Por incrível que pareça, Portugal e as suas instituições nacionais nunca festejaram o fim da II guerra mundial na Europa, nem nunca mobilizaram os cidadãos para festejar o 8/9 de maio, datas do fim da guerra na Europa. Ainda menos houve homenagem ou mesmo qualquer referência oficial aos milhares de portugueses que combateram ou sofreram pelo seu envolvimento voluntário ou forçado no combate ao lado dos aliados, e em especial na França contra as forças nazis.
Compreendendo-se em tempo da ditadura de Salazar até pela proximidade ideológica ao regime nazi da Alemanha e ao facto de Portugal se ter mantido formalmente neutro durante a guerra, choca que esta situação se tenha mantido depois da Revolução de abril e da institucionalização da democracia e integração na União Europeia.
A situação é tanto mais estranha quando se constata (nomeadamente pelos artigos do LusoJornal) que em França as associações e Comunidades de emigrantes portugueses continuam a participar ativamente nas comemorações anuais de homenagem aos combatentes da 1ª Grande Guerra promovidas pela Liga dos Combatentes, sem que nunca exista a mais pequena referência aos que combateram e morreram na 2ª Guerra Mundial na Europa. Mesmo em recente artigo sobre a homenagem aos portugueses do Campo de Gurs promovida pelo Consulado de Portugal em Bordeaux, não há a mínima referencia ao facto de muitos portugueses combatentes na guerra civil da República Espanhola ali internados, terem fugido desse campo para se irem participar na Resistência quando as forças alemãs ocuparam a França.
Em anos recentes vários investigadores portugueses e franceses têm vindo a ter acesso aos arquivos franceses da IIGM e já referenciaram mais de 2.000 nomes de portugueses que de uma forma ou de outra estiveram envolvidos.
Existem mesmo livros publicados com o resultado dessas investigações de que se destacam os dois livros “Soldados Fantasmas” e “À Sombra dos Herois” do jornalista José Barata Feyo onde conta histórias de combatentes portugueses dos muitos que conseguiu referenciar nos arquivos militares de França. Barata Feyo e outros investigadores como por exemplo Geoges Viaud, Myriam Bruzac, Vitor Pereira, Ctristina Clímaco, Pedro Rabaçal, Gaston Laroche referenciaram muitos emigrantes portugueses mobilizados pelo exército francês que integraram os chamados regimentos de 1ª linha, muitos dos quais foram os primeiros a ser enviados para fazer frente às forças invasoras alemãs onde muitos deles morreram ou foram feridos. Referenciaram voluntários portugueses combatentes nas Forças da França Livre de De Gaule, alguns dos quais fizeram parte da unidade mecanizada primeira a entrar em Paris. Muitos portugueses estiveram ativos na defesa civil. E é de ressaltar os que voluntariamente se alistaram e combateram nas forças da Resistência. Foram referenciados uns quantos julgados, condenados à morte e fuzilados pelas forças de ocupação nazi.
Destes conjuntos só o investigador Georges Viaud referenciou nos arquivos militares franceses 1.566 nomes de portugueses envolvidos nesta guerra contra as forças do Nazismo.
Porque a maioria destes portugueses eram emigrantes em França dos anos 1925-1938 que tal como os que emigraram pelos mesmos motivos emigraram nos anos de 1960-70 leva-nos a pensar que muitas nas atuais Comunidades de portugueses em França e nomeadamente nas suas Associações deve haver muitas famílias com histórias de familiares que bem merecem de ser recordados e tão ou mais homenageados que os combatentes da 1ª GG. Daí que se faz um apelo para que todas as referências que possam ser colhidas sobre estes combatentes sejam transmitidas às direções associativas que saberão dar dela conhecimento aos Investigadores e aos Consulados, até porque um dia talvez se consiga recordá-los numa cerimónia oficial em Paris no Arco de Triunfo, como já o vêm fazendo outras comunidades de imigrantes que igualmente tiveram combatentes nesta guerra.
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Coronel António Delgado Fonseca
Capitão de Abril
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Nota importante para a redação do LusoJornal
No ano de 2025, no 80º aniversário do fim da guerra na Europa, conseguiu-se que a Comissão de História Militar se interessasse pelo assunto e o seu Presidente General Vieira Borges promoveu uma primeira conferência sobre este tema.
Na sequência dessa conferência a mesma Comissão acaba de divulgar o Call for Papers relativo ao XXXIV Colóquio de História Militar da CPHM (com o apoio do Museu de Marinha e do CHUL) com o tema “Portugal e os Portugueses na II Guerra Mundial”, que vai ter lugar entre 13 e 15 de outubro de 2026, no Museu de Marinha em Lisboa e cujo ficheiro se junta para a divulgação possível.






