Opinião: Um verão de incertezas para as nossas Comunidades


Há um período do ano que, para milhões de portugueses espalhados pelo mundo, funciona como um momento central do calendário: o regresso a Portugal no verão para o gozo de merecidas férias. Não é apenas uma viagem. É o encontro com a família, com a terra, com a língua que se fala sem esforço, com o cheiro do mar que ficou gravado na memória desde a infância.

Este ano, pela primeira vez em décadas, essa certeza está ameaçada por uma crise que não nasceu cá, mas que pode chegar-nos com toda a força.

O conflito no Médio Oriente desencadeou uma onda de consequências que vai muito além da região onde ocorrem as hostilidades. O encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo transportado por via marítima no mundo, provocou perturbações severas nos mercados energéticos globais, com impacto direto na disponibilidade e no preço do combustível para a aviação.

O Comissário europeu para a Energia, Dan Jorgensen, admitiu sem rodeios que a União Europeia se está a preparar para uma possível escassez do abastecimento de combustível. “Ainda não chegámos a esse ponto, mas pode acontecer, especialmente no que diz respeito ao jet fuel”, declarou.

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Em Portugal, o Ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, foi igualmente direto ao ponto: uma eventual falta de combustível para aviação significaria “um choque económico muito significativo” para o país. A razão é simples e clara: mais de 96% dos turistas que chegam a Portugal vêm de avião. Nas regiões autónomas, a percentagem é de 100%. “Se não houver jet fuel a nível europeu, mesmo que haja nos aeroportos portugueses, os aviões não chegarão a Portugal” – disse o Ministro em Bruxelas, depois de uma reunião com os seus homólogos europeus. Não há forma mais direta de dizer aquilo que está em jogo.

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Mas o debate público tem-se concentrado quase exclusivamente na dimensão turística e económica: chegadas de visitantes estrangeiros, receitas do turismo, impacto no PIB. Existe, porém, uma dimensão igualmente urgente que merece atenção: a dos portugueses que vivem fora e que contam regressar a Portugal de férias.

Portugal é, por vocação histórica e por construção contemporânea, um país global. A nossa diáspora soma mais de dois milhões de cidadãos, presentes em todos os continentes – da Europa à América do Norte, do Brasil aos países do Golfo, de Angola a Moçambique, de Macau à Austrália. É um país cujos filhos partiram e continuam a partir, mas que não perderam o laço com a terra de origem. O verão é, para muitos, o único momento do ano em que esse laço se torna físico.

A crise no Médio Oriente já obrigou, nos primeiros meses deste ano, a mobilizações de emergência. O Estado português soube estar à altura e ativou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil para repatriar cidadãos nacionais na região. Portugueses no Dubai, em Doha, em Abu Dhabi enfrentaram noites de explosões, ansiedade e incerteza sobre o regresso.

Para estes portugueses que residem em zonas diretamente afetadas pela instabilidade geopolítica atual, a questão não é apenas de conforto ou nostalgia: é uma questão de acesso. A possibilidade de regressar a Portugal no verão depende da existência de rotas aéreas funcionais e de combustível disponível. Nenhum destes fatores pode ser garantido hoje com total segurança.

Aqueles que residem na Europa estão em situação diferente, mas não isenta de constrangimentos. Para os portugueses residentes em França, em Espanha, no Reino Unido ou na Alemanha, a alternativa ao avião existe, mas implica dias de viagem, custos crescentes de combustível e um esforço que nem todas as famílias conseguem suportar. A escalada dos preços dos combustíveis, ela própria resultado da crise energética desencadeada pelo conflito, já se faz sentir nas bombas de gasolina em toda a Europa. Para uma família a viver em Paris ou em Roterdão, a viagem de automóvel até ao Algarve ou ao Minho pode custar o dobro do que custava há dois anos. A alternativa existe, mas a um preço mais alto.

O Governo está atento e o Ministro Miranda Sarmento afirmou já que, se o cenário se concretizar, “teremos de procurar responder a esse choque”. O Governo está a acompanhar a evolução “semana a semana, dia a dia”, nas suas próprias palavras.

Os portugueses da diáspora, aqueles que estão nos Emirados, no Qatar, em Angola, no Brasil, na Suíça, no Luxemburgo, irão, certamente, enfrentar dificuldades este ano.

Portugal foi sempre um país de partidas e de regressos. Essa geometria define-nos como nação e a superação de dificuldades é um fator que caracteriza, de forma marcante as comunidades portuguesas. O verão é a estação dos regressos e quero acreditar que, apesar da situação que vivemos, este ano também não será diferente.
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Carlos Gonçalves
Deputado (PSD) pelo círculo eleitoral da Europa
Antigo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas

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