
O Consulado-geral de Portugal em Bordeaux marcou presença, no passado dia 12 de abril, na cerimónia de homenagem aos refugiados do Campo de Gurs, nos Pirenéus Atlânticos, criado no seguimento da Guerra Civil Espanhola. A representação portuguesa esteve a cargo de Isabel Barradas, Técnica do Consulado Geral de Portugal em Bordeaux, mas também Presidente do Comité Francês Aristides de Sousa Mendes, que discursou ao lado das autoridades francesas e espanholas presentes.
A cerimónia decorreu junto ao Memorial erguido em honra dos milhares de refugiados que passaram por Gurs desde 1939, entre os quais cerca de 349 portugueses, muitos deles refugiados da Guerra Civil de Espanha ou opositores ao regime do Estado Novo. A presença portuguesa foi reforçada por Bruno Fernandes e Ana Torres, também membros do Comité Nacional Francês Aristides de Sousa Mendes, cuja participação foi igualmente destacada e agradecida.




“Gurs não é apenas um lugar de história. É um lugar de consciência”
No seu discurso, Isabel Barradas começou por agradecer o acolhimento e sublinhar a responsabilidade de representar Portugal num espaço que descreveu como “um lugar de memória”. Recordou que o campo, inicialmente criado para receber combatentes republicanos espanhóis, rapidamente se transformou num vasto dispositivo de internamento para estrangeiros, opositores políticos, resistentes e numerosas famílias judias posteriormente deportadas para campos de extermínio.
“Gurs não é apenas um lugar de história. É um lugar de consciência. Um lugar onde a Europa vacilou face aos seus próprios valores”, afirmou, lembrando que o campo simboliza as derivas de exclusão que marcaram o século XX.
A Representante do Consulado português em Bordeaux destacou ainda a presença portuguesa no campo, muitas vezes esquecida, evocando “os Portugueses de Gurs”, cuja memória tem sido recuperada graças ao trabalho conjunto do Comité Nacional Francês Aristides de Sousa Mendes e da Liga dos Combatentes e Resistentes Portugueses. Estas entidades, disse, têm sido “infatigáveis na démarche de os tornar visíveis ao olhar da história e da Comunidade”.
Desde 2021, uma estela instalada no local presta homenagem a estes refugiados portugueses, homens e mulheres que procuraram em França “um espaço de liberdade, de trabalho e de dignidade”, mas que acabaram por conhecer a realidade dura do internamento.
Memória ativa e responsabilidade presente
Ao longo da intervenção, Isabel Barradas insistiu na necessidade de transformar a memória em responsabilidade cívica. “Se souvenir, ce n’est pas seulement commémorer. C’est aussi choisir”, declarou, sublinhando que recordar implica defender a dignidade humana, recusar a indiferença e construir sociedades onde o estrangeiro não seja visto como ameaça.
Isabel Barradas estabeleceu ainda um paralelo entre os internados de Gurs e os refugiados contemporâneos que continuam a atravessar fronteiras em busca de segurança. “Hoje ainda, enquanto vos falo, homens, mulheres e crianças fogem da guerra, da miséria ou da perseguição. A sua vulnerabilidade ressoa tragicamente com a dos internados de Gurs”, afirmou.
Para Isabel Barradas, preservar a memória dos tempos de guerra é também garantir o futuro da paz. Alertou para os riscos atuais de novas formas de intolerância, discriminação e violação dos direitos humanos, frequentemente alimentadas pelo silêncio e pela passividade social.
“Neste lugar, o silêncio fala”
A intervenção terminou com um apelo à transmissão desta memória às gerações futuras. “Neste lugar, o silêncio fala. Ele lembra-nos as nossas responsabilidades”, disse, antes de citar Anne Frank: “O passado não pode ser desfeito, mas nunca se deve esperar um minuto para começar a mudar o mundo”.
A cerimónia encerrou com a deposição de duas coroas de flores junto ao monumento dedicado aos Portugueses que estiveram no Campo de Gurs, oferecidas pelo Consulado-geral de Portugal em Bordeaux e pelo Comité Francês Aristides de Sousa Mendes.
A presença portuguesa reforçou a importância de manter viva a memória dos exilados e resistentes que passaram por Gurs, sublinhando o compromisso de Portugal com a preservação histórica, a dignidade humana e a cooperação europeia em torno da memória democrática.






