Lusa | Nicolas Temple

Faleceu em Paris o argumentista e realizador Carlos Saboga


O argumentista e realizador Carlos Saboga faleceu hoje em Paris, onde vivia, com quase 90 anos. Nasceu na Figueira da Foz e saiu de Portugal com uma equipa de cinema francesa, em 1965, e atravessou os Pirenéus a pé, porque a sua família tinha “uma longa história de oposição ao regime de Salazar”: o pai passou 15 anos preso e ele próprio esteve atrás das grades.

Em maio de 68, quando era assistente na estação de televisão pública de televisão ORTF, “toda a gente estava em greve” e ele teve “toda a disponibilidade” para participar no movimento de contestação, tendo entrado num Comité de trabalhadores-estudantes de língua portuguesa, ao lado, por exemplo, do artista Vasco de Castro. “Fazia-se pouca coisa, falava-se muito. A circulação da palavra era intensiva, mas, de resto, não havia grandes ações, à parte as manifestações, barricadas, etc.. Aquilo que se falava muito era da revolução, de coisas teóricas, ideológicas. Falava-se do perigo iminente do ataque do Ocidente, dos grupos neofascistas que ameaçavam vir libertar a Sorbonne”, recordou à Lusa o argumentista há vários anos.

Nessa altura, Carlos Saboga acabou “por estar metido no Comité da ocupação” da Casa de Portugal na Cidade Universitária de Paris. O episódio não escapou à PIDE, a polícia política da ditadura portuguesa que, a 01 de abril de 1969, colocou Carlos Alberto Saboga entre os “nomes de alguns dos principais responsáveis pelos distúrbios verificados na Casa dos Estudantes Portugueses na Cidade Universitária de Paris”, assim como o cantor José Mário Branco e Armando Ribeiro, um dos fundadores da Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR). O documento está guardado na Torre do Tombo, em Lisboa.

Com medo de ser preso e enviado para Portugal, passou uns anos na Itália e na Argélia, antes de regressar a Paris e ser naturalizado francês.

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Argumentista mas também realizador

Carlos Saboga é um dos mais importantes argumentistas portugueses, um autor cuja obra atravessa cinema, literatura e televisão. Trabalhou com os realizadores António Pedro Vasconcelos, Mário Barroso e Raúl Ruiz, mas é também um realizador – tardio, mas marcante – com filmes de grande densidade estética como “Photo” e “A Uma Hora Incerta”.

A partir dos anos 1970, Carlos Saboga tornou‑se um dos mais respeitados argumentistas portugueses, com reconhecimento internacional. Recebeu o Prémio FPCC de Melhor Argumento com o filme “O Lugar do Morto”, de António‑Pedro Vasconcelos (1984). A minissérie francesa “Les Filles du maître de chai” (1997) foi nomeada sete vezes aos 7 d’Or e vencedora do Grand Prix du Sénat da melhor série francesa.

Carlos Saboga colaborou com Mário Barroso em “O Milagre Segundo Salomé” (2004) e em “Um Amor de Perdição” (2007), com Raúl Ruiz em “Mistérios de Lisboa” (2010), um marco do cinema luso-francês, premiado internacionalmente e “As Linhas de Wellington” (2012), concluído por Valeria Sarmiento após a morte de Raul Ruiz.

Embora a sua carreira seja mais conhecida como argumentista, realizou recentemente, quatro belíssimos filmes: “Photo” (2013), “À une heure incertaine” (2015), “O Caderno Negro” (2018) e “L’Ordre Moral” (2020).

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