Edição, memória e migrações: Sandra Barradas, editora de livros sobre emigração portuguesa

Sandra Barradas, Diretora executiva da Editora Alma Letra, propôs uma reflexão sobre o papel da edição na preservação da memória migratória e na divulgação de narrativas ligadas às migrações, durante a conferência apresentada no âmbito do colóquio do 14 e 15 de maio, no Auditório Adriano Moreira da Sociedade de Geografia de Lisboa, sobre “Migrações Portuguesas – Conhecer, Investigar e Difundir” (ler AQUI), uma iniciativa promovida pela socióloga Maria-Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, em parceria com a Academia Internacional da Cultura Portuguesa.

Partindo da sua experiência editorial, Sandra Barradas, destaca os livros como “pontes de papel” capazes de aproximar investigação académica, testemunhos de vida e reflexão crítica, tornando acessíveis histórias frequentemente ausentes dos discursos oficiais.

Através da publicação de biografias, relatos de migrantes e obras de caráter científico e pedagógico, Sandra Barradas evidencia a importância da edição enquanto instrumento de mediação cultural e de diálogo intercultural. O seu trabalho sublinha a necessidade de preservar memórias, valorizar percursos humanos e contribuir para uma compreensão mais ampla das dinâmicas sociais e culturais associadas à mobilidade humana.

Sandra Barradas, no início da sua apresentação, destaca a importância de reunir pessoas com percursos e experiências variados em torno dos temas da migração, da memória e da literatura, abordando logo de seguida o seu próprio percurso: formada em ciências da educação e especializada na área educativa, percebeu rapidamente que muitas pesquisas universitárias permaneciam confinadas ao meio académico e não chegavam às pessoas diretamente envolvidas, nomeadamente aos migrantes e às comunidades populares.

Com alguns professores e colaboradores, procurou então formas de tornar esse conhecimento acessível ao grande público. Foi nesse espírito que participou em vários projetos editoriais e publicações sobre as migrações portuguesas.

Os objetos da migração: sacos, malas e vestígios

Sandra Barradas evoca um elemento simbólico muito forte: os sacos e as malas dos migrantes, contando que observou que muitos emigrantes portugueses partiam com muitos poucos pertences, por vezes apenas com um pequeno saco (“taleigão”). Esses objetos modestos representam muito mais do que simples bagagens: transportam uma vida inteira, memórias, medos, esperanças e uma identidade.

Cada época migratória possui assim os seus próprios objetos simbólicos: os grandes baús das partidas antigas, os pequenos sacos das migrações clandestinas, as bagagens leves daqueles que atravessaram os Pirineus a pé.

Sandra Barradas insiste no fato de que esses objetos contam a história das migrações tanto quanto os documentos oficiais.

A Diretora executiva da Editora Alma Letra, sublinha que muitas histórias de migrantes correriam o risco de desaparecer se não fossem publicadas, os livros permitem preservar: relatos de vida, memórias familiares, experiências de desenraizamento, testemunhos populares frequentemente ausentes dos arquivos oficiais…

Segundo Sandra Barradas, antes mesmo de ser um fenómeno social estudado, a emigração portuguesa já existia no imaginário coletivo português: a vontade de partir, de atravessar oceanos, de procurar noutro lugar uma vida diferente faz parte, há séculos, da história de Portugal… a “inquietação portuguesa” voltada para o horizonte e para a partida.

As mulheres na história migratória

Um ponto central da conferência diz respeito ao lugar das mulheres migrantes. Sandra Barradas recorda que, durante muito tempo, os relatos migratórios foram contados sobretudo no masculino. As mulheres permaneciam frequentemente invisíveis. As mulheres ficando em Portugal era uma maneira de incentivar os maridos a voltarem, de não se instalarem definitivamente por lugares longínquos, regressando à Pátria que os viu nascer.

Sandra Barradas apresentou várias obras compostas por testemunhos de mulheres portuguesas imigradas, especialmente no Québec. Esses livros, dão finalmente, a voz àqueles que deixaram o seu país, criaram famílias no estrangeiro, trabalharam em condições difíceis, viveram o desenraizamento e a reconstrução identitária.

Algumas dessas mulheres escrevem com dificuldade em português após muitos anos passados no estrangeiro, contudo Sandra Barradas insiste na importância desses relatos autênticos, mesmo quando escritos numa língua imperfeita, fazendo o esforço de contar a sua história para que ela não seja esquecida.

Os avós e a transmissão cultural

A conferencista abordou também o papel dos avós nas famílias migrantes. Segundo Sandra Barradas, as migrações não transportam apenas pessoas, transportam também: receitas, expressões, tradições, formas de falar, memórias contadas ao telefone ou durante as visitas, os avós desempenhando um papel essencial na transmissão da língua portuguesa e da identidade cultural às novas gerações.

Explica que os livros sobre a migração funcionam como pontes: entre países, entre gerações, entre aqueles que partiram e os que ficaram. Aquelas obras permitem ultrapassar os estereótipos sobre a imigração, mostrando a complexidade dos percursos humanos: as dificuldades, mas também os sucessos, as solidariedades e as reinvenções pessoais.

A dificuldade em divulgar estes livros

Sandra Barradas, Diretora executiva da Editora Alma Letra, refere as dificuldades encontradas para divulgar este tipo de literatura. Os livros sobre a migração raramente atraem espontaneamente um grande público. É necessário, por conseguinte, sensibilizar os leitores, organizar eventos, apresentar as obras de forma viva utilizando imagens e excertos para despertar interesse.

Sandra Barradas relata a sua experiência em feiras do livro e eventos culturais, onde é constantemente necessário convencer os visitantes da importância desses relatos.

E insiste finalmente num ponto importante: os livros que apresenta não romantizam somente a migração, não reduzem a experiência migratória somente ao sofrimento. Os testemunhos mostram uma realidade complexa, feita simultaneamente de perdas, esperanças, adaptação, solidão, novas oportunidades e reconstrução pessoal.

A migração surge assim como uma condição humana em permanente transformação.

Sandra Barradas apresentou, durante a conferência, uma multitude de livros que editou sobre o tema das migrações.

Os relatos dos migrantes são essenciais para preservar a memória coletiva, transmitir a identidade cultural e dar voz àqueles que durante muito tempo permaneceram invisíveis, nomeadamente as mulheres e as famílias populares, os livros tornam-se, assim, instrumentos de memória, reconhecimento e transmissão entre gerações.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

Não perca