A França atravessa um período particularmente delicado da sua História. As tensões políticas e sociais, a radicalização dos discursos, a violência nas ruas e a crescente divisão da sociedade constituem sinais preocupantes de um país que parece ter dificuldade em encontrar um rumo comum.
Num momento em que a economia enfrenta desafios importantes, em que o poder de compra das famílias está sob pressão e em que as contas públicas exigem responsabilidade, a França não precisa de mais confrontos, de discursos de ódio ou de uma guerra permanente entre forças políticas. Precisa, acima de tudo, de estabilidade, trabalho, diálogo e sentido de Estado.
A reflexão de Wilhelm Reich, na sua obra Psicologia de Massas do Fascismo, continua a merecer atenção. Ao analisar os mecanismos psicológicos e sociais que favorecem o aparecimento dos movimentos autoritários, Reich alertou para os perigos do culto dos líderes, da intolerância, da manipulação das massas e da violência contra quem pensa de maneira diferente. A História demonstrou que o autoritarismo não tem uma única cor política e que nenhuma ideologia está imune à tentação de impor a sua verdade pela força.
É, por isso, fundamental rejeitar todos os extremismos, venham da direita ou da esquerda, assim como qualquer forma de radicalismo religioso ou político que procure substituir o debate democrático pela intimidação e pela violência.
Não podemos aceitar que a palavra fascismo seja utilizada indiscriminadamente como arma de combate político, transformando todos os adversários em inimigos. Mas também não podemos ignorar os comportamentos autoritários, a intolerância e a violência sempre que estes surgem no espaço público. A democracia exige coerência: liberdade de expressão, respeito pelas instituições, pluralismo e rejeição inequívoca da violência.
Contudo, importa ir além da denúncia dos extremismos. O verdadeiro desafio da França é reconstruir um projeto coletivo capaz de unir a população em torno de objetivos concretos.
Um país não se desenvolve através de manifestações violentas, confrontos permanentes, pilhagens ou destruição do património e das empresas. A violência afasta o investimento, fragiliza a economia, destrói empregos, alimenta a insegurança e aprofunda as divisões sociais. Quando a instabilidade se instala, são sobretudo os cidadãos mais frágeis, os trabalhadores, os pequenos comerciantes e as famílias com menos recursos que acabam por pagar a fatura.
A França precisa de recuperar o gosto pelo trabalho, pela iniciativa, pelo diálogo construtivo, pela produção e pela criação de riqueza. Precisa de empresas competitivas, de investimento, de inovação, de serviços públicos eficientes e de uma gestão responsável das finanças públicas. Sem criação de riqueza não existe prosperidade sustentável; sem uma economia forte não há meios para financiar uma verdadeira política de justiça social.
Mas a justiça social é igualmente indispensável. O crescimento económico só tem sentido quando permite melhorar as condições de vida das pessoas, reduzir as desigualdades, valorizar o trabalho e garantir oportunidades às novas gerações. Não se trata de escolher entre economia e solidariedade, mas de compreender que ambas são essenciais para a construção de uma sociedade equilibrada.
É neste equilíbrio que deve assentar o futuro francês: autoridade sem autoritarismo, liberdade com responsabilidade, crescimento económico com justiça social e diversidade de opiniões com respeito mútuo.
A classe política tem aqui uma responsabilidade enorme. Os dirigentes devem deixar de alimentar divisões por conveniência eleitoral e começar a apresentar soluções. A França precisa de líderes capazes de aproximar, não de incendiar; de construir consensos, não de explorar ressentimentos; de governar com visão de futuro, não de viver permanentemente em campanha eleitoral.
A História oferece-nos lições que não devemos esquecer. As democracias enfraquecem quando as instituições perdem autoridade, quando a violência se banaliza e quando os adversários políticos deixam de se reconhecer como legítimos interlocutores. A liberdade e a República não se defendem com mais ódio, mas com instituições fortes, justiça independente e respeito pelo Estado de direito.
A França é um grande país, com uma História, uma cultura, uma capacidade económica e um património humano extraordinários. Não pode resignar-se à divisão, à insegurança ou ao declínio. Tem recursos e talento suficientes para recuperar a confiança e voltar a ser uma referência de estabilidade, progresso e coesão social na Europa.
Num momento de fragilidade económica, política e social, o conflito permanente não leva a lado nenhum. A violência pode empurrar um país para o caos, agravar a sua fragilidade financeira e comprometer o futuro das próximas gerações.
A França precisa de harmonia, de trabalho, de criação de riqueza e de justiça social. Precisa de menos radicalismo e de mais responsabilidade, menos confrontação e mais diálogo, menos destruição e mais construção.
Porque, no fim, nenhum país se torna mais forte por dividir os seus cidadãos. Um país torna-se mais forte quando consegue reuni-los em torno de um futuro comum.
Este trabalho de união, reconstrução e progresso deve ser assumido pelas forças políticas verdadeiramente democráticas e republicanas, capazes de colocar o interesse nacional acima das ambições partidárias. É tempo de construir uma convergência entre a esquerda republicana e uma direita social-democrata, em torno de um projeto comum para a França, com uma candidatura única, moderada e credível, capaz de devolver esperança aos franceses, garantir a estabilidade das instituições e relançar o desenvolvimento económico e a justiça social. Mais do que uma aliança de circunstância, a França precisa de uma união de responsabilidade, de compromisso e de visão de futuro.
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Olímpio Sobral
Professor






