
A Cônsul-Geral de Portugal em Paris, Mónica Lisboa, cessa hoje, dia 15 de maio, as suas funções na capital francesa e segue para Bruxelas, onde vai passar a ser a “número 2” na Representação de Portugal junto da União Europeia.
A partir de hoje, a gestão do posto passa a ser exercido interinamente pela Cônsul-Geral Adjunta, Mafalda Paiva de Oliveira que ficará com a responsabilidade da gestão financeira, administrativa e de representação do Consulado-Geral de Portugal em Paris e dos seus postos dependentes, até à nomeação de um novo titular do posto.
Mónica Lisboa exerceu um mandato de grande proximidade com a Comunidade portuguesa e, nesta grande entrevista de balanço ao LusoJornal faz um ponto da situação sobre o posto consular e uma análise da Comunidade desta área de jurisdição.
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Que balanço faz da sua passagem por Paris? Como encontrou o Consulado e como é que o deixa?
A minha passagem por aqui, que eu encaro como uma missão, apesar de ter sido mais curta do que eu esperava ou do que seria previsível, foi vivida sempre com muita intensidade. E eu levo daqui um balanço muito positivo. Com toda a honestidade, encontrei um bom posto, um bom legado, um posto consular que tinha passado por muitas dificuldades no contexto pandémico e em termos de recursos humanos, mas que tinha conseguido recuperar em termos de novas contratações e novos funcionários.
Quando eu aqui cheguei, tinha um corpo de elementos que sustentavam um determinado nível de atendimento que era muito bom. Na altura conversámos com o LusoJornal e eu tive o gosto de dizer que o tempo de espera era muito razoável e muito reduzido, a não ser em serviços de maior pressão como é o Registro Civil.
O que acontece agora, dois anos depois, é que, fruto de aposentações, mas também de um outro fenómeno que tem um lado muito positivo, que é o da mobilidade profissional dos funcionários do quadro pessoal dos serviços externos, o Consoado-Geral de Portugal em Paris perdeu alguns elementos. Ao contrário das aposentações que são substituídas normalmente ao abrigo de um mecanismo de substituição automática, estas mobilidades não são objeto de substituição, nem os postos são reforçados.
São funcionários que vão para outros postos?
Os funcionários têm a possibilidade de concorrer a vagas de outros postos consulares ou até de outras instituições em Portugal ou onde seja e saem porque foram aceites nesses concursos. O que diz muito também do talento que temos aqui, das pessoas que aqui formamos e da sua experiência aqui e que levam para outras entidades.
O que acontece é que são recursos que vamos perdendo e esses não são substituídos. Só poderão ser substituídos através de novos concursos que o Consulado-Geral de Portugal em Paris seja autorizado a abrir.
Eu tenho estado em contato muito estreito com os serviços competentes no Ministério dos Negócios Estrangeiros para alertar para esta situação. No início do ano tivemos mais uma baixa e sei que estão sensíveis a essa realidade aqui do posto que, se me permite dar esta nota, tem neste momento o quadro de pessoal mais reduzido de sempre. Isso risca de agravar a situação do atendimento.
Pode aumentar o tempo de espera para atendimento?
Naturalmente, tem sempre impacto. Com menos pessoas, a capacidade de atendimento diminui. E depois há um outro fator: nós notamos uma procura maior e mais acentuada em relação aos serviços que oferecemos. Talvez porque, atualmente, temos uma maior exposição nas nossas redes sociais e uma maior divulgação dos nossos serviços. O facto de divulgarmos com maior sistematização as Presenças consulares que fazemos fora de Paris. O facto de expormos aquilo que aqui se faz, de uma maneira às vezes até lúdica ou informativa, através daquilo que são as redes sociais, levou a uma maior procura.
Por outro lado, falámos nisto há dois anos e é interessante que também façamos este balanço, a procura em relação ao Cartão de Cidadão tinha diminuído porque o prazo de validade tinha aumentado em 2017 de 5 para 10 anos. Passou por uma época baixa de procura, mas neste momento, há uns meses para cá, a procura aumentou. Estamos mais ou menos, outra vez, naquele fim de ciclo e é normal que muitos dos nossos utentes venham procurar essa renovação. E também há quem venha fazer Cartões de Cidadão pela primeira vez. Portanto, por um lado, temos maior procura. Por outro lado, temos uma maior visibilidade em relação à qualidade do serviço que oferecemos. Mas também temos menos recursos.
E de que forma está a superar esta situação?
Estamos a tentar superar através da racionalização dos serviços. Fundimos o serviço de Cartão de Cidadão com o de Passaporte para que todos os colegas possam indiscriminadamente atender um serviço e o outro sem estarem tão condicionados com o sistema de agendamento. No entanto, não queria deixar de assumir que os tempos de espera, neste momento, estão mais longos.
Também há muito trabalho em back-office, temos serviços que oferecemos à distância, como o Consulado em casa, temos o trabalho que é realizado nas Presenças consulares e que é trazido para Paris, e esse trabalho é depois feito administrativamente em back-office. E se tinha algum atraso ou alguma acumulação, neste momento não tem e isso também é um bom índice de resposta.
Já está ultrapassado o problema que havia no atendimento no Registo Civil?
É também muito bom e positivo que possamos relembrar esse ponto, porque o Registro Civil, a certa altura, passou por dificuldades muito sérias, com períodos muito longos para a integração desses registros, por também falta de capacidade em Lisboa por parte do Instituto dos registros e do notariado, que se viu, a certa altura, também confrontado com um enorme aumento de pedidos de registro de nascimento e aquisição de nacionalidade. Neste momento, nós já não sentimos essa demora nos processos de registo de nascimento de menores, que voltaram a ter tempos muito razoáveis de resposta.
Mas lembro a questão dos registos de nascimento de maiores de idade, que entram numa outra categorização muito semelhante a um processo de aquisição de nacionalidade e, nesse sentido, é mais pesada a análise dos dossiers em Lisboa e leva, naturalmente, mais tempo. A aquisição de nacionalidade através do registro de nascimento de maiores de idade é também um elemento que denota maior procura, ou seja, por parte daqueles que nós comumente designamos por lusodescendentes, há uma maior procura pela ligação a Portugal, querendo efetivar-se através de um registo de nascimento e depois da aquisição de um Cartão de cidadão e de um Passaporte, o que é, mais uma vez, também muito positivo.

Visitou todos os postos dependentes. Acha que deviam ser reforçados? São serviços que evitam que as pessoas venham a Paris…
Exatamente, quem procura os serviços em Lille, em Nantes, em Tours e em Orléans, não vem a Paris, não precisa de o fazer. Eu visitei, mais do que uma vez, todos os nossos postos dependentes, tive uma situação que se alterou ao longo do meu mandato, que foi uma situação em Nantes, onde tínhamos dois funcionários e neste momento temos apenas uma funcionária, tal como temos em Lille. Mas eu registo com satisfação que foi possível assegurar a continuidade desse Escritório consular.
Não há pressão sobre esses dois postos?
Não há pressão nesses dois postos porque o atendimento em Lille, sobretudo, já se faz há muito tempo assegurado por uma funcionária, a quem eu devo reconhecimento e por quem tenho profunda admiração, porque consegue gerir sozinha um universo de pessoas que é significativo e fala com grande qualidade e devo dizer com toda a seriedade que nós não temos nenhuma reclamação em relação à forma de funcionamento de Lille. Também é verdade que, necessariamente, é um posto que tem de fechar quando a funcionária vai de férias, mas todo o calendário de funcionamento e toda a dinâmica também é assegurada nessa lógica.
Em Nantes passou a ser também o caso porque não há possibilidade de fazer rotação, porque temos apenas uma colega lá que tem tido um desempenho muito bom, com resultados que não nos indicam que seria preciso fazer alguma alteração. Em Orléans temos duas pessoas, é previsível num futuro – não muito próximo nem imediato – que se coloque a questão da aposentação dessas duas colegas que lá estão há muito tempo, mas não é para agora, nem foi uma questão durante o meu mandato.
Em Tours temos um posto que é mais robusto, que tem cinco funcionários. Foi possível assegurar também a continuidade das instalações em Tours com o arrendamento de um novo espaço, que é muito adequado e que é muito digno. Em Tours faz-se grande parte do trabalho que é pedido pelos utentes através do mecanismo do Consulado em casa, ou seja, quem está em casa pode pedir uma Certidão de nascimento, um ‘Livret de famille’ e outro tipo de documento de registro civil através do correio, sem ter de sair de casa.
Então a rede parece-lhe adaptada…
Eu creio que há sempre mérito em olhar para o conjunto da jurisdição, da geografia que servimos, numa perspetiva de que mudam certas dinâmicas e que a Comunidade é uma comunidade multifacetada, cujas necessidades e cujos interesses também se vão alterando, os instrumentos digitais também vão evoluindo, é no sentido da modernização administrativa que a nossa Administração se vai orientando e, nesse sentido, creio que mais cedo ou mais tarde será necessário olhar para a nossa presença na vasta jurisdição do Consulado-Geral de Portugal em Paris. Olhar para esses postos, onde é que eles estão, como são as dinâmicas de funcionamento e da Comunidade que servem e, por outro lado, o complemento que é assegurado pelas Presenças consulares, porque o Consulado-Geral de Portugal em Paris, no ano passado, à semelhança do ano anterior, continuou a assegurar Presenças consulares pontuais em nove cidades, incluindo cidades muito mais longe, como Brest e Rennes, e aí também seria, penso eu, benéfico voltar a olhar para a procura, a oferta e quantos dias necessitam determinadas localidades, em detrimento, eventualmente, de outras, onde a procura não é tão grande e nós temos essa análise feita.

Esteve recentemente numa Presença consular nas Antilhas. Como se passou essa viagem?
Eu tive esse privilégio de acompanhar a nossa Presença consular às Antilhas e posso, neste momento, fazer um balanço dessa minha experiência. Começando por assinalar que o Consulado-Geral de Portugal em Paris, além da jurisdição que está no território metropolitano, tem também jurisdição sobre todos os departamentos e territórios ultramarinos.
Nas Antilhas Francesas, verificou-se em 2016, no contexto de um trágico acontecimento que foi o Furacão Irma, que existia uma numerosa Comunidade portuguesa residente. No seguimento desse contacto de crise seguiram-se duas Presenças consulares, em dois anos seguidos, 2018 e 2019, tendo havido grande recetividade por parte dos nossos concidadãos.
O contexto de pandemia em 2020 veio interromper essa dinâmica, e sete anos depois, em 2026, foi possível retomar essa presença consular. Continua a existir uma numerosa Comunidade nas Antilhas Francesas, muito em particular na ilha de São Bartolomeu. Uma Comunidade que é composta por casais jovens, famílias jovens, crianças que nascem nas Antilhas de pais portugueses.
Na hotelaria e na construção, essencialmente…
Exatamente. E em tudo o que é relacionado com serviços de apoio e gestão imobiliária. Esses três grandes setores são, na verdade, essencialmente dominados por compatriotas nossos, que são muito apreciados pelos empregadores destes setores.
É uma Comunidade, não só de jovens, como de uma faixa etária entre os 40 e os 60, também com cidadãos que há uns anos se encontravam na Venezuela e que emigraram para as Antilhas, fruto de um contexto político na Venezuela. E é uma Comunidade muito ativa profissionalmente, muito trabalhadora, muito bem integrada e muito apreciada. Tem a prática, em alguns casos, de se deslocar a Portugal, mas não com tanta frequência.
O que me leva à grande recetividade e à grande adesão que teve a nossa Presença consular naquele território. Fomos muito bem recebidos, fomos muito bem acolhidos pelo nosso Cônsul honorário nas Antilhas Francesas, o Sr. Albino Neiva da Silva, mas também me foi dito, “ainda bem que vieram, estiveram tanto tempo sem vir e é muito importante para nós termos os nossos documentos de identificação e de viagem em ordem”. E foi isso que fizemos, transportando quiosques móveis que nos permitem, com portabilidade, fazer a recolha de dados biométricos e prestar esse apoio.
Foram dois dias?
Foram dois dias em São Bartolomeu e um dia na Guadeloupe, em Pointe-à-Pître, onde eu, do que retirei dos contactos com as autoridades locais e com alguns elementos da Comunidade, haverá uma Comunidade mais reduzida, algumas pessoas ligadas à área da fibra ótica e da engenharia e, portanto, distinta daquela que depois se encontra na ilha de Saint Martin e daquela que se encontra em São Bartolomeu. Nós tivemos compatriotas nossos que residem na ilha de Saint Martin, que se deslocaram – uma hora de barco – até São Bartolomeu para usufruírem do nosso serviço consular.
E, em seu entender, com que cadência devem ser feitas estas Presenças consulares?
A preparação de uma Presença consular como esta é muito exigente, não só do ponto de vista informático, porque tudo tem que funcionar bem e estamos com um fuso horário de seis horas de diferença – não é possível contar permanentemente com o apoio de Paris em termos informáticos, nem de Lisboa e, por isso, exige uma preparação técnica grande. Por outro lado, uma preparação em termos de dados consulares. Nós não podemos chegar a uma Presença consular e dizer a quem marcou esse serviço, que afinal não trouxe os documentos necessários, ou que era preciso qualquer coisa diferente, ou que não poderia fazer isto ou aquilo. Portanto, antes de irmos, entramos em contacto com cada uma das pessoas que pretende ser atendida e trabalhamos o seu dossier antes de irmos. O que é que eu quero dizer com isto? É preciso muito tempo para preparar, é preciso tempo para divulgar. A logística não é evidente. Eu diria que se justificaria, e seria essa a minha recomendação, uma Presença que pudesse ser assegurada bienalmente, dois em dois anos.
A sua função também foi de representação do Estado. Que balanço faz do seu contacto com a Comunidade portuguesa?
Não é uma Comunidade, são várias Comunidades. A Comunidade é multifacetada, é diversificada, é feita de várias faixas etárias, várias gerações, vários percursos, várias histórias pessoais, vários perfis migratórios, e isso tem de nos levar necessariamente, a nós, representantes do Estado português, a repensar a forma como assumimos a vertente da relação com essa Comunidade.
Eu procurei, desde o primeiro momento, assumir uma visão onde confio na equipa que está em permanência no Consulado-Geral em Paris, a assegurar a parte administrativa, a parte da gestão consular, e confiando nessa capacidade que os serviços têm de assegurar o atendimento e a dinâmica de funcionamento, permitiram-me sair do posto e estar presente no maior número de eventos possível relacionados com a nossa Comunidade, seja ela a Comunidade empresarial, seja ela a Comunidade ligada às missões católicas, seja ela a Comunidade ligada à ação social, seja ela a Comunidade ligada às escolas, às universidades e às associações que promovem o ensino e a cultura da língua portuguesa, seja às instituições culturais, seja o meio associativo… a todas procurei dar atenção, ouvir as suas preocupações, ouvir aquilo que tiveram e têm para nos ensinar, em termos de uma diplomacia consular de proximidade, e também, associado a isso, procurei, no próprio Consulado-Geral de Portugal em Paris, tirando partido daquilo que é o nosso património edificado e do facto de termos uns belíssimos salões para receber, organizar aqui também um conjunto de eventos que também procurei que fosse uma mostra dessa Comunidade diversificada.
É nesse balanço que encontro a minha visão, que foi acompanhada pela equipa que aqui tenho, uma equipa que soube estar à altura da comunicação exterior, que é necessário fazer para melhor divulgar os nossos eventos, para melhor divulgar a nossa ação, para que outros vejam que estivemos num determinado departamento, numa determinada associação e que também nos convidem. Nunca tive nenhum receio de receber muitos convites, embora tenha também verificado que desde abril até junho há um conjunto de celebrações que a nossa Comunidade tanto tem gosto em fazer, e por vezes é difícil responder a tantas solicitações, mas tentamos sempre.
Nas últimas eleições para o Presidente da República, este Consulado teve gente a votar como nunca teve. O Consulado conseguiu dar resposta, mas, na verdade, votaram apenas 3,7% dos inscritos. Na sua opinião, a partir de que momento é que já era completamente impossível responder?
É interessante que me coloque esta pergunta, porque foi uma questão que nós não colocámos nesse prisma, mas como sabe, como houve duas voltas, nós questionámos ao fim da primeira volta como é que iríamos assegurar uma segunda volta caso os números duplicassem. O que aconteceu é que os números triplicaram, e aquilo que montámos aqui, com o recurso voluntário dos nossos funcionários e de elementos da Comunidade, foi um balcão de atendimento que, para além da própria Assembleia de voto, obrigatória na legislação eleitoral para estas operações, esse balcão permitiu atender casos em que eleitores não puderam votar. Explicar até porque não puderam votar, porque não estavam inscritos, como é que deveriam fazer, recolher informação sobre esses mesmos eleitores para que os pudéssemos agora recensear e assegurar que numa próxima operação eleitoral pudessem exercer o seu direito de voto. Pelo lado do Consulado-Geral de Portugal, em Paris, o que queremos é garantir que esse direito de voto é não só exercido pelos portugueses eleitores em território nacional e ilhas, mas também no estrangeiro.
Teriam sido capazes de fazer mais?
Eu acredito que sim. Acho que a questão central não está aí. A questão central está, de facto, em aumentar a participação política, sendo certo que – e registrei com grande satisfação – passámos de 1% para 4%. Portanto, a mobilização ou a capacidade de resposta terão eventualmente levado a uma menor abstenção, ainda que com valores muito elevados. Essa questão tem, sobretudo, a ver com mecanismos e modalidades de voto no estrangeiro, que são matéria da exclusiva competência da Assembleia da República e que me permitiu, enquanto Chefe deste posto e, sobretudo, desta Comissão eleitoral, de que dependem também Tours e Orléans, permitir-me fazer esse balanço e fazer algumas recomendações para o futuro, nomeadamente na perspetiva de haver assembleias de voto em áreas onde desta feita não foi possível assegurar, pela ausência de cadernos eleitorais desmaterializados que não permitiram que se abrisse mesas de voto, além de Paris, Tours e Orléans, naquilo que diz respeito à nossa jurisdição.
A minha pergunta era saber quais são os limites do posto consular. 3,7% de eleitores, ainda não nos satisfaz. E ia ser muito mais complicado se tivessem vindo votar 5% ou 10% dos inscritos?
Não conseguirei equacionar isso, porque a verdade é que a experiência que aqui tivemos é de que conseguimos que um eleitor, no pico do horário, quando houve maior afluência, conseguisse exercer o seu direito de voto em 15 minutos. Talvez, se fizermos uma extrapolação, pudéssemos dizer que, então, uma maior afluência poderia significar um maior tempo de espera. Não estou plenamente convencida que não pudesse ser exercido o direito de voto. Continuo a acreditar que a questão da mobilização e da participação política está mais ligada à questão da distância em relação às assembleias de voto, ao facto de alguns eleitores terem maior dificuldade, até geograficamente, para acederem à possibilidade física de exercer o seu direito.
O facto de haver cadernos eleitorais desmaterializados, dá-lhe a possibilidade de abrir novas mesas de voto…
Eu vou-me pronunciar do ponto de vista teórico: acredito que sim. Porque o facto de haver cadernos desmaterializados permitiria que qualquer eleitor pudesse votar em qualquer Assembleia de voto. Foi uma experiência que foi feita no contexto das eleições europeias. É claro que a lei eleitoral não permite isso neste momento em relação a outros atos eleitorais. Mas permitiria, do ponto de vista teórico, no meu avaliar, que houvesse uma maior flexibilidade e que qualquer eleitor se pudesse deslocar onde lhe fosse mais conveniente. Não tendo que ser confrontado com, muitas vezes, fazer a deslocação e chegar à Assembleia de voto e não poder votar. Nesse sentido, do ponto de vista teórico, diria que sim. Do ponto de vista técnico, não saberei pronunciar-me porque há todo um sistema de manuseamento dos cadernos.

E como é que viu a participação “portuguesa” nas eleições municipais francesas?
É com grande satisfação que tenho lido e analisado alguns dos números que me chegaram sobre a participação de cidadãos nacionais portugueses ou de origem portuguesa nestas últimas eleições municipais em França porque essa grande participação, que já se tinha verificado nas eleições anteriores, reflete um nível de integração na sociedade francesa e na vida política francesa que é muito positivo, que é muito saudável e é aquilo que faz sentido em relação a uma Comunidade que está tão bem integrada e é tão valorizada pela sociedade que nos acolhe, pela França.
Os números que me chegaram são os que refletem um grande interesse não só em ser candidato, mas também votante e também de alguns dos artigos que pude ler no LusoJornal, também fiquei a saber um pouco mais sobre alguns dos eleitos, em algumas cidades até, com algumas surpresas e mudanças de equipas municipais e isso só pode ser motivo de grande satisfação e que eu gostaria também de ver ao nível da participação política em relação a atos eleitorais nacionais portugueses.
Perdeu um Conselheiro social que estava neste posto e passou para a Embaixada. Acha que isso prejudicou a relação entre o Consulado e as associações?
Eu fui muito privilegiada em todos os sentidos com aquilo que aqui encontrei quando iniciei funções há cerca de dois anos. Beneficiei muito do facto de, quando aqui cheguei, o Consulado-Geral ter no seu quadro um Conselheiro social. Desde que eu iniciei o meu mandato e durante cinco meses, ele apresentou-me a grande parte da Comunidade e do meio associativo e enquadrou-me nessa vida mais comunitária. É nesse sentido que eu digo que fui muito privilegiada. Não pude continuar a contar com esse apoio do Adido social porque a sua missão cessou aqui neste Consulado. Uns meses depois, foi nomeado um Conselheiro social para toda a França, ou seja, apoiando não só o Consulado em Paris, mas também a nossa rede consular em Marseille, Strasbourg, Bordeaux e Lyon.
Passados alguns meses dessa nomeação, também houve um espaço que ficou vazio porque a pessoa que desempenhava as funções e que era também quadro deste Consulado-Geral foi eleito Deputado e agora, no início do mês de maio, foi nomeado um novo Conselheiro social.
Como superou essa ausência no Consulado?
Alavanquei-me naquilo que pude aprender com o Adido social, com o doutor Miguel da Costa, que aqui vim conhecer. Depois continuei a beneficiar dos seus ensinamentos e da sua experiência, porque também é quadro deste Consulado-Geral. E consegui constituir uma equipa que me apoiou nessa área e que foi essencialmente chefiada pela Cônsul-Geral Adjunta com o apoio de uma colaboradora que contratamos em regime de prestação de serviços, que tinha sido nossa estagiária e que continua a estar connosco e a fazer parte da nossa equipa, que é a Dra. Eva Reis.
Com este conjunto de vontades e muito esforço, conseguimos dar alguma resposta ao movimento associativo. Conseguimos promover algumas sessões de esclarecimento em relação a um mecanismo que é muito positivo, que é o mecanismo de apoio ao movimento associativo, mas que também tem a sua complexidade.
Foi assim que conseguimos superar esses espaços de ausência, mas fico muito feliz que a França possa agora contar com um novo Conselheiro social, a quem desejo as maiores felicidades.
O que é que vai levar consigo de Paris e desta missão?
Eu vou levar um tesouro, mas não é de pedras raras, nem de maravilhas do mundo. É um tesouro humano, é um tesouro com rostos, é um tesouro feito de humanidade e de humanismo. Eu fui muito bem recebida pela Comunidade aqui, na área de jurisdição do Consulado em Paris, incluindo nas Antilhas, tendo o orgulho e a honra de ter sido a primeira mulher diplomata portuguesa a exercer estas funções. Fui muito acarinhada e levo comigo uma mala cheia de histórias de pessoas, de vida, de coragem, de superação, de determinação, de transmissão de memória, de memória viva, de momentos históricos, de simbolismos. E é essencialmente isso que eu levo desta minha missão.
Obrigado por mais esta entrevista ao LusoJornal…
Eu gostava ainda de dedicar uma palavra aos órgãos de comunicação social que trabalham em português e para uma Comunidade que tem ligações a Portugal. Pode até nem falar português, pode falar francês, mas que tem ligações afetivas ainda a Portugal e que a expressa muito. Essas ligações, são muito confortadas pelos órgãos de comunicação social mais próximos da Comunidade. Escrito, em plataforma digital, como é o LusoJornal, que agora até tem uma forma mais facilitada de acesso através de uma nova aplicação. Como são as rádios e como podem ser outros meios, como os podcasts ou outras formas de transmissão.
Eu acredito que a ligação entre a rede de postos consulares em França e a diplomacia consular tem muito a ganhar numa associação estreita e próxima com esses órgãos de comunicação social. Porque é através desses órgãos que nós também projetamos a nossa voz, a nossa presença e que nos damos a conhecer.
Portanto, uma palavra muito grata a todos os órgãos de comunicação social – e neste caso estou a ser entrevistada pelo LusoJornal – ao LusoJornal e a todos os seus colaboradores e ao seu Diretor por continuar a acreditar no projeto. E tal como os consulados, a tentar olhar também para a modernização da informação.
Uma segunda mensagem que gostaria de deixar era de reconhecimento à equipa com quem aqui trabalhei. Este é um dos maiores postos consulares do mundo. É o maior, se olharmos para a Comunidade que serve, que é essencialmente nacional. O nosso trabalho é de grande qualidade. E essa qualidade é assegurada pelas pessoas que aqui trabalham quotidianamente, no serviço público e com muito empenho e muita dedicação. E, por vezes, nalguns dias também com algum esforço, mas sempre de forma muito gratificante.
A essa equipa devo esta minha missão e a alegria de deixar aqui saudade. Costumo dizer que nós só temos saudade daquilo que gostamos, de quem gostamos e do que gostamos de fazer. E é essa saudade feliz que eu levo desta nossa casa fora de casa.






