LusoJornal | Mário Cantarinha

Opinião: Os novos senhores da ilha


A civilização, verniz frágil que cobre a madeira podre da espécie humana, estala ao menor calor. Um colapso económico aqui, uma pandemia ali, um gás que aumenta de preço, e rebenta a casca da compostura.

Voltamos ao essencial: facas, tochas, trincheiras.

É então que os miúdos de “Sa Majesté des Mouches” regressam: sujos, selvagens, olhos pintados, grunhindo pela fogueira.

O conch parte-se em dois e, sinceramente, ninguém se incomoda em colá-lo.

Em tempos de medo, a democracia parece um luxo e a liberdade, um incómodo. Ouvimos falar em Estado de direito, e dá-nos sono. Queremos algo mais visceral: um murro na mesa, uma voz poderosa, alguém que fale sem papas nem planos.

Queremos, no fundo, alguém que nos diga o que pensar.

Woody Allen dizia que a humanidade está dividida entre os miseráveis e os infelizes, e os infelizes, por vezes, votam com raiva só para não serem confundidos com os outros.

Na Europa, velho museu de promessas falhadas, o que sobe não é a temperatura moral, é a Extrema-direita.

Em Portugal, como em França, Itália, Hungria, Suécia, o cenário é o mesmo: partidos que odeiam o futuro, homens que citam Camões como quem berra numa tribuna de futebol e que transformam a miséria em património nacional.

George Orwell já nos tinha avisado em “O Triunfo dos Porcos”, quando escreveu, com a tristeza de quem sabia, que “os animais olhavam do homem para o porco, e do porco para o homem, e já não sabiam qual era qual”.

E no entanto, os animais votaram no porco, com esperança.

Porquê? Porque não é uma questão de ideias, é de afeto.

Como explicou Wilhelm Reich no velho (e tristemente atual) ensaio “Psicologia de massas do fascismo”, quando a liberdade parece desorganizada e a justiça se atrasa, o povo não procura igualdade, procura ordem.

O fascínio pelo autoritarismo nasce do medo.

O “pobre”, ao contrário do que se diz nos jantares de Esquerda, não quer um salvador de gravata solidária. Quer um chefe com punho. Alguém que o faça sentir parte de algo superior, nem que esse algo o esmague depois: “levei muitas, mas dei gente!”

Esse é o grande paradoxo: “os pobres” odeiam quem os protege, e veneram quem os castiga.

A Esquerda oferece-lhes direitos, a Direita oferece-lhes redenção.

A primeira fala difícil, escreve manifestos, promete inclusão. A segunda aponta o dedo e grita: “Eles estão a roubar-te!”

E o “eles” muda consoante o dia: podem ser os imigrantes, os professores, os funcionários públicos, os artistas, os jornalistas, os judeus, os ciganos, os árabes, os homossexuais, os comunistas, os ambientalistas, pouco importa, desde que haja um inimigo comum.

A raiva é um produto e vende-se bem!

A Extrema-direita, ao contrário dos seus antepassados barrigudos, aprendeu a comunicar. Substituiu a retórica marcial pelo marketing viral. As bandeiras são leves, mas os alicerces são pesados. Falam de pátria, de valores, de “gente de bem” e nisso há uma beleza plástica que atrai quem perdeu tudo o resto.

Miguel Gomes, na extraordinária trilogia “As Mil e Uma Noites”, dizia pela boca das suas personagens: “Se a miséria fosse visível como a roupa, toda a gente andava nua”.

Mas a miséria veste-se cada vez melhor, usa fato slim fit, penteado de lado, e um discurso antissistema comprado com cartão de crédito.

Em “As Mil e Uma Noites”, os pobres são encantadores, mas impotentes. Os poderosos são grotescos, mas eternos.

E entre uns e outros, cresce uma solidão coletiva que a democracia representativa já não sabe preencher. Nas palavras do Volume 1: “Esta gente não se governa, nem se deixa governar”.

E, no entanto, governa-se, com slogans, com memes, com ressentimento.

Festinger explicaria pelo prisma da dissonância cognitiva: quando alguém é ajudado, mas sente-se humilhado por precisar dessa ajuda, a culpa transforma-se em raiva contra quem ajudou.

E assim se odeia quem redistribui, e se admira quem tira.

O explorador é admirado porque parece forte, o cuidador é desprezado porque expõe a fragilidade.

O povo quer identificação, não compaixão, quer ouvir “Tu és forte, és digno, vamos recuperar o que era teu”. Mesmo que nunca tenha tido nada de seu, mesmo que nunca tenha feito nada para ter.

A tragédia de “O Triunfo dos Porcos” não é a traição dos ideais, o aplauso da multidão, o momento em que os porcos começam a andar sobre duas patas, e ninguém se importa, o momento em que a revolução termina com uma caveira pintada numa bandeira e um hino novo que soa exatamente como o antigo.

A ilha, afinal, não é apenas uma metáfora: é o nosso continente, o nosso bairro, o nosso parlamento. E Jack, o rapaz cruel imaginado por Golding, aquele que prometia caça e sangue, acaba eleito, com maioria absoluta. A Europa volta a avançar em direção à escuridão e fá-lo quase com prazer. Porque é no escuro que as certezas parecem brilhar com mais intensidade.

Os novos senhores da ilha sorriem.

Os outros calam-se, ou emigraram. Ou desistiram de lutar pelos direitos e liberdades de uma multidão que já não combate pelos seus próprios direitos, mas antes pela supressão dos direitos alheios.

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Cristina Branco
Escritora

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