Saint-Martin-d’Hères celebrou os 52 anos do 25 de Abril com emoção, memória e alerta cívico


A Comunidade portuguesa de Saint-Martin-d’Hères voltou a reunir-se no passado dia 25 de abril na praça “Révolution des Œillets au Portugal” para assinalar o 52º aniversário da Revolução dos Cravos. A cerimónia, marcada por simbolismo e forte participação popular, contou com a presença do Maire da cidade, o lusodescendente David Queirós, acompanhado pela primeira Adjunta, Michelle Veyret, que depositaram um ramo de cravos vermelhos junto à placa evocativa da data fundadora da democracia portuguesa.

Depois da homenagem floral, o público entoou a capela “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, gesto que reforçou o ambiente de comunhão e memória coletiva. Este ano, a iniciativa ganhou ainda um toque artesanal: um grupo de mulheres do “Collectif 25 Avril” preparou dezenas de cravos em papel crepe, distribuídos aos participantes. “As pequenas mãos do 25 de Abril”, como são carinhosamente chamadas, deram cor e emoção ao encontro.

Adriana Dias de Carvalho, membro do coletivo desde a primeira hora, leu com visível emoção um texto preparado pelo professor Roger Clamote, sublinhando a importância de celebrar Abril e de preservar o seu legado. No discurso, recordou-se a longa noite de quase meio século de ditadura, a repressão, a pobreza e a guerra colonial que marcaram gerações de portugueses. Foram citados poemas de Manuel Alegre e José Afonso, evocando o sofrimento, o exílio e a resistência que antecederam a liberdade conquistada em 1974.

A ligação entre Saint-Martin-d’Hères e a história da emigração portuguesa foi também destacada. Entre as décadas de 1960 e 1970, milhares de portugueses chegaram àquela cidade na área metropolitana de Grenoble em busca de trabalho, dignidade e liberdade. Muitos fugiam da miséria, outros da guerra, outros ainda da perseguição política. “Celebrar o 25 de Abril aqui faz todo o sentido”, sublinhou o texto lido, lembrando que esta cidade foi porto de chegada e de esperança para tantas famílias.

A intervenção evocou ainda o papel decisivo dos Capitães de Abril e o impacto imediato da revolução, que devolveu dignidade, direitos e futuro ao povo português. Reafirmaram-se os valores de Abril – liberdade, fraternidade, democracia participativa e paz – e deixou um aviso claro sobre os desafios atuais. Num contexto de crescimento de forças populistas e discursos de exclusão na Europa e no mundo, foi sublinhada a necessidade de vigilância cívica e de defesa ativa da democracia.

O Maire David Queirós, encerrou a cerimónia com uma intervenção onde recordou o desenrolar histórico do 25 de Abril e a forma como o povo português, apesar do apelo inicial para permanecer em casa, saiu às ruas para conquistar a liberdade. Reforçou que os valores de Abril continuam a ser uma inspiração necessária perante os desafios contemporâneos.

A cerimónia terminou com uma fotografia de grupo na praça, local que se tornou ponto de orgulho para as famílias portuguesas da cidade, muitas das quais ali tiram fotos para enviar aos familiares em Portugal.

O “Collectif 25 Avril” anunciou ainda que no dia 28 de abril, às 14h00, teve lugar na Cité Scolaire Internationale de Grenoble a segunda sessão do recital “Fernando Pessoa”, organizado pela professora Flávia Silva em colaboração com o Coletivo e com o Créarc de Grenoble.

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