corpos graças às indicações fornecidas pela criança.
Vinte e quatro horas depois, na zona da Mêda, o ex‑polícia foi detido pela GNR. Transportava documentos falsificados: uma identificação portuguesa com a fotografia de outro homem e uma carta de condução pertencente a uma pessoa já falecida. De acordo com a investigação, o objetivo de Cédric Prizzon seria continuar a fuga até ao Norte de África.
O suspeito encontra‑se detido e responde por homicídio qualificado, sequestro, profanação de cadáver, falsificação de documentos e maus‑tratos ao filho, que foi forçado a acompanhar e presenciar todo o percurso criminoso. A França emitiu um mandado de detenção europeu, mas o pedido de extradição foi recusado pelas autoridades portuguesas, que consideram que os crimes foram cometidos “total ou parcialmente” em território nacional. As famílias das vítimas, residentes no Aveyron, continuam a pedir que o julgamento decorra em França, lamentando a complexidade e a morosidade do processo.
O Ministério Público de Bragança deverá concluir a acusação durante o outono de 2026.






