
Nos dias 14 e 15 de maio, o Auditório Adriano Moreira, na Sociedade de Geografia de Lisboa, acolhe o colóquio “Migrações Portuguesas – Conhecer, Investigar e Difundir”, uma iniciativa promovida por Maria-Beatriz Rocha-Trindade, Presidente da Comissão de Migrações da Sociedade de Geografia de Lisboa, em parceria com a Academia Internacional da Cultura Portuguesa.
O encontro reúne investigadores, professores universitários, jornalistas, editores e especialistas de diferentes áreas científicas, provenientes de Portugal, Canadá, Brasil e França, com o objetivo de refletir sobre as múltiplas dimensões das migrações portuguesas: memória, identidade, políticas públicas, pedagogia, associativismo, comunicação social e interculturalidade.
Ao longo de dois dias, o colóquio propõe uma abordagem interdisciplinar sobre os fenómenos migratórios, valorizando simultaneamente a investigação científica, os testemunhos de vida e os desafios contemporâneos colocados às sociedades de acolhimento e às Comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
A sessão inaugural, marcada para as 11h00 de quinta-feira, contará com intervenções institucionais da Comissão de Migrações, da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e da Presidência da Sociedade de Geografia de Lisboa.
A conferência de abertura será proferida pela jurista e antiga Secretária de Estado da Emigração, Maria Manuela Aguiar, sob o tema “O Lugar da Emigração nas Políticas Públicas”.
A conferencista propõe uma análise histórica das políticas públicas portuguesas relacionadas com a emigração, desde os modelos de controlo migratório associados ao mundo rural até às profundas transformações verificadas após o 25 de Abril de 1974. A intervenção abordará ainda o reconhecimento dos direitos dos emigrantes, as novas formas de mobilidade qualificada, as políticas culturais dirigidas às diásporas e os modelos contemporâneos de cooperação entre o Estado e o meio académico.
Com uma longa carreira política e académica, Maria Manuela Aguiar destacou-se pelo trabalho desenvolvido na defesa dos direitos das Comunidades portuguesas no estrangeiro e pela promoção de políticas públicas orientadas para a igualdade e a cidadania.
A sessão da tarde de 14 de maio, subordinada ao tema “Vivência, Investigação e Ação Pedagógica”, reunirá diferentes perspetivas sobre mobilidade, identidade e memória migratória.
A professora emérita da Universidade de Toronto, Maria Manuela Vaz Marujo, apresentará a comunicação “Nomear a Mobilidade: Categorias, Pertença e Hierarquias nas Migrações Qualificadas”. A investigadora propõe uma reflexão crítica sobre os conceitos de “imigrante” e “expatriado”, analisando a forma como determinadas categorias sociais e simbólicas continuam a produzir hierarquias dentro das mobilidades contemporâneas. O trabalho centra-se particularmente nas migrações qualificadas e nas tensões entre pertença, reconhecimento social e desigualdade.
Especialista em imigração, estudos sobre mulheres e relações intergeracionais, Manuela Marujo foi cofundadora de importantes congressos internacionais dedicados à diáspora portuguesa e ao papel das mulheres migrantes.
Seguir-se-á a intervenção de Ana Paula Beja Horta, professora da Universidade Aberta, com a comunicação “Imigração em Portugal: Investigação Científica, Politização e Novos Desafios”. A socióloga analisará a crescente politização da imigração na sociedade portuguesa, refletindo sobre as relações entre produção científica, discurso político e governação democrática. A conferencista abordará ainda os desafios emergentes colocados às políticas migratórias e ao debate público contemporâneo.
A investigadora possui um vasto percurso internacional na área das migrações, tendo colaborado com instituições académicas europeias de referência e coordenado diversos projetos científicos sobre integração, associativismo e políticas migratórias.
A sessão contará ainda com a participação da historiadora brasileira Roseli Boschilia, professora da Universidade Federal do Paraná, que apresentará a comunicação “Memória e Esquecimento sobre as Migrações Portuguesas no Brasil”.
A intervenção propõe uma análise crítica da reduzida visibilidade da imigração portuguesa nos currículos escolares brasileiros, apesar da relevância histórica dos portugueses na construção social, económica e cultural do Brasil. A investigadora irá analisar documentos curriculares nacionais e manuais escolares, refletindo sobre os mecanismos de memória e esquecimento associados às migrações.
Narrativas, biografias e representações da diáspora
Na manhã de sexta-feira, 15 de maio, o colóquio prossegue com a sessão “Narrativas e Representações”, dedicada às experiências humanas da migração e às formas de preservação da memória coletiva.
A professora e investigadora Maria Aida Costa Baptista apresentará a comunicação “Uma Nova Cartografia de Afetos em Contexto de Ausências”. A autora abordará as marcas emocionais deixadas pelos processos migratórios nas famílias separadas pela emigração, sobretudo nas crianças privadas da presença parental.
Através das suas investigações e publicações sobre mulheres migrantes, Aida Baptista tem procurado dar voz às experiências de ausência, pertença e reconstrução afetiva no espaço da diáspora portuguesa.
A sessão incluirá também a apresentação de Alfredo Cabral Jr., investigador ligado ao Centro de Estudos Rurais e Urbanos da Universidade de São Paulo. A partir da obra “Abílio Soares – A Trajetória de um Republicano”, o conferencista explorará os percursos de mobilidade social dos emigrantes portugueses no Brasil através da biografia de um comerciante português estabelecido em São Paulo no século XIX.
Através de imagens históricas, documentos e elementos biográficos, Alfredo Cabral Jr. procurará demonstrar como as trajetórias individuais ajudam a compreender os processos migratórios e as dinâmicas de integração social.
A editora Sandra Paula Barradas encerrará esta sessão com a comunicação “Pontes de Papel – Edição, Memória, Migrações”. A fundadora da Editora Alma Letra refletirá sobre o papel dos livros e da edição na preservação das memórias migratórias e na divulgação de testemunhos, biografias e investigações científicas relacionadas com o fenómeno migratório.
Segundo a editora, os livros podem funcionar como verdadeiras “pontes de papel”, promovendo o diálogo intercultural e assegurando a transmissão de experiências entre gerações.
A última sessão temática do colóquio, marcada para a tarde de sexta-feira, será dedicada às relações entre migrações e interculturalidade.
As professoras Maria da Graça Sousa Guedes e Ivone Dias Ferreira apresentarão a comunicação “O Associativismo na Diáspora Portuguesa – Um Novo Rumo com Mulheres ao Leme”.
A intervenção dará destaque ao papel das associações portuguesas espalhadas pelo mundo enquanto espaços de cidadania, solidariedade e preservação cultural. O projeto desenvolvido pela Associação Mulher Migrante procura mapear o crescente protagonismo feminino na liderança associativa das comunidades portuguesas da diáspora.
A socióloga Maria Beatriz Rocha-Trindade abordará o tema “Museus de Migrações – Potencialidades Pedagógicas”, analisando o valor educativo dos museus dedicados às migrações enquanto espaços de reflexão sobre diversidade, desigualdade social e interculturalidade.
Reconhecida internacionalmente como uma das principais investigadoras portuguesas na área das migrações, Maria Beatriz Rocha-Trindade é autora de uma vasta obra científica dedicada à sociologia das migrações e às relações interculturais.
Por fim, o jornalista António José Marrucho apresentará a comunicação “O LusoJornal: Voz, Memória e Expressão Identitária da Diáspora Portuguesa”. O autor analisará o papel do jornalismo comunitário na preservação da identidade cultural das Comunidades portuguesas em França, destacando o contributo do LusoJornal enquanto espaço de informação, memória e ligação transnacional entre Portugal e a diáspora.
O colóquio encerrará com uma sessão participativa intitulada “O que falta estudar?”, destinada à identificação de lacunas científicas, pedagógicas e políticas no estudo das migrações portuguesas.
O encerramento ficará a cargo da Comissão de Migrações, com a participação de Jorge Macaísta e de Maria Aida Costa Baptista, Vice-Presidente da Associação Mulher Migrante.
Mais do que um encontro académico, “Migrações Portuguesas – Conhecer, Investigar e Difundir” afirma-se como um espaço de diálogo entre investigação, memória e experiência humana, valorizando o papel das Comunidades portuguesas na construção de uma sociedade mais plural, intercultural e consciente das suas múltiplas geografias humanas.






