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O Chega foi o mais recente partido a ter sido criado no panorama político português. Foi oficializado no dia 9 de abril de 2019 e apenas alguns meses depois, elegeu um Deputado em Lisboa: André Ventura.

Para além de ser Deputado no Parlamento português, André Ventura é também o Presidente do partido e acedeu ao convite de entrevista do LusoJornal.

 

André Ventura também foi recentemente candidato às eleições presidenciais de janeiro deste ano, numa eleição marcada, nas Comunidades, por uma abstenção da ordem dos 98%. Qual a sua leitura sobre esta abstenção nas Comunidades portuguesas residentes no estrangeiro?

De facto é preocupante termos uma Comunidade emigrante que maioritariamente não vota e há dois fatores que eu acho que são decisivos: há um fator estrutural, que é comum não só a Portugal, à portugalidade, mas também a muitos outros países que têm Comunidades emigrantes. Há uma progressiva desconexão à medida que o tempo aumenta – temos Comunidades e famílias que emigraram há 40 e 50 anos – há uma maior desconexão em relação à vida política em Portugal e em relação ao contexto nacional. Esta é a parte estrutural. Depois há um fator conjuntural, que são as dificuldades permanentes que o Estado português e o sistema político português têm colocado em relação à participação das Comunidades emigrantes. Na verdade, parece que temos um sistema que não tem grande interesse em que as Comunidades emigrantes votem. Tivemos até um famoso comentador de televisão que até insinuou que era um perigo deixar votar os emigrantes porque eles poderão votar fora destes dois partidos do sistema, o PS e o PSD. Nós, na verdade, temos uma cultura institucionalizada de um certo desinteresse, mas um desinteresse intencional, em relação às Comunidades emigrantes. Não se trata só de falhas no processo – também existem – mas trata-se de um interesse político em não ter as Comunidades a participar e isto depois tem reflexos. O que vimos nestas eleições presidenciais – e que me arrisco a dizer que vamos voltar a ver nas próximas eleições legislativas – é um desinteresse, uma baixa participação de pessoas que são tão portuguesas como nós e que deviam ter o direito, o interesse e a motivação para participar.

 

Propôs recentemente que o voto fosse obrigatório. De que forma é que o tornaria obrigatório, se no estrangeiro há pessoas que ainda estão a milhares de quilómetros de uma mesa de voto?

Nós temos um problema grande em Portugal que é a abstenção e não é só a abstenção conjuntural, é um problema de desinteresse na participação e o que acontece é que, pouco a pouco, uma questão que é pessoal – apesar de ser um dever cívico – que é, “eu não voto porque não quero” – é uma questão motivacional – surge um fator institucional representativo agravante, que é o seguinte: pouco a pouco, as instituições na democracia, vão ficando mais fragilizadas, menos representativas e, portanto, menos legitimadas. Isto pode ter um impacto na conflitualidade social externa aos órgãos de soberania muito significativo. Por isso é que nós propusemos o voto obrigatório. Porque há uma consciência de que não estamos só perante um dever cívico, mas deveremos estar também perante um dever legal da participação, uma vez que ao não participar de forma massiva, pode aumentar não só o nível de conflitualidade fora dos órgãos e nós queremos o debate dentro dos órgãos de soberania, dentro da pluralidade da democracia e dentro da pluralidade das instituições.

 

Mas então como aplicar esse voto obrigatório às Comunidades portuguesas?

Já lá vou. Queria dizer que qualquer dia corremos o risco de ter uma eleição presidencial com 20% dos votos ou com 10% dos votos. Isto não representa nada, nem representa ninguém. Nós temos efetivamente de arrepiar caminho, temos de o fazer, e o voto obrigatório é uma das soluções que outros países, não só o Brasil, como a Bélgica ou outros, têm já definido. Como é que se faria isto nas Comunidades emigrantes? Bom, teria de haver antes disso, uma facilitação do exercício desse direito, ou com recurso a meios tecnológicos ou técnicos, que é uma das hipóteses, ou com a abertura massiva de postos de votação, sobretudo onde há Comunidades portuguesas mais significativas, porque não podemos obrigar as pessoas a irem votar se tiverem de fazer 1.000 km como alguns me disseram, para poder votar. A questão não é muito difícil, ou com recurso a meios tecnologicamente mais avançados, como acontece também noutros países, ou com a massificação das mesas de voto…

 

Então defende o voto eletrónico?

É uma hipótese, entre outras, desde que garantidas e acauteladas as questões da fraude e da manipulação eleitoral, mas também a abertura de centros de votação de forma massiva junto das Comunidades onde haja presença mais significativa… Há aqui várias hipóteses. Agora, para nós, o ponto é este: temos de arrepiar caminho, senão, temos um dia um Parlamento que representa apenas 10 ou 15% da população, e isso é que não pode ser.

 

Ainda sobre a eleição presidencial, a sua mandatária para as Comunidades foi a atriz Maria Vieira. Porquê? Por ser muito conhecida – e nesse caso é na linha do politicamente correto, que tanto condena – ou é porque de facto ela tem coisas a dizer sobre as Comunidades?

Ela tem algum nível de notoriedade fora de portas, isso é importante e é uma pessoa querida nas Comunidades, pela ligação afetiva, emocional, ao que é Portugal, a cultura portuguesa. Maria Vieira é uma atriz muito respeitada fora de Portugal, muito conhecida nas nossas Comunidades, participou até em alguns filmes muito conhecidos fora de portas, para mim é um orgulho tê-la como minha apoiante e acho que a Maria Vieira tem aquilo que muitos dos nossos emigrantes têm: é uma lutadora, é alguém que não desiste, mesmo se por vezes isso lhe custe a carreira, ela própria já disse que teve que emigrar, porque em Portugal só quem é de Esquerda é que tem hipóteses de triunfar na cultura. Por isso ela simboliza o que de melhor a nossa emigração tem: a luta, o esforço, a entrega, o gostar de Portugal, apesar de ter vivido lá fora e podia nunca mais ter vindo viver para Portugal, podia ter tido uma vida sossegada fora de portas, no Brasil, em França, noutros países, mas decidiu estar aqui ao meu lado, estar ao lado do Chega. Acho que é um exemplo daquilo que nós precisamos nas nossas Comunidades emigrantes, este espírito de luta e de sacrifício do que é Portugal.

 

E agora, quando chegarem as eleições legislativas, pelos círculos da emigração, vai escolher uma pessoa “querida”, ou uma pessoa das Comunidades?

Vamos ver. Eu não quero avançar já com nomes de candidatos nas Comunidades. Vamos ter certamente uma coisa: vamos ter candidatos próximos das Comunidades. Sobre isso não há dúvida nenhuma. Nós gostamos de ter candidatos próximos dos círculos onde estamos a trabalhar para eleger Deputados. Há uma coisa que lhe posso garantir, que vamos ter esse cuidado de auscultar as Comunidades, perceber as suas sensibilidades, os problemas locais, mas por enquanto ainda é prematuro, ainda temos as eleições autárquicas antes das eleições legislativas e é nelas também que eu estou concentrado até setembro.

 

Como está organizado o Chega fora de Portugal?

Temos várias presenças. Umas com presença de natureza mais física e de instalações, outras é uma presença mais humana, com menos presença de instalações, em Paris, em Londres, no Luxemburgo, temos várias presenças já de núcleos do Chega, algumas com muita gente. Vê-se também nos movimentos nas redes sociais nas nossas Comunidades, estão a crescer todos os dias. Arrisco-me a dizer que, a par do PSD e do PS, o Chega hoje a ser o partido com maior presença nas Comunidades emigrantes portuguesas. Naturalmente que o PSD e o PS são os partidos do regime. Isto mostra um crescimento que nunca foi visto na história da democracia portuguesa. O meu resultado nas presidenciais mostra isso mesmo, apesar de serem eleições com uma componente diferente, a presença e o voto que tive na grande maioria das Comunidades emigrantes, mostra essa presença indiscutível. Penso que é hoje incontornável que o Chega vai ter uma votação muito forte nos círculos da emigração portuguesa, porque quem mais e melhor que os nossos emigrantes para perceberem a tragédia que tem sido o socialismo no mundo? Não só os que estão na Venezuela, como os que estão em Espanha, numa série de outros países, em África por exemplo, eu acho que esses percebem muito bem a luta que eu estou a travar aqui no território português para livrar Portugal das amarras do socialismo. Compreendem isso melhor do que ninguém, porque muitos deles também fugiram da tragédia que é o socialismo em Portugal.

 

Li no seu programa eleitoral um parágrafo sobre as Comunidades, em que promete um Ministério das Comunidades. Esta é uma novidade, aliás bastante solicitada nas Comunidades, mas acrescenta logo depois que, “esta é uma forma dos Portugueses no mundo voltarem a sentirem-se portugueses”. Acha que os Portugueses no mundo não se sentem Portugueses?

Naturalmente é uma expressão simbólica. O que nós queremos dizer é que este afastamento entre Portugal e as Comunidades tem-se vindo a acentuar. Eu próprio tenho família por parte da minha mulher em França, alguns há muitos anos, alguns há muitas décadas, e sei do que estou a falar quando me refiro a este afastamento. Recentemente estive em França duas vezes e pude percecionar por um lado o quererem manter esta ligação e por outro a dificuldade que muitos sentem em conseguir materializar esta ligação. Quando nós falamos de um Ministério das Comunidades e no voltar ao sentimento da portugalidade, não é que deixaram de ser Portugueses, é voltar a consolidar este sentimento que é preciso votar, é preciso participar, é preciso cuidar de Portugal, é preciso olhar para o que se passa em Portugal e eu compreendo que seja difícil. Eu nunca fui propriamente emigrante, mas eu também vivi fora de Portugal quando estava a estudar e sei como ao fim de algum tempo é fácil de nós começarmos a preocupar-nos mais pelos problemas locais onde estamos embrenhados, do que propriamente com os problemas do território nacional. Ou seja, eu acho que nós temos de conseguir voltar a estabelecer esta ligação forte entre Portugal e as suas Comunidades e o Ministério das Comunidades serviria também para isso. Mas dava também um sinal político, sinal que nos preocupamos, não é apenas uma questão de conversa sempre que chegam os atos eleitorais, nós queremos mesmo saber dos Portugueses lá fora, queremos que participem, queremos ajudá-los, queremos saber quem são, queremos ter uma relação quase de… espiritualidade nacional, entre estas pessoas e o país. E isso não tem acontecido até agora. É nesse sentido que nós usámos essa expressão e propomos de facto este Ministério das Comunidades que é uma novidade, mas eu acho que as nossas Comunidades emigrantes merecem.

 

Os assuntos que mais se abordam nas Comunidades – e que não aparecem no seu programa – é o da participação cívica, o dos serviços consulares e o do ensino da língua portuguesa. Sobre a participação cívica, já falámos das presidenciais, da metodologia de voto, mas há uma outra questão importante: a nossa representação no Parlamento. Eu sei que quer reduzir o número de Deputados de 230 para 100, os círculos eleitorais também, mas se nós guardássemos o esquema atual, há cerca de 1,5 milhões de eleitores fora de Portugal e 1,5 milhões de eleitores no Porto. No Porto elegem 40 Deputados e nós elegemos 4. Qual é a proposta do Chega para eliminar esta discriminação?

De facto, nós propomos a redução de Deputados. Hoje não é o momento de tratarmos disto, mas as razões são mais que evidentes. Eu já o tenho dito e tenho referido isso em vários debates, nós temos uma sobrelotação do número de Deputados, um número excessivo de Deputados face àquilo que é a necessidade nacional e não me estou a referir aos critérios populacionais, porque há para todos os gostos dentro da União Europeia, há rácios melhores, há rácios piores, nem é por isso, Portugal não tem de se comparar com ninguém neste aspeto. Temos de olhar para o que temos e ver o que é melhor para Portugal. Nós temos 230 Deputados e a maior parte das pessoas nem sabe quem são. Eu dei exemplos de vários Deputados que em 4 anos não fizeram uma só intervenção. Isto mostra como não precisamos de uma grande parte destes políticos no Parlamento português. Eu sempre disse também – e até o disse em Portalegre que também só elegeu 2 Deputados e é um dos maiores distritos em extensão territorial – quando Lisboa e o Porto sozinhos conseguem quase ter uma enorme expressiva maioria no Parlamento. Isto desequilibra a instituição. Pior, faz com que os políticos decidam com 2 ou 3 distritos do país, porque na verdade são esses que vão condicionar o exercício da ação governativa para os próximos anos. E, portanto, para que vão estar a preocupar-se com Portalegre, Évora, Beja… se depois do número de Deputados que vão eleger aí são insignificantes? Este é que é o problema. O que nós propomos não é só uma redução do número de Deputados, mas que haja uma reformulação do sistema eleitoral que permita estabelecer também, a par desta redução, que o critério populacional não seja o único – apesar de poder ser eventualmente o mais relevante – e tem que haver um mínimo de representatividade, mesmo em distritos com menos população ou inclusivamente nos círculos da Europa e fora da Europa devido ao número de Portugueses e de lusodescendente que aí têm – 1,5 milhões conforme disse e equiparou, muito bem, ao distrito do Porto que é o segundo maior em número de mandatos – isto mostra como precisamos desta reforma. A nossa proposta está aberta à discussão com outros partidos e por isso queremos consensualizá-la: reduzir o número máximo de Deputados – sabemos que o PSD vai propor à volta de 190, nós gostávamos de menos, mas enfim, qualquer redução é positiva – mas não é só uma redução, é que distritos como os de Portalegre, Bragança, Évora, Beja… possam ter um número mínimo superior em termos de Deputados eleitos, para garantirem um maior peso político, e também os círculos da emigração terem também um acréscimo com um mínimo de Deputados para garantir o interesse e o empenho nesses círculos. Porque senão, se os políticos não tiverem interesse nos votos obtidos fora de Portugal – tirando as eleições presidenciais porque são um único círculo e todos os votos contam da mesma maneira – torna irrelevante a luta em certos círculos e é isso que nós queremos inverter. Vai ser uma matemática difícil de se fazer, vai ser um objetivo político difícil de se conceptualizar, mas nós estamos muito empenhados nisso e queremos mesmo fazer uma reforma profunda do sistema eleitoral português.

 

A Constituição portuguesa obriga que Portugal ensine a língua portuguesa aos nossos filhos. Ora, a sua proposta é mudar a Constituição. Este artigo desapareceria nessa mudança?

Não, não desapareceria. Eu já falei à imprensa francesa sobre isto. É evidente que nós aqui não nos desligamos de quem somos. A própria Marine le Pen – que esteve comigo em Lisboa e eu estive com ela em Paris – deixou claro que uma grande parte da luta que a Frente Nacional, agora Rassemblement Nacional, tem com a questão da língua, é uma questão de defesa cultural, naturalmente contra a invasão islâmica que hoje ocorre muito mais em França do que em Portugal, mas isso não muda a perspetiva da questão: eu vou sempre defender que as nossas Comunidades possam ter acesso ao ensino do português, seja pela via oficial, que espero que possa ser, seja ao Estado português a garanti-lo caso os países de acolhimento não o façam. Eu vou sempre defender isso. Se me perguntar se compreendo que outros países tenham algumas reticências a isso, eu compreendo em geral…

 

Compreende que a Marine Le Pen lhe diga que não está disponível para ensinar português em França?

Compreendo em geral, mas face à língua portuguesa não compreendo tão bem, porque a língua portuguesa não é um instrumento de ameaça cultural para nenhuma civilização. É uma das línguas mais faladas no mundo, é uma língua de integração e não de exclusão e todos os emigrantes que eu conheço em França, na Suíça, nos Estados Unidos – claro que haverá exceções – não perderam a ligação à língua portuguesa, mas empenharam-se desde o dia um em que chegaram lá, a falar a outra língua, a conhecer a cultura que os rodeia e que os acolhe. Eu acho que na questão da língua portuguesa, isso não se colocaria, mas eu sou português, sou um político português e estou a defender os interesses de Portugal, seria estranho se eu dissesse outra coisa. Também vou ser sincero, se me perguntassem se aceitaria em Portugal alguns tipos de língua relacionados com culturas mais hostis em relação a nós, se calhar eu também não aceitaria. Mas se a Comunidade francesa em Portugal puder aprender francês, ou os descendentes de Franceses – Portugal tem hoje uma Comunidade francesa já bastante significativa a viver aqui no território, embora de uma faixa etária bastante diferenciada – eu não me oporia ao ensino da língua francesa. A questão não é só a língua, a língua é um instrumento cultural, mas há que reconhecer que hoje, uma das questões em França, como na Alemanha, como na Itália e na Espanha, é uma questão da língua como fenómeno de luta cultural, como fenómeno de aculturação e é isso que nós, na Europa, temos de preservar e combater.

 

Em França existem mais ou menos 30.000 alunos a aprenderem português, nas escolas e nas associações, e em Portugal haverá uns 300.000 alunos a aprenderem francês. A França e Portugal têm um acordo bilateral, em que, em França, Portugal paga o ensino do português no ensino primário a crianças portuguesas e francesas e a França paga no secundário. Marine Le Pen aparentemente não sabe disto. O senhor Deputado sabe disto? Fez lhe passar esta mensagem? Discordou dela?

Uma das coisas que eu lhe disse logo no início é precisamente isso, eu já tive várias discussões com o Ministro dos Negócios Estrangeiros cá em Portugal e uma das nossas propostas é precisamente a de que, nos países de acolhimento, em França ou noutros países, onde há Comunidades portuguesas significativas, quando o Estado local não puder assegurar o ensino do português, que seja ao Estado português, através do Ministério das Comunidades, a fazer isso, seja com o acordo de pagamento de certos escalões intermédios até um certo nível de ensino, seja em alguns casos o pagamento total. Eu imagino que um Estado que não aceita de todo o ensino do português custeado pelos contribuintes deste Estado, para nós a língua é um fenómeno tão importante do ponto de vista cultural que aí o Estado português deve cobrir os custos do ensino até ao final do ensino formativo global. Para nós é uma proposta que continua em cima da mesa e nós gostávamos de ter no Governo português, não só em relação à França, mas também a todos os Estados onde há presença significativa de Portugueses, a ter uma proposta de acordo cultural abrangente. Era isso que nós defendemos.

 

Há muitos lusodescendentes com a dupla nacionalidade. O que defende o Chega sobre este assunto? Acolhe bem essa dupla nacionalidade?

Com o respeito que tenho pelos Estados que sei que existem e que não aceitam a dupla nacionalidade e que apenas permitem uma nacionalidade, eu acho que no mundo plural que vivemos hoje e de grande mobilidade, não faz sentido estar a impor uma única nacionalidade como critério fundamental, critério decisivo, do ponto da nacionalidade. Há Estados que quando se obtém uma outra nacionalidade, se perde a nacionalidade que se tinha antes. A nossa perspetiva não é essa, não só pelo nosso passado de mobilidade, de interculturalidade e de presença noutros países, mas também para os que estão em Portugal e agora, como sabe, temos recebido cada vez mais Comunidades imigrantes – ainda hoje tivemos o Ministro da Administração interna a vangloriar-se no Parlamento, a dizer que aumentou 72% o número de estrangeiros em Portugal e isso tem as suas vantagens, também terá as suas desvantagens e é um problema com o qual nós teremos que lidar – e muitos deles têm a dupla cidadania, dupla nacionalidade, são brasileiros e portugueses, cabo-verdianos e portugueses, franceses e portugueses, norte-americanos e portugueses, angolanos e portugueses… ou seja é um fenómeno que a nós não nos choca diretamente, embora entendemos que a Lei da nacionalidade deva ter critérios mais relacionados com o território do que hoje subsiste. Nós entendemos que a nacionalidade não é só um papel, que a nacionalidade é uma condição, é um estado de alma, é um recurso histórico de ligação ao território e à sua… eu diria espiritualidade, mas para não utilizar um termo religioso, direi à sua marca cultural, à sua marca estrutural.

 

Eu li o texto que fundamenta ao partido e sistematicamente, quando a palavra “imigração” aparece, está sempre associada a tráfico de droga, a delinquência, etc. Sendo eu imigrante, neste caso em França, sinto-me mal ao ver o meu estatuto associado a traficantes de droga, a delinquentes ou a coisas assim.

Não há nenhuma associação.

 

Está no seu programa.

Eu refiro-me à imigração ilegal.

 

Uma grande parte dos Portugueses de França foram imigrantes ilegais, chegaram cá ilegais. As pessoas saíram de Portugal ilegalmente, porque nessa altura nem podiam sair legalmente, e chegavam cá ilegais.

Isso é evidente. Se olharmos para trás, também a Espanha teve muitos emigrantes ilegais a virem para Portugal durante a Guerra Civil espanhola e também a França teve, durante a II Guerra Mundial, muitos emigrantes ilegais a irem para outros países. Mas nós vivemos no tempo em que vivemos, e hoje a realidade não se pode comparar à que tínhamos há 50 ou 60 anos atrás. O que nós dissemos é que a imigração ilegal é um mau sinal político, porque desincentiva os que vêm legalmente trabalhar, cumprir as regras e seguem o procedimento. Hoje vejo com alguma estupefação a Esquerda perguntar porque razão o Chega ataca a imigração ilegal. Porque é ilegal. Nós atacamos porque é ilegal, senão nós não atacávamos. Se é ilegal, é ilegal. Quando se diz que a imigração legal e a imigração ilegal são a mesma coisa, estamos a passar o pior exemplo político, estamos a dizer-lhes que venham de qualquer maneira, venham de barco, de carro, venham como vierem, que cheguem, que nós estamos cá para pagar, estamos cá para lhes construir casas, darmos tudo e podem continuar assim. Eu dei o exemplo, num dos debates presidenciais, como sabem, nós temos em alguns distritos, problemas muito sérios no acesso à saúde. Não só em termos médicos e espera de consultas, como no acesso a medicamentos. Alguns migrantes que vêm do Médio Oriente, para além de terem o acesso a 100% dos medicamentos, passam à frente destas pessoas. Isto cabe na cabeça de alguém? Não cabe na cabeça de ninguém. E dizem: “lá está ele contra a imigração”. Nós não estamos contra a imigração, nós queremos é que a imigração que venha, venha legal, venha de acordo com os procedimentos, venha cumprir as regras, venha integrar-se e venha trabalhar. E eu penso que aí, os Portugueses têm dado o melhor exemplo. Eu já estive em vários países do mundo com Comunidades portuguesas e não conheci nenhuma em que genericamente a perceção dos Portugueses não fosse de uma comunidade de trabalho, de pagamento de impostos, de integração cultural, de interculturalidade com a própria cultura de acolhimento e até de permanente interligação emocional, familiar e afetiva. Eu acho que comparar isto a pessoas que vêm por redes de tráfico pelo Mediterrâneo, que entram ilegalmente em Portugal, vindos dos Palop ou de outro tipo de países, é uma comparação muito excessiva. Nós somos contra a imigração ilegal e nunca contra a imigração que vem cumprir. Eu disse uma vez que a Europa, onde Portugal se inclui e a França também, nunca deve esquecer a sua história e se hoje somos um país de imigração, como a França, como a Itália, como a Alemanha, nós já fomos – como sabe bem, porque também é imigrante – um país de emigração e a própria Europa já teve durante décadas da sua história, grandes Comunidades a emigrarem para os Estados Unidos, Argentina, Canadá, para outros sítios. Não devemos esquecer isso.

 

O que eu queria dizer é que a nossa emigração foi, em grande parte, ilegal. Nós hoje somos muito bem vistos, mas primeiro fomos ilegais… Quem sabe se aqueles que hoje chegam ilegalmente a Portugal, amanhã não serão também bem vistos?

O que eu digo é que indivíduos que chegam à porta da Europa, que não têm passaporte, mas têm um iPhone na mão e que vêm para cá viver à conta dos subsídios, viver à conta do Estado, nunca foi isso que os Portugueses fizeram em França. Este é o tipo de imigração que nós não precisamos. Para viver de subsídios já temos cá muitos…

 

Ainda esta semana fizemos um trabalho jornalístico sobre Bordeaux e dizia-me o Cônsul-Geral de Portugal em Bordeaux que, na região, toda a gente conhece Aristides de Sousa Mendes. O Chega foi o único partido que não votou uma homenagem a Aristides de Sousa Mendes no Panteão Nacional. Porquê?

Nós não temos nada contra Aristides de Sousa Mendes. Achamos que do ponto de vista historiográfico, várias questões continuam a não estar resolvidas, nem a estar clarificadas. Aliás há muitos historiadores a levantar questões importantes e pertinentes sobre o trabalho de Aristides de Sousa Mendes. O que significa que nós achamos que devia ser dado mais tempo numa homenagem tão importante como é o Panteão Nacional que reconhece os símbolos maiores da portugalidade. Foi essa a única razão. Não há nenhum espírito de antisemitismo nem de nenhuma ligação… nem de nenhum juízo negativo sobre o processo que permitiu regularizar milhares de judeus e trazê-los para Portugal durante a II Guerra Mundial…

 

Salvando-os da morte…

Não é isso que está em causa. O que queremos saber é se alguns outros detalhes que os historiadores têm levantado do processo e da vida de Aristides de Sousa Mendes, nomeadamente o seu desempenho diplomático e consular, até em questões do foro disciplinar, deveriam ficar clarificadas. Quando se faz uma homenagem desta índole, é preciso saber do que estamos a falar, é preciso deter os detalhes todos. Eu vou dar-lhe um exemplo um pouco exagerado: os processos de canonização da igreja católica, ou de beatificação, não são feitos sem um levantamento rigoroso, exaustivo, histórico, documental, biográfico, de quem está a ser alvo desse processo. Isto não foi feito em relação a Aristides de Sousa Mendes. Ir para o Panteão não é o mesmo que ser beatificado ou canonizado, mas é a homenagem maior da portugalidade. Há bons historiadores e analistas que levantam questões importantes sobre o desempenho e o comportamento de Aristides de Sousa Mendes. É só por isso, não tem nada de antisemitismo, nem de ofensivo em relação ao trabalho que permitiu salvar imensas vidas humanas.

 

Muitas vezes André Ventura recusa a etiqueta de Extrema-direita e diz que o Chega não é um partido da Extrema-direita. Mas depois associou-se, há cerca de meio ano, ao partido Identidade e Democracia, onde estão os partidos da Extrema-direita europeia. Então em que ficamos? O Chega é ou não um partido de Extrema-direita? E se não é, então porque anda com amigos de Extrema-direita?

Porque nós criamos da Europa esta dicotomia em que tudo o que é contra o sistema, é de Extrema-direita imediatamente. Nós criamos esta ideia de que, se há partidos que defendem uma Europa mais regulada em matéria de imigração – e nós estamos a ter um problema enorme com a imigração vinda de todos os cantos do mundo, mas sobretudo do continente africano e do Médio Oriente – se alguém se insurge contra isto, é da Extrema-direita. Se nos insurgimos contra os subsídios dados à imigração ilegal ou às comunidades minoritárias, como a comunidade cigana, somos de Extrema-direita. Se defendemos mais autoridade para a polícia e para as forças de segurança, mais força para as forças militares e para as nossas forças armadas, somos imediatamente de Extrema-direita. Esta foi a narrativa criada pela Extrema-esquerda – que nunca é chamada de Extrema-esquerda pela comunicação social, essa é que é a verdade – para denegrir um conjunto de políticos e de partidos na Europa. Isto não está a funcionar, porque na Itália a Liga está à frente das sondagens, em França a Marine Le Pen, tanto quanto sei, está à frente nas sondagens, o Chega teve um crescimento exponencial e é a terceira força política nacional segundo as sondagens… ou seja, ou nós acabamos com esta diabolização de que a Extrema-direita é terrível, os fantasmas do passado que voltaram para assolar e do outro lado estão os tipos bons que só querem o melhor para o mundo e para a Europa, ou nós não vamos chegar a lado nenhum e só vamos aumentar este tipo de conflitualidade. Nós não somos de Extrema-direita, nós não queremos é pagar subsídios para quem não quer fazer nada, não queremos é ter criminosos soltos, fora da prisão ao fim de um ano ou dois quando cometeram crimes bárbaros, não queremos é um país em que metade trabalha e o outro está cá para vier desse trabalho. Se isso é ser de Extrema-direita, bom, então, eu e muitos Portugueses, aqui e pelo mundo todo, somos de Extrema-direita.

 

As associações de cabo-verdianos, de angolanos… em Portugal deixariam de ser apoiadas? Já que diz ser contra o comunitarismo…

Muitas destas associações – não são todas, mas são muitas – tornaram-se grupos de amigos que estão lá apenas a fazer umas festas, para dançar um bocado, para se mexer e para receber subsídios do Estado e nós não estamos numa altura de brincar, há empresas a fecharem todos os dias, estão negócios a falir à medida que nós estamos aqui a falar, há famílias que estão a perder o seu rendimento, o Estado não pode desperdiçar dinheiro em plataformas que não trazem nenhuma vantagem para o país e que muitas vezes só prejudicam o próprio país.

 

E se forem associações portuguesas fora? São também grupos de amigos que se juntam para partilharem uma ligação com Portugal. Essas associações também não devem ser apoiadas?

O que eu digo é: em Portugal, o exemplo que temos tido destas associações é que servem muitas vezes – não são todas – para atacar a polícia quando ela tem de agir em bairros mais problemáticos, servem para sugar os recursos do Estado sem dar nada de volta e sem trazer nenhuma utilidade. Mas isso não são só as associações de imigrantes, uma grande parte das nossas Fundações e associações culturais, produzem muito pouco na verdade e à medida que isso acontece, em que o Estado está a desbaratar dinheiro, temos empresários a falir, negócios a serem destruídos, temos uma Administração pública que não se moderniza, temos esquadras que parecem do Bangladesh dos anos 30 e dos anos 40, e temos um país a cair aos bocados. Enquanto não acabarmos com o discurso: “ai os coitadinhos precisam muito de ajuda, e nós temos que os ajudar porque tivemos uma ditadura de 40 anos aqui há 50 anos atrás”, enquanto nós continuaremos com essa mentalidade, não só nunca nos modernizaremos, como nunca seremos capazes de furar o espetro de discurso que nos mantém perfeitamente atrasados. Eu sou o primeiro político português, o primeiro em décadas, capaz de olhar nos olhos e dizer “não estão aí a fazer nada, o dinheiro dos Portugueses não serve para isso” e tenho muito orgulho nisso. É a primeira vez que nós temos a coragem e a capacidade de enfrentar o sistema instaurado.

 

Repito a pergunta: como vai tratar as associações de Portugueses no estrangeiro?

Depende, é como as nacionais: quem estiver a fazer alguma coisa pelos Portugueses, efetivamente, total apoio, os que estiverem a viver à custa dos subsídios do Estado, dos Portugueses que trabalham, podem fechar a porta que não estão cá a fazer nada. É muito simples, a regra é fácil de perceber: quem produz, quem trabalha, quem efetivamente se esforça para representar os Portugueses, para ajudá-los, serve. Vou dar-lhe um exemplo: Consulados que só abrem a porta uma vez por ano, que não atendem chamadas telefónicas, e que não fazem absolutamente nada pelas Comunidades que lá estão, comigo vão ter só uma orientação: fechar a porta.

 

Desculpe… não percebi. Já estávamos a acabar a entrevista, mas necessito de mais explicações. Não conheço nenhum Consulado que só abre a porta uma vez por ano. Mas a sua proposta é encerrar os Consulados? Percebi bem?

Encerram aqueles que não estão lá a fazer nada e abrimos outros, muitos mais, a funcionar bem. Porque se não estão a funcionar, não vale a pena continuarem a existir. No ano passado recebi mensagens de pessoas que estavam em Londres, 6 meses para conseguir que alguém atendesse um telefone! Isso não é admissível…

 

Então encerra Consulado de Londres? É isso que está a dizer?

Vamos perguntar o que se passa, e se é para isto que lá estão, então não vale a pena estarem lá. Mais vale reabrir uma rede alternativa que ajude as Comunidades e aí talvez o novo Ministério das Comunidades possa fazer. Agora há uma coisa que eu não aceito, que é estarmos a gastar balúrdios em países que deviam estar a ajudar as Comunidades portuguesas e só estão lá na verdade… não sei, talvez a passar férias ou talvez o olhar para o sol que faz na primavera, porque para ajudar as Comunidades portuguesas não estão. Podia dar-lhe outros exemplos. 6 meses para se atender o telefone, é inacreditável. Nós não podemos tolerar isso.

 

Eu percebo o que me diz, mas encerrar um Consulado… Se não está a funcionar bem, o que se espera de um político é que diga que o vai pôr a funcionar, agora dizer que vai encerrar…. E dizer que vai criar uma rede alternativa… permita-me que lhe pergunte o que é que está a ver por detrás disso?

Podemos desmantelar um Consulado que não esteja a funcionar bem e abrir 2 postos de atendimento muito mais pequenos e eficazes, junto das Comunidades. É um exemplo. É um exemplo que estamos a estudar e que queremos apresentar neste novo Ministério das Comunidades, agora uma coisa é certa, com o Chega, os Portugueses não vão estar a pagar impostos para sustentar instituições parasitas, que não servem para nada, que não estão a ajudar os Portugueses, que não fazem absolutamente trabalho nenhum, e que mais não fazem que prejudicar quem quer efetivamente trabalhar. Onde temos um Consulado, passaremos a ter 3 postos de atendimento, muito mais próximos das Comunidades, muito mais eficazes no atendimento e capazes de efetivamente resolver os problemas das pessoas e que estejam abertos todos os dias do ano, para receber emigrantes, com emigrantes lá a trabalhar, emigrantes portugueses, e que façam essa ponte que nós precisamos de fazer com as Comunidades. Porque o sistema que está montado até agora, não tem funcionado.

 

Se preferir, veja a entrevista AQUI.

 

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