Diogo Feio explica como a Fundação Pargana quer estreitar os laços dos Lusodescendentes com Portugal

Constituída em 2023, a Fundação António Pargana é uma fundação privada criada para promover o conhecimento da história, cultura e capacidade científica e tecnológica de Portugal, fortalecendo a ligação entre a diáspora e os seus descendentes com o país. A Fundação visa colmatar a falta de conhecimento sobre Portugal, especialmente entre a geração mais jovem da diáspora, através da promoção de uma maior compreensão das dinâmicas contemporâneas de Portugal.

O seu fundador, António Pargana, nasceu no Porto, passou por Angola e depois instalou-se no Brasil, onde ainda reside.

António Pargana é Presidente vitalício do Conselho de Administração da Fundação, da qual fazem parte ainda os vogais Diogo Feio e o antigo Ministro da Economia Pedro Reis.

Diogo Feio é o Diretor Executivo da Fundação Pargana e respondeu a uma entrevista do LusoJornal.

Natural do Porto, é advogado, académico e foi uma das figuras de destaque do CDS‑PP durante as décadas de 2000 e 2010. Foi Deputado à Assembleia da República, Presidente do Grupo Parlamentar do CDS‑PP, Secretário de Estado da Educação no XVI Governo Constitucional (2004-2005), liderado por Pedro Santana Lopes e depois foi eleito Eurodeputado nas eleições europeias de 2009.

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O que é a Fundação Pargana e como surgiu?

Em 1975, António Pargana foi para o Brasil, onde fez a sua vida, mantendo sempre uma ligação muito grande com o nosso país. Todos os anos passa períodos de vida bastante extensos em Portugal. Essa ligação pretendeu sempre que fosse, também, para as futuras gerações. Isto é, para as gerações daqueles que, sendo filhos, netos de portugueses, já não nascem em Portugal, mas têm uma pertença àquilo a que vamos chamar a nossa diáspora, que são milhões de pessoas pelo mundo fora. E a ideia da fundação é dar a conhecer o Portugal histórico, cultural, tecnológico, económico, o Portugal das start-ups, de sucesso, de oportunidades, que muitas vezes, mesmo quem tem uma raiz familiar no nosso país, estando longe, não conhece. O objetivo principal da fundação, e por isso ela nasce, é precisamente o de dar a conhecer Portugal. Porque o fundador tem a noção que, muitas vezes, os netos e os filhos de portugueses que vivem no estrangeiro, por muito boa vontade que exista, não têm uma ligação tão grande com o nosso país.

E há alguma razão pessoal? Os filhos do fundador não conhecem Portugal?

Há aqui uma lógica pessoal que tem sido assumida pelo próprio fundador que tem a ver com o facto de, por exemplo, os seus filhos, que vêm a Portugal com frequência, ainda terem um conhecimento do país que pode ser aprofundado. E é esse o objetivo que esta fundação tem, que é de ser um dos elementos relevantes nesta rede de conhecimento e de ligação ao nosso país. Este é um ponto muito importante que vai juntar pessoas, que vai juntar universidades, que vai juntar empresas, num ecossistema que não é um ecossistema estrito, e que se pretende, aliás, bastante amplo.

E, na prática, como é que isso se faz?

Nós tivemos que iniciar por algum lado. Da análise que fizemos, tivemos uma noção de que são milhares os lusodescendentes que estão a estudar nas universidades portuguesas, nos mais diferentes pontos do país. São pessoas que vêm tirar a licenciatura, que vêm tirar o mestrado, que vêm tirar o doutoramento, nas mais diversas áreas de natureza científica, do direito, da engenharia, da economia, das letras, tantas outras, e que não tinham até agora, uma oferta específica sobre o dar a conhecer o país. Tinha uma oferta científica extraordinária, as nossas faculdades e universidades são bastante boas, a nível internacional, mas aquilo que estamos a ajudar é dar a oportunidade a esses lusodescendentes, das mais diversas proveniências, que estão a estudar nas universidades em Portugal, de conhecerem melhor o seu país.

É curioso o que me diz, porque Portugal tem uma cota de 7% reservada para os lusodescendentes nas universidades e institutos politécnicos portugueses, o que representa cerca de 4 mil alunos, mas apenas uns 350 entram através dessa cota…

É verdade, mas grande parte dos lusodescendentes entram por outras cotas. Vou dar-lhe um exemplo de um aluno de Timor, que, na sequência do anúncio do nosso curso, descobriu que era lusodescendente porque tinha um avô português. Isto é, a oferta que nós, como fundação, demos, levou-o a indagar dentro da família algo que ainda não tinha tido conhecimento, curiosamente: é que o seu avô tinha nacionalidade portuguesa. Portanto, isto sucede, por exemplo, também com outros alunos dos Palop’s. Portugal mantém uma ligação muito grande com estes países, tal qual como o Brasil, sendo que um dos objetivos, e principalmente, é também olhar para a diáspora europeia. Mas os números são, de facto, muito grandes. São números que não têm a ver com uma cota específica, porque essa, de facto, seria muito curta, mas têm a ver com estudantes que vêm para Portugal e que entram por outras vias.

E provavelmente não se conhecem entre eles.

Muitos deles não se conhecem. Na Faculdade de Direito de Lisboa, já tivemos um curso com pessoas que entre si não se conheciam. Criaram agora um grupo WhatsApp, a partir daquilo que foi a nossa formação, e mantém agora um diálogo mais próximo. Nós também queremos formar uma Comunidade de pessoas que tiveram nos nossos programas. Estamos a falar de um trabalho que já envolve muitas instituições universitárias em Portugal, com o objetivo de, neste ângulo civil, conseguirmos alcançar uns 20 ou mais programas específicos sobre esta ideia que é, repito, dar a conhecer o Portugal histórico, tecnológico, económico, financeiro, cultural.

E em França. Como é que os lusodescendentes podem entrar nos vossos programas e se aproximar do meio universitário português?

Estamos a trabalhar com algumas instituições que têm as suas próprias semanas de apresentação a alunos que vêm do exterior e em que também haverá um módulo específico sobre o que é Portugal. E, portanto, estamos a colaborar com instituições do ensino superior para, precisamente, haver uma colaboração da própria Fundação em relação a essas semanas para chamar estudantes da nossa diáspora a conhecerem faculdades e universidades e podem depois ponderar escolherem nos momentos de escolha. Durante uma semana estão a conhecer uma instituição com uma possibilidade para aí fazerem os seus estudos universitários.

Como podem, os lusodescendentes, acompanhar os vossos programas?

Nós fazemos a nossa própria divulgação nas nossas redes sociais, no nosso site (consultar AQUI), assim como nas próprias universidades, que também fazem a divulgação. É uma divulgação direta e sem intermediário. Nós temos protocolos de colaboração com várias faculdades e universidades nacionais.

Já há muitas universidades a trabalhar com a Fundação?

Já temos programas e protocolos com a Universidade de Évora – que foi o protocolo), com a Universidade de Trás os Montes e Alto Douro, com a Faculdade de Direito de Lisboa, com a Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, com o ISEG, com o Técnico, com a Escola de Start-ups da Universidade de Porto, que é a UPTEC, também com a Universidade do Minho, com a qual estamos a preparar programas para o próximo ano, com a Universidade Europeia, com a Universidade Lusófona… e estou aqui a correr um risco de me esquecer de algumas… Já é uma rede assinalável, estando a falar de uma intervenção que não tem décadas. Portanto, estamos, por assim dizer, naquilo que são os inícios dos nossos trabalhos.

E qual vai ser o próximo passo?

O próximo passo será, naturalmente, o de caminhar diretamente para as Comunidades que estão no estrangeiro, quer no continente americano, como também no continente europeu e em África, como é evidente. Pretendemos que sejam apostas muito diretas de trabalho com as próprias Comunidades.

E poderia ser em parceria com universidades dos diferentes países?

Com certeza que sim, também com universidades, mas queremos fazer, no fundo, um trabalho em rede, com um conjunto de parceiros, com outras associações… A Fundação não funciona numa lógica de exclusividade, funciona numa lógica de agregar todos os que queiram vir para este objetivo.

Esta relação entre lusodescendentes e Portugal é muito universitária. É aí que se vai situar a ação da Fundação?

Isto foi um início. A ação da Fundação será sempre a dar a conhecer à nossa diáspora, a netos e filhos de portugueses, o que é o nosso país. Mas trazer-lhes também novas oportunidades. Tem sucedido que muitas pessoas que não tinham possibilidade de contactar empresas, para estágios, para trabalhos de investigação, através daquilo que tem sido a experiência da própria Fundação, têm conseguido que isso aconteça. Falo, por exemplo, de uma empresa de vinhos ou sociedades de advogados. Eu chamo-lhe muito um ecossistema do conhecimento de Portugal para a diáspora, que inclui as universidades, que inclui as pessoas, que inclui instituições públicas, que inclui as universidades… Nós assumimos um módulo relativo à parte da história de Portugal, desses vários séculos de história que tanto nos orgulham.

E esse módulo é da Fundação? É a Fundação que o faz?

Sim, é da Fundação. Já me surgiu uma pessoa que está a estudar engenharia e que me disse: “o que eu gosto mesmo é de História”. Portanto é da história de Portugal porque ela tinha aprendido a história do Brasil. É portuguesa do Brasil.

E o contrário? Não é importante dar a conhecer os lusodescendentes em Portugal?

Claro, dar a conhecer os casos de extraordinário sucesso de pessoas da nossa diáspora. Na Faculdade de Direito de Lisboa, um dos módulos foi dado por uma professora lusodescendente que contou como chegou à Faculdade de Direito de Lisboa, a necessidade que teve de se inserir num meio diferente, e, neste momento, é professora com uma carreira universitária. São casos que nós queremos, evidentemente, também dar a conhecer… Também olhando para o objetivo que temos, que é o de chegar às nossas Comunidades, evidentemente. Uma Comunidade que achamos muito relevante é a de lusodescendentes em França, com a sua tradição histórica, com a sua tradição cultural, com fator numérico evidente. É algo que é bastante relevante e queremos ajudar para que as ligações possam ser cada vez maiores.

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