O Embaixador de Portugal em França, José Augusto Duarte, cessa funções esta semana e vai passar a ser Embaixador de Portugal em Madrid. Nesta última entrevista ao LusoJornal, diz que a visita de Estado de Emmanuel Macron a Portugal foi fundamental e explica porque razão o Tratado bilateral assinado entre os dois países é tão importante.
Mas fala também dos Portugueses de França e do “profundo respeito” que leva desta Comunidade que “comeu o pão que o diabo amassou”.
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Neste momento de despedida, que balanço faz da sua missão em França?
É um balanço positivo, certamente. E é positivo porque quando cheguei a este país, em contacto estreito com as autoridades portuguesas, obviamente, foram estabelecidos uma série de objetivos concretos para a minha Carta de missão. Nós tínhamos algumas coisas importantes a conseguir do ponto de vista da relação bilateral institucional entre os dois países. Ora, não havia uma visita de Estado a Portugal desde maio de 1999. Tinha sido feita pelo então Presidente da República francesa Jacques Chirac…
Por que razão era tão importante fazer essa visita de Estado?
Era muito importante fazer esta visita porque o Presidente de França é Chefe de Estado e Chefe de Governo e há sempre uma série de dossiers jurídicos que são negociados e alcançados novos instrumentos legais que estabelecem novos patamares da relação entre os dois países. É claro que temos o Tratado de Lisboa, temos uma série de instrumentos de relação entre os Estados a partir da União Europeia, mas que complementam, não substituem, a relação bilateral. Os Estados europeus continuam a ter uma relação bilateral entre eles, independentemente da relação que existe entre todos, no conjunto, dentro da União Europeia. Somos parceiros europeus, sem dúvida, mas temos interesses também concretos, por isso, a nossa relação económica não é a mesma com todos os Estados membros, às vezes a proximidade até de pontos de vista não é exatamente a mesma, embora trabalhemos todos para os consensos europeus. Portanto, a proximidade entre Portugal e a França é evidente, ela é secular e nós precisaríamos de rejuvenescer, contribuir para essa mesma vitalidade, por isso, uma visita de Estado era fundamental. A visita de Estado contribuiria efetivamente para isso, para provar a fortaleza dos laços emocionais, afetivos, que ligam Portugueses a Franceses e Franceses a Portugueses, para provar também o reforço das relações económicas que são favoráveis a Portugal…
Esta vertente económica era também um dos seus objetivos quando chegou a França. Correu-lhe bem este objetivo?
Sim. Nós temos uma taxa de cobertura que é favorável a Portugal, é de quase 130% favorável ao nosso país nas trocas comerciais, temos muito investimento francês que é investimento estrutural, que cria milhares de postos de trabalho em Portugal e contribui para as exportações de Portugal para a França. Mas para além da parte económica, também há a parte institucional e para isso a negociação de um Tratado bilateral de amizade e cooperação do Estado francês e do Estado português era fundamental, porque isso sim, isso dá-nos um estatuto institucional de interlocutor preferencial e de um parceiro estratégico para a França.
O Tratado foi assinado no Porto e está publicado na sua íntegra no LusoJornal, mas o que tem de específico?
Recordo que a França tem este tipo de Tratado apenas com outros três países europeus – com a Itália, com a Alemanha e com a Espanha – e passou a ter agora também com Portugal. Certamente no futuro poderá ter com outros países, mas isso significa um estatuto muito concreto que é concedido às autoridades políticas portuguesas que poderão passar a ter cimeiras bilaterais com regularidade entre o Chefe de Governo português e o Chefe de Estado francês – que é simultaneamente Chefe de Governo – para debater assuntos essenciais do ponto de vista bilateral da agenda europeia e da agenda internacional. Ora, num contexto internacional onde tanta coisa cria certas interrogações e inquietações, esta parceria estratégica elevada ao mais alto nível, é fundamental e é um sentido do alcance estratégico de futuro muitíssimo importante. Portanto, a realização da visita de Estado era muito importante por si própria, daí ter envolvido o Presidente da República e o Primeiro-Ministro e o Presidente da República fez muito esforço para que ela tivesse tido lugar e o Primeiro-Ministro também. Tinha dois aspetos complementares: o aspeto simbólico da realização da visita, e o facto de aproveitar o contexto da visita para negociar coisas muitíssimo importantes. Estes aspetos, que faziam parte do objetivo a minha missão aqui em França foram completados.
O senhor Embaixador teve uma proximidade grande com a Comunidade portuguesa, acompanhou de perto os postos consulares… Como evoluiu o seu olhar sobre a Comunidade portuguesa desde que chegou até agora?
Não mudou porque não estava formado. Eu não tinha estudado em França, eu não tinha trabalhado em França, eu não tinha familiares em França, eu não conhecia essa mesma realidade, portanto não houve uma mudança porque não havia algo antes. Foi sendo construído pouco a pouco. E há de facto características fantásticas na nossa Comunidade. Eu nunca esquecerei a visita que fiz a Champigny-sur-Marne para ver uma exposição sobre aquilo que foi a Comunidade portuguesa quando chegou a França. Nós comemos aqui o pão que o diabo amassou. A Comunidade portuguesa passou maus bocados, mas arregaçou as mangas e deu provas de grande generosidade e grande qualidade humana. E por isso, eu tenho um profundo respeito e um profundo orgulho pelos valores desta gente. Às vezes não é propriamente a elite mais instruída e mais preparada, que tem as respostas mais adequadas para os desafios da vida. Estas pessoas, que não tinham geralmente nem grande instrução, que viviam de facto em condições económicas extremamente desfavoráveis e que viviam em condições muito pouco dignas para aquilo que é a vivência de um ser humano, lutaram pela vida de uma forma honesta e devotada, foram solidários entre eles e foi isso que contribuiu para essa solidariedade entre a Comunidade que lhes permitiu, juntos, criarem a riqueza e o sucesso que criaram. Hoje em dia, desses Portugueses que chegaram nos anos 60 sobretudo, e início dos anos 70, algumas centenas são milionários. Isso significa que são pessoas que de facto progrediram longe na vida e são uma fonte de inspiração para outros, naquilo que é o modelo da vida.
Também há pessoas que não são milionários…
Claro que nós temos hoje em dia de assistir as pessoas, sermos solidários, mas também, ao mesmo tempo temos que lutar pela vida de cada um de nós, lutar por nós, lutar pelos nossos filhos, pelos nossos amigos, pelos nossos vizinhos e acho que é uma grande inspiração. Toca-me muito fundo aquilo que eu vi ali naquela exposição, mas eu vi depois também a mesma coisa em todo o país, por toda a França, de forma permanente com todos os Portugueses com quem eu falava, um permanente respeito e amor profundo por Portugal e pela França ao mesmo tempo. Os Portugueses sem o realizarem de uma forma muito elaborada, são a simbiose perfeita do que é ser um bom cidadão em Portugal e um bom cidadão em França. Amando os dois países ao mesmo tempo. Isso não é incompatível.
Isso não é igual nos outros países?
Não obrigatoriamente. Até porque há países que proíbem por exemplo a dupla nacionalidade e proíbem porquê? Porque não confiam que isso seja possível, a pessoa respeitar igualmente e ter duplas lealdades. Os Portugueses são prova que isso é possível, que pode haver sim dupla lealdade, sem ser incompatível, e isso é uma coisa muito boa que nos dá um enormíssimo respeito que granjeei, um enorme respeito por parte das autoridades francesas e que nos deve orgulhar a nós todos, Portugueses, sejamos residentes em França ou não. Eu saio daqui, nesse aspeto, com um enorme carinho, um enorme respeito pela nossa Comunidade e não tenho a menor dúvida que é uma Comunidade que está fadada para o sucesso, que as coisas vão correr bem, embora tenhamos também desafios nomeadamente o da participação cívica da Comunidade portuguesa. Aí temos um trabalho, efetivamente, a fazer. Não estamos aqui propriamente num paraíso, temos obviamente coisas para trabalhar, para conquistar e para evoluir, para não cairmos no paternalismo e na auto complexação. Nós não podemos estar deslumbrados connosco próprios, dizendo que foi tudo alcançado, há novas etapas e a sociedade francesa é ótima para isso porque é crítica, tem uma vitalidade fantástica e obriga-nos a puxar para cima. Nós temos de facto de lutar pela vida para integrar não apenas do ponto de vista económico – e a Comunidade portuguesa já progrediu muito do ponto de vista económico, é uma Comunidade bem-sucedida e acho que temos que progredir também para participar noutros níveis com igual sucesso, como aquele que alcançamos o ponto de vista económico.
E sobre o novo Embaixador que vem para França, que características pode destacar?
É um grande profissional. Não é apenas um colega, é também um amigo. Acho que vai ser um grande Embaixador de Portugal em França. Tem uma enormíssima experiência, já foi Embaixador em vários países europeus, já foi Embaixador na Suécia, foi Embaixador em Espanha, foi Embaixador na Alemanha e eu acho que o currículo fala por si. Portanto, é um profissional de primeira categoria e não tenho a menor dúvida que vai fazer aqui um brilhante trabalho.